Poder e Governo
Aliados afirmam que Flávio não consultou equipe jurídica antes de divulgar carta de Bolsonaro
Moraes suspendeu visitas de Flávio ao pai por 90 dias
Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmam que o pré-candidato não consultou integrantes de sua equipe jurídica antes de divulgar, no último sábado, a carta escrita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo interlocutores do senador, a iniciativa de escrever e divulgar um comunicado aos apoiadores partiu do próprio ex-presidente, que desejava pôr fim às disputas em torno de sua sucessão, incluindo os atritos entre integrantes da própria família.
A divulgação da carta motivou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender por 90 dias as visitas de Flávio ao pai — ou seja, durante toda a campanha no primeiro turno. O ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para obter um documento cuja finalidade era exclusivamente sua divulgação nas redes sociais, burlando a proibição imposta ao ex-presidente de utilizar plataformas digitais, direta ou indiretamente.
Moraes também determinou que a defesa esclareça, em 48 horas, se Bolsonaro sabia que a carta seria publicada e enviou o caso ao procurador-geral eleitoral para apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada.
Antes de ler a carta em uma live transmitida pela internet, Flávio havia visitado Bolsonaro na residência onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar, como faz rotineiramente sempre que está em Brasília. Ao deixar o local, fez a transmissão e leu o texto na íntegra. O senador tem livre acesso às visitas por ser filho do ex-presidente e também por atuar como advogado constituído de Bolsonaro.
De acordo com interlocutores do senador, Bolsonaro decidiu escrever a carta porque estava incomodado com as disputas em torno de sua sucessão, que foram agravadas pelos atritos entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Interlocutores afirmam que, ao aceitar divulgar a carta, Flávio sequer cogitou que a leitura do texto pudesse trazer qualquer prejuízo ao pai. Segundo aliados, o senador encarou a iniciativa como um gesto de Bolsonaro em defesa de sua candidatura e, por isso, não viu necessidade de consultar previamente advogados.
No texto, Bolsonaro pede que os apoiadores "deixem de lado as possíveis diferenças" e se unam em torno da pré-candidatura presidencial do filho. Também o apresenta como seu "porta-voz", afirma confiar nele para "resgatar o Brasil" e o define como "a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento".
Após a leitura, Flávio afirmou que a carta representava um recado do pai para que aliados "caíssem dentro" da campanha e "vestissem a camisa" de sua candidatura.
A equipe jurídica de Flávio divulgou uma nota em que classifica a decisão de Moraes como "ilegal e inconstitucional". Os advogados argumentam que a medida viola dispositivos da Lei de Execução Penal que garantem ao preso o direito de receber visitas de familiares e de manter comunicação com o mundo exterior. Sustentam ainda que, por atuar como advogado constituído do pai, Flávio também teve violado o direito de comunicação entre advogado e cliente, previsto no Estatuto da Advocacia.
Segundo a manifestação, a defesa adotará as medidas judiciais cabíveis para tentar reverter a decisão.
Nos bastidores da campanha, porém, a repercussão da decisão dividiu aliados. Um grupo avalia que a suspensão das visitas representa um prejuízo para a campanha, uma vez que Bolsonaro seguia atuando como um dos principais conselheiros políticos do filho. Segundo esses interlocutores, o ex-presidente ainda participava das articulações sobre palanques estaduais, opinava sobre alianças locais e ajudava a arbitrar divergências políticas.
Sem o contato frequente, afirmam, Flávio perde exatamente durante a campanha um importante canal de aconselhamento. Se o prazo fixado por Moraes for cumprido integralmente, o senador só poderá voltar a visitar o pai em outubro, após a realização do primeiro turno das eleições, agendado para 4 de outubro.
Outro grupo, no entanto, faz uma interpretação diferente, afirmando que Bolsonaro já havia transmitido ao filho suas principais orientações sobre alianças e preferências nos estados, permitindo que Flávio conduza a campanha com maior autonomia. Eles acreditam que, mesmo impossibilitado de visitar o pai, o senador deve reduzir sua permanência em Brasília e intensificar viagens e agendas eleitorais pelo país.
Há ainda quem veja um possível ganho político e, de forma reservada, afirmem que a decisão poderá reforçar o discurso de perseguição judicial explorado pelo bolsonarismo e mobilizar apoiadores em torno da candidatura de Flávio.
Ao mesmo tempo, aliados reconhecem que a decisão atinge diretamente o principal objetivo da carta divulgada no sábado. Um interlocutor resume a avaliação afirmando que, na prática, Flávio deixa de exercer o papel de "porta-voz" atribuído pelo pai e ainda passa a conviver com o risco de responder por eventual propaganda eleitoral antecipada.
Aliados também questionam os fundamentos adotados por Moraes. Eles citam como precedentes as manifestações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enquanto esteve preso, além de cartas escritas por Bolsonaro e divulgadas por Michelle Bolsonaro neste ano sem que, segundo eles, houvesse consequência semelhante.
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