Política
Guerra fria por poder e desconfiança mútua marcam idas e vindas na relação entre Lira e Lula
Aliados do deputado veem intenção do petista de enfraquecer chefe da Câmara, que usa votações para pressionar Planalto
A longa negociação para a troca no comando da Caixa Econômica Federal, concluída na semana passada, evidenciou o clima de desconfiança que tem marcado a relação entre os dois políticos mais influentes do cenário atual, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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Ao arrastar a substituição de Rita Serrano por um um apadrinhado do deputado no banco estatal, Lula colocou em risco a tramitação de pautas econômicas do governo, que haviam sido travadas na Câmara como retaliação. O movimento foi coordenado: a votação do projeto que prevê a taxação de fundos dos super-ricos, considerada fundamental pelo Ministério da Fazenda para fechar as contas no ano que vem, foi confirmada por Lira meia hora depois de o governo anunciar oficialmente a mudança na Caixa.
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O gesto não significou, porém, o fim das tensões e da disputa pelo poder, segundo parlamentares próximos aos dois lados. Desde o início do ano, ambos travam uma espécie de guerra fria por relevância e pelo controle do Orçamento. A avaliação de parte do entorno do todo-poderoso cacique do Centrão é que Lula tenta “quebrar as pernas” de Lira e torná-lo um ator irrelevante em 2025, quando terminará seu período no comando da Casa. As dúvidas quanto aos sinais, de um lado e de outro, são evidentes em conversas reservadas e no cenário de incerteza sobre projetos cruciais para o governo.
Interferência direta
No início do mês, antes de viajar à Índia e à China, por exemplo, Lira autorizou o vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP), a tocar uma pauta de interesse do Planalto, incluindo o projeto que taxa os fundos dos super-ricos. Sem um sinal explícito do governo sobre a nomeação de Carlos Antônio Vieira para a Caixa, porém, o deputado do PP resolveu travar a pauta. Do exterior, ligou para os líderes e pediu que adiassem mais um pouco a votação.
Na quarta-feira, quando já estava de volta ao Brasil e reassumiu a cadeira, os deputados aprovaram a proposta, mas só após o governo oficializar a troca no comando do banco.
Em agosto, Lula e Lira chegaram a ensaiar uma aproximação durante as conversas que selaram a entrada de partidos do Centrão no governo, outra negociação arrastada e cheia de obstáculos. Para evitar especulações que atrapalhassem o acordo, foram feitas reuniões secretas, à noite, com direito a utilização de carros descaracterizados e sem registro dos encontros nas agendas.
André Fufuca, ex-líder do PP, então, foi nomeado ministro do Esporte, mas a pasta foi considerada pequena e pouco representativa pela bancada do partido de Lira. Poucos detalhes das conversas a dois são compartilhados pelo titular do Planalto e pelo presidente da Câmara.
De lá para cá, entre aliados, os relatos são de que o humor é variável e que “um vem administrando o outro”, seja quando Lira pressiona o governo e não garante votos ou quando Lula “estica a corda”.
Na Câmara, até mesmo petistas “liristas” começam a ficar incomodados com a estratégia de “faca no pescoço” atribuída ao deputado do PP. Do outro lado, a avaliação é que o governo precisa cumprir o que promete, em uma alusão à demora para entregar a Caixa.
No Planalto, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, é quem mais sofre pressão pela estratégia de Lula em postergar indicações e concluir acordos que envolvem cargos e verbas.
Recentemente, ainda insatisfeito com a demora pela indicação na Caixa, Lira deu aval à obstrução da pauta da Câmara promovida pela bancada ruralista, que protestava contra decisões do Supremo Tribunal Federal. Em jantar na sua residência oficial, assentiu com o movimento e demonstrou revolta com a posição do governo por não cumprir o acordo da Caixa. Segundo petistas, Lula ficou irritado quando o presidente da Câmara admitiu o acordo para indicação ao banco estatal em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo".
Emendas parlamentares
Mesmo após o gesto do governo, há novos focos de insatisfação. Uma das promessas era resolver a liberação de emendas herdadas pelos ministérios com o fim do orçamento secreto. Aliados ainda veem dificuldades e acreditam que o governo faz pouco para atender às demandas. Por isso, negociam impor ao Executivo um calendário fixo para o empenho de verba em 2024. Também estudam tornar impositivas as chamadas emendas de comissão.
Outro problema a ser equacionado é a indicação para o comando da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), disputada entre Republicanos e PSD, dois partidos com ministérios no primeiro escalão. Também está em negociação indicações para as vice-presidências da Caixa.
Para o cientista político Sérgio Abranches, a desconfiança entre Lula e Lira pode ser explicada em duas dimensões: uma política e outra institucional. A primeira tem a ver com o fato de que Lira nunca foi do campo político do petista. Já a segunda está relacionada ao avanço do Legislativo, que ganhou mais poder sobre a execução do Orçamento.
— O Lula hoje é refém do Congresso e precisa pagar resgates muito altos. A questão da Caixa Econômica foi um pagamento humilhante de resgate, porque não havia nenhum motivo para a demissão — diz o cientista político.
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