Poder e Governo

Planalto testa eventos com 'cercadinho' para atos de campanha com Lula mais próximo de apoiadores

No novo formato presidente fica de pé cercado pelo público; objetivo é dar mais dinamismo e permitir aproximação dos eleitores

Agência O Globo - 28/06/2026
Planalto testa eventos com 'cercadinho' para atos de campanha com Lula mais próximo de apoiadores
Lula - Foto: © ANSA/EPA

O Palácio do Planalto está testando um formato de eventos com a participação do presidente Lula que deverá ser usado na campanha à reeleição. A avaliação é que a nova fórmula, em que o petista e demais autoridades ficam de pé cercados pelo público, dá dinamismo às atividades, além de permitir maior proximidade do com os eleitores. Aliados veem risco, no entanto, de os improvisos sem leitura de discursos resultarem em dores de cabeça e citam a dificuldade de adaptar a fórmula para grandes públicos.

Já no modo campanha:

Do sertanejo à MPB:

Na semana passada, em Belo Horizonte, por exemplo, o presidente ironizou Neymar, dizendo que o atleta é o “primeiro convocado home office do mundo” para participar de uma Copa — o atacante é apoiador de Jair Bolsonaro. A declaração deu munição ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário na eleição, que atacou o presidente, falando em falta de patriotismo. O episódio ocorreu no momento em que Lula e aliados passaram a adotar as cores da bandeira brasileira para defender a soberania do país.

Um aliado do presidente reconhece que há esse risco de deslizes com o improviso, mas diz que o formato permite maior interação de Lula com o público. Outro interlocutor do petista minimiza eventuais escorregões, dizendo que isso já ocorre hoje em eventos que seguem o formato padrão com autoridades em um palco.

Cobrança

Desde que assumiu o terceiro mandato, Lula se queixa com integrantes de sua equipe do formato dos eventos governamentais. A avaliação é que eles acabam sendo muito parecidos uns com os outros — sobretudo quando ocorrem no Palácio do Planalto —, com formato engessado, falas das autoridades demoradas e pouca interação do presidente com o público.

Um modelo testado e bem avaliado após cobranças de Lula foi um em que o governo organiza eventos simultâneos em diferentes partes do país, com autoridades in loco representando a gestão federal. O titular do Planalto gostou e vem estimulando a repetição.

O próprio presidente falou mais de uma vez, já na segunda metade do mandato, que gostaria de fazer os eventos nas ruas para ficar em contato direto com o povo e que, por isso, viajaria o país para anunciar medidas de seu governo e lançar novas iniciativas.

O formato agora adotado passou a ser utilizado no início do ano. A primeira atividade ocorreu no Rio, em 15 de fevereiro, na inauguração da nova emergência do Hospital Federal Cardoso Fontes. De lá para cá, o modelo foi adotado em ao menos 29 outros eventos, a maioria relacionado à área da saúde. Mas há também eventos de infraestrutura —como inauguração de obras—, educação e visitas a fábricas. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) foi procurada, mas não respondeu.

Nesses eventos, todas as autoridades costumam ficar de pé, cercadas pelo público numa espécie de quadrado, o que rendeu o apelido entre interlocutores de Lula de formato “quadradinho”. As falas, dessa forma, são mais curtas e dinâmicas. Nesses atos, o presidente costuma transitar pelo espaço, posar para fotos e interagir diretamente com as pessoas, passando o microfone a elas e estimulando que falem.

Ele costuma ser orientado por auxiliares ao longo da atividade sobre pontos a serem abordados em sua fala, mas não lê discursos na hora. Em um evento em abril, por exemplo, um áudio vazado captou o ministro Sidônio Palmeira, da Secom, orientando o petista a defender o Pix.

— Não sei se a imprensa percebeu que a gente está fazendo esse modelo, não é mais comício. A gente quer falar para vocês da imprensa, para saberem o que está acontecendo —disse Lula em maio, em Sergipe.

A avaliação de aliados é que esse tom mais informal aproxima presidente do público, além de possibilitar que ele fale na mesma altura que os demais presentes, o que dá um ar de maior atenção ao público. Há também mais de uma câmera, o que possibilita diferentes ângulos de Lula.

— Estou falando que nem jogador de bola, diretamente para a câmera — disse o presidente no Rio, na terça-feira.

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) defendeu o modelo como forma de aumentar a divulgação da agenda de Lula nas redes de forma orgânica:

— O presidente se solta mais. Acaba ajudando nos cortes que as próprias pessoas fazem e replicam nas redes.

O desafio, diz um integrante do núcleo da pré-campanha, é adequar esse formato para grandes públicos. Ele ressalta que há preocupações como não afetar a segurança de Lula, além de possibilitar que a visibilidade das pessoas que acompanham a agenda não fique comprometida.