Política
Câmara aprova acordo de livre comércio entre Mercosul e EFTA
Bloco europeu reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça; texto segue agora para análise do Senado
A Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira (9), o acordo de livre comércio firmado entre os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), bloco formado por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. O texto consta do Projeto de Decreto Legislativo 570/26 e segue agora para votação no Senado.
Para o relator, deputado David Soares (Pode-SP), o acordo representa um passo relevante na estratégia de abertura internacional do Brasil e do bloco sul-americano. “A conclusão das negociações expande a rede de pactos comerciais do Mercosul com nações desenvolvidas, reforça sua posição no cenário global e consolida as relações econômicas euro-atlânticas”, afirmou.
Soares destacou que a EFTA é um “mercado sofisticado”, com potencial para absorver produtos brasileiros de maior valor agregado. Em 2025, o comércio entre o Brasil e os países do bloco europeu totalizou US$ 7,76 bilhões, segundo dados divulgados pelo governo brasileiro.
O relator também ressaltou que o acordo ganha importância após o pacto firmado com a União Europeia, por demonstrar a capacidade negociadora do Mercosul. “A aproximação com a EFTA é estratégica, pois seus países têm elevado desenvolvimento, estabilidade institucional, forte capacidade de investimento e demanda por produtos agroindustriais e industriais de qualidade, ampliando oportunidades para exportadores brasileiros”, disse.
Criada em 1960, a EFTA é uma organização comercial voltada ao livre comércio. Juntos, os quatro países somam cerca de 15 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,4 trilhão, com alguns dos maiores PIBs per capita do mundo.
Acordo amplo
Assinado no Rio de Janeiro em setembro de 2025, o acordo está estruturado em 16 capítulos e abrange temas como comércio de bens, defesa comercial, salvaguardas, barreiras técnicas, medidas sanitárias e fitossanitárias, serviços, investimentos, propriedade intelectual, compras governamentais, concorrência, desenvolvimento sustentável, solução de controvérsias e disposições institucionais.
No comércio de bens, o texto prevê isenção de tarifas para aproximadamente 97% das transações do Brasil com a EFTA e redução gradual das tarifas para cerca de 1,2%. Produtos agrícolas como laticínios, chocolates e fórmulas para alimentação infantil foram incluídos por meio de quotas tarifárias.
Pelo lado da EFTA, os países eliminarão 100% das tarifas de importação nos setores industrial e pesqueiro já na entrada em vigor do acordo. Considerando os setores agrícola e industrial, o acesso em livre comércio de produtos brasileiros deverá alcançar quase 99% do valor exportado.
O Brasil também poderá se beneficiar de quotas agrícolas oferecidas por Suíça, Liechtenstein e Noruega para produtos como carne bovina, carne de aves, milho, farinha de milho, mel e óleos vegetais, entre outros.
Barreiras sanitárias
Os capítulos sobre medidas sanitárias e fitossanitárias têm impacto direto nas exportações agropecuárias brasileiras. O acordo prevê o sistema de listas pré-estabelecidas, que facilita a exportação de carnes e outros alimentos ao permitir o reconhecimento prévio do sistema de inspeção sanitária do Brasil.
O texto também estabelece procedimentos de regionalização para produtos de origem animal e mecanismos de cooperação técnica entre autoridades sanitárias dos dois blocos.
Impacto fiscal
O governo brasileiro estima redução na arrecadação de tributos federais vinculados à importação de R$ 26,5 milhões em 2026, considerando a entrada em vigor prevista para 1º de agosto de 2026. A perda projetada é de R$ 121,45 milhões em 2027 e de R$ 179,3 milhões em 2028.
Segundo a mensagem encaminhada pelo Executivo ao Congresso, a redução de receita será compensada pelo maior dinamismo econômico decorrente da ampliação do acesso ao mercado da EFTA e de novos investimentos viabilizados pelo acordo.
Debate em Plenário
Para o deputado Hildo Rocha (MDB-MA), os fóruns de colaboração técnica previstos no acordo devem contribuir para o aprimoramento da produção agrícola. “Isso vai fazer com que os padrões exigidos na Europa também sejam adotados no nosso país no que diz respeito ao agro”, afirmou.
O líder da Maioria, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), ressaltou que há uma cláusula segundo a qual prestadores de serviços digitais só poderão se beneficiar do acordo se a matriz energética de seu país utilizar, no mínimo, 67% de energia limpa. “No Brasil, temos 90% de energia limpa. Isso será um exemplo de economia verde para o futuro da humanidade”, disse.
Para o líder da oposição, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), é importante que o Congresso aprove o acordo com celeridade. “As relações de nosso país precisam estar a contento da população, sobretudo que beneficiem o setor produtivo”, declarou.
Já o líder da federação Psol-Rede, deputado Tarcísio Motta (Psol-RJ), criticou o texto. “Ele mantém uma lógica de o Brasil como exportador de commodities em uma economia regressiva. Tem contrapartidas ambientais absolutamente insuficientes. E, no final das contas, vai favorecer as classes dominantes dos dois blocos”, afirmou.
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