Política
Esforço conjunto é essencial contra El Niño, segundo debatedores no Senado
O possível impacto climático do El Niño, que pode prejudicar severamente a população e a economia em 2026 e 2027, foi um dos principais temas de debate no Senado esta semana. Nesta quarta-feira (27), a Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) discutiu como a ciência pode agir para reduzir vulnerabilidades. Na quinta-feira (28), sessão de debate temático no Plenário, a partir das 9h, senadores engenheiros especialistas para analisar propostas de prevenção e resposta a aparências como o El Niño.
O El Niño é uma característica natural do Oceano Pacífico, caracterizada pelo aquecimento anormal das águas na faixa equatorial, com capacidade de influência do clima em diferentes regiões do mundo. Os cientistas preveem que este ano o El Niño terá especificidades fortes.
Na CCT, os debatedores concordaram que iniciativas para prevenir as consequências climáticas devem unir forças, já que ações fragmentadas não mantiveram a mesma eficácia.
Na presidência da audiência pública, o senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) destacou a importância de “providências tomadas de forma sincronizada, de forma inteligente, com economia de recursos antes e depois”.
— Vimos os efeitos de desastres naturais no país com tristeza, principalmente com a reprodução de efeitos catastróficos, com perdas financeiras e de vidas — afirmou.
O senador Wellington Fagundes (PL-MT) lembrou que uma seca extrema — consequência possível do El Nino para seu estado — pode virar uma tragédia ambiental, econômica e social. Ele lembrou que Mato Grosso é líder na produção de grãos, carne e algodão, e abriga riquezas ambientais, como o Pantanal mato-grossense e parte da região amazônica.
— Discutir o El Niño não é apenas falar do clima: é falar da vida humana, produção, meio ambiente, segurança alimentar, prevenção de desastres e responsabilidade pública — disse o senador, ao defender ações imediatas de prevenção, como um plano preventivo nacional.
Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), é preciso saber o que o governo já está fazendo para a prevenção. Ela afirmou que o Legislativo está se antecipando e manifestando preocupação com as populações mais vulneráveis.
Tendências
Coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Antônio Marengo Orsini afirmou que ainda é “cedo para cravar” se teremos uma edição forte do El Niño. Ele ressalvou, porém, que já foram registrados impactos severos em anos de El Niño moderado.
A tendência, segundo ele, é de diminuição da chuva nas regiões Norte e Nordeste no verão e no outono, de incremento da chuva na Região Sul, no sul de São Paulo e de Mato Grosso do Sul (na primavera) e aumento das temperaturas em praticamente todo o Brasil (o ano todo).
— Chuva intensa não é um desastre. A chuva não mata as pessoas: o que mata as pessoas é uma combinação de chuva que cai em uma área de população vulnerável e em uma área exposta, onde não deveria haver construção — afirmou Orsini.
A prevenção é necessária para reduzir os custos e as fatalidades, segundo o coordenador do Cemanden. Alguns estudos sugerem que para cada R$ 1 gasto em preparação e mitigação, são evitados R$ 4 em prejuízos futuros.
Percepção de risco
Diretor do Departamento de Clima e Sustentabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Osvaldo Luiz Leal de Moraes lembrou que muitos desastres não foram ocasionados por eventos climáticos extremos. Ele citou o caso do rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019, “que foi consequência de uma vulnerabilidade”.
A percepção do risco é um componente importante, mas não é a única diretriz para orientar as ações, de acordo com Moraes. Ele afirmou que apenas monitorar e emitir alertas não é suficiente, e que é preciso verificar como a ciência pode ajudar a mitigar esses impactos.
— Risco de desastre é o potencial de perda de vida, de destruição, determinado probabilisticamente, ou seja, pela matemática, o que significa de alguma maneira que se pode entender quais as vulnerabilidades que podem ser combatidas — afirmou.
O coordenador-geral de monitoramento e alerta do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), Tiago Schnorr, disse que planos de contingência podem ser acionados para proteger a população.
— A gente não pode precisar neste momento se teremos grandes desastres, a localização exata, por isso fazemos o monitoramento dia a dia — explicado.
Os monitoramentos geológicos e hidrológicos são distribuídos por estados e municípios. Schnorr destacou a ferramenta Defesa Civil Alerta, que faz difusão em massa de avisos à população, e que desde 2025 passou ao ter alcance nacional.
Para o coordenador de monitoramento e previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Mozar de Araújo Salvador, há muitas instituições competentes, com pessoas capacitadas, mas com trabalho fragmentado.
— Essas instituições estão sendo feitas, mas precisam ser aprimoradas constantemente. Alguns trabalhos estão sendo feitos em conjunto, para somar forças e não dividir recursos. Esse trabalho de excelência tem que ser transformado em uma comunicação eficaz para a população — afirmou.
Agropecuária
Para Eduardo Monteiro, pesquisador em agrometeorologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), é mais do que evidente e comprovado de que hoje se vive num país mais quente, em todas as regiões, e predominantemente mais seco, principalmente no Brasil central.
De acordo com o pesquisador, a situação no campo é complexa e, a despeito do Brasil ser uma potência agropecuária mundial, quando o tema é gestão de riscos “ainda infelizmente estamos aprendendo a engatinhar”.
Monteiro destacou que entre 2020 e 2021 houve atraso no início das chuvas, resultando em atrasos no início da primeira safra. Registraram-se ainda registros de temperatura negativa na América do Sul. O período também marcou a maior cheia na bacia do Rio Negro em 120 anos, seguida nos dois anos seguintes por situação oposta, com a maior seca.
Em 2021/2022, explicou Monteiro, houve um período de seca que provocou recorde de perdas financeiras na agricultura brasileira, e em 2023/2024, com atraso no início das chuvas, já como consequência do El Niño, ocorreu a sequência de muita seca no Rio Grande do Sul, seguida pelo maior desastre climático do estado, com as enchentes de 2024.
— Como resultado dessa realidade, vemos perdas econômicas na casa de centenas de bilhões nos últimos anos. 80% a 90% dos impactos econômicos acontecem na agricultura, justamente pela sua exposição, com presença em grandes áreas do país. Temos uma sequência de problemas sucessivos com o clima e um momento de desafio de mercado — avaliado.
Rio Grande do Sul
A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa, afirmou que a sociedade gaúcha hoje vive com medo. Ela disse que se sente como uma gestora de Estado, ao ter que definir diariamente se poderá manter a universidade aberta, em razão de eventos climáticos extremos.
— Não é só o El Niño que nos preocupa. No Sul, nos preocupamos muito com o vento vindo da Antártica, que vem mais fraco. Nos preocupamos muito o Oceano Atlântico estar mais quente. Quando a gente ouve falar que veio um vento, ficamos todos com muito medo, porque vem do oceano e a gente fica torcendo para que ele desvie, para que eu não precise fechar a universidade — afirmou a reitora.
Segundo Márcia, é preciso desenvolver a ciência para que se possa prever eventos que irão acontecer daqui a seis meses. Ela citou que está sendo criada na universidade um Centro de Ciências Atmosféricas, Oceânicas e Gestão de Riscos Climáticos. Também há o projeto de implantar um observatório de desastres, tudo voltado para “ajudar na implementação de políticas públicas”.
Região Amazônica
A redução nas chuvas aumenta a preocupação com os incêndios na Amazônia, segundo Ima Célia Guimarães Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi. Somente em 2024, informou, quase 500 municípios da região foram atingidos pelo fogo.
Naquele ano, 69% dos municípios da Amazônia Legal apresentaram algum nível de secura no primeiro semestre. Foram queimados quase 18 milhões de hectares de florestas nativas, o que equivale a 58% de toda a área queimada no país no mesmo período.
— O El Niño chega numa Amazônia já enfraquecida por décadas de desmatamento, de manipulação, de cicatrizes de secas anteriores. Isso nos leva a impactos muito grandes — afirmou.
Também participaram do debate Flávio Kapczinski, pró-reitor de Pesquisa da UFRGS; Andréa Bento Carvalho, professora do Instituto de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade Federal do Rio Grande (Furg); e Walter Collischonn, professor de Hidrologia da UFRGS.
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