Política

PGR defende mudanças na Lei da Ficha Limpa, mas pede ao STF suspensão de trechos

Procurador-geral Paulo Gonet reconhece compatibilidade da nova lei com a Constituição, mas aponta pontos que ferem a moralidade eleitoral e pede suspensão parcial ao Supremo.

07/01/2026
PGR defende mudanças na Lei da Ficha Limpa, mas pede ao STF suspensão de trechos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) parecer no qual reconhece que a nova Lei da Ficha Limpa é, em linhas gerais, compatível com a Constituição, mas solicita a suspensão de trechos que, segundo ele, extrapolam a proteção à moralidade eleitoral.

No documento, Gonet ressalta que cabe ao Congresso Nacional ajustar o regime de inelegibilidades e que o simples fato de a nova lei amenizar sanções não a torna inconstitucional, desde que seja preservado o núcleo de proteção à moralidade administrativa e à legitimidade das eleições.

A manifestação foi apresentada nesta terça-feira (6) na ação direta de inconstitucionalidade movida pela Rede Sustentabilidade, que pede a derrubada integral da nova lei sob o argumento de que o texto representa retrocesso em relação às regras aprovadas por iniciativa popular em 2010.

Congresso pode rever regras, diz PGR

Para Gonet, não procede a tese de que a Lei da Ficha Limpa se tornou intocável por ter origem popular. Segundo ele, uma lei aprovada por iniciativa popular não equivale a uma norma constitucional nem se transforma em cláusula pétrea.

"O legislador democrático pode reavaliar escolhas feitas no passado, desde que preserve a proteção mínima exigida pela Constituição", afirma o procurador-geral no parecer.

Segundo a PGR, a lei de 2025, embora tenha suavizado sanções, não elimina as inelegibilidades nem deixa de impor restrições relevantes a candidatos com histórico de condenações, afastando a ideia de retrocesso automático.

Pontos considerados inconstitucionais

Mesmo ao considerar a lei constitucional em seu conjunto, a PGR aponta trechos que, na avaliação do órgão, fogem da lógica de proteção das eleições livres e legítimas.

Um dos principais pontos questionados é a regra que permite unificar múltiplas condenações e fixar o início da inelegibilidade a partir da primeira decisão colegiada, mesmo quando houver condenações posteriores mais graves. Para a PGR, esse modelo iguala situações distintas e pode beneficiar quem acumula decisões judiciais desfavoráveis.

A PGR também critica a regra que permite considerar mudanças no caso do candidato até a diplomação. Para o órgão, a data-limite para verificar se alguém pode ou não concorrer deve ser o dia da eleição, conforme já decidido pelo STF, e não um momento posterior ao pleito.

Outro ponto questionado é a exigência de que a condenação por improbidade administrativa mencione expressamente, no dispositivo da decisão, lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito. Para a PGR, essa exigência cria insegurança jurídica e pode inviabilizar a aplicação da inelegibilidade por questões meramente formais.

Pedido ao Supremo

Ao final, o procurador-geral pede que o Supremo Tribunal Federal, sob relatoria da ministra Cármen Lúcia, suspenda cautelarmente trechos específicos da lei e dê interpretação conforme à Constituição a outros dispositivos, mantendo o restante do texto em vigor.