Poder e Governo

Flávio Bolsonaro se inscreve para falar em audiência nos EUA antes de decisão sobre tarifaço

Senador pediu cinco minutos para defender a suspensão de tarifas a produtos brasileiros e o Pix, em meio ao impacto político das críticas e ameaças de Donald Trump

Agência O Globo - 23/06/2026
Flávio Bolsonaro se inscreve para falar em audiência nos EUA antes de decisão sobre tarifaço
Flávio Bolsonaro - Foto: © Foto / Lula Marques / Agência Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL) se inscreveu para discursar em uma audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sobre uma proposta de novo tarifaço contra o Brasil. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ele solicitou cinco minutos de fala na sessão, marcada para 6 de julho, na condição de representante do Senado Federal e pré-candidato à Presidência.

Aliados afirmam que Flávio deve defender a suspensão da proposta de aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e também se manifestar em favor do Pix, alvo de críticas do governo de Donald Trump ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

Flávio retomaque

No início de junho, o USTR anunciou a conclusão da investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. O instrumento de política comercial dos Estados Unidos permite que Washington adote medidas contra países acusados ​​de práticas consideradas injustas.

O órgão questionou políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e ao Pix, além de temas como propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e questões ambientais.

O prazo para adoção ou suspensão das medidas contra o Brasil termina cerca de uma semana depois da audiência, em 15 de julho. Esta segunda-feira foi a data-limite para apresentação de pedidos de participação, e a comissão deverá divulgar nos próximos dias a lista dos inscritos. O governo Lula não indicou representantes.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostra que a nova tarifaço dos Estados Unidos foi associada a Flávio Bolsonaro. A maior parte dos entrevistados, 47%, concorda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, na avaliação de que seu oponente teria pedido as novas tarifas. Outros 35% concordam com a declaração do pré-candidato do PL de que teria pedido a Trump para não tarifar produtos brasileiros.

Além disso, 46% dos entrevistados afirmaram que Lula está certo ao dizer que as novas tarifas representam uma retaliação ao sistema de pagamentos Pix. Já 36% apoiam a versão de Flávio de que a medida seria uma resposta às declarações do petista contra os Estados Unidos, segundo a sondagem.

A família Bolsonaro mantém relações com a direita trumpista desde antes da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, mas estreitou os laços em meio ao julgamento da trama golpista, com apelos por uma ocorrência do governo dos Estados Unidos a uma suposta perseguição política promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Eduardo Bolsonaro se autoexilou nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado e passou a articular uma frente internacional de oposição ao lado do empresário Paulo Figueiredo, que comemorou, em julho passado, a imposição do primeiro tarifaço. “O Brasil merece a tarifa Moraes”, disse. Na semana passada, Eduardo foi condenado a 4 anos e 2 meses de prisão por crime de coação no curso do processo que investigou uma tentativa de golpe de Estado.

Flávio, por sua vez, foi escolhido pelo pai para concorrer ao Planalto e intensificou viagens e conversas em Washington. Desde o anúncio do governo americano sobre as novas tarifas, uma onda de publicações propostas ao senador tomou as redes sociais. Levantamento da consultoria Ativaweb DataLab, ao qual o GLOBO teve acesso, mostrou que as críticas foram reproduzidas por perfis governamentais, que buscaram vincular o pré-candidato do PL à ameaça de tarifas. Aliados bolsonaristas, em sentido contrário, atuaram para refutar essa associação.

O que Flávio vai falar aos EUA

No ofício enviado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, Flávio afirma ter tratado do tema diretamente com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. O senador promete se manifestar "contra a medida proposta e a favor de uma solução construtiva e negociada para as questões identificadas na investigação".

A tese central, segundo o documento, é que as tarifas não levariam à eliminação das práticas apontadas e poderiam produzir "o oposto do objetivo declarado". Flávio pretende propor a suspensão da medida e o início, "sem demora", de uma negociação bilateral abrangendo seis áreas identificadas como problemas pelos Estados Unidos.

"Duas posições são declaradas logo de início e de forma categórica. A testemunha opõe-se à imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e a qualquer medida externa para o sistema público brasileiro de pagamentos instantâneos. Faz isso em nome dos consumidores e produtores de ambos os países e em defesa de uma parceria que tem servido aos Estados Unidos e ao Brasil há mais de oitenta anos", diz o pedido.

Flávio acrescenta que não pretende pedir uma “concessão”, mas proporciona o restabelecimento de uma “parceria histórica” entre os países, em termos justos e recíprocos. Ele também deve argumentar que a nova tarifa prejudicaria exportadores brasileiros, importadores e consumidores americanos, além de beneficiar, na prática, o governo Lula.

“A parte beneficiada pela medida não é a parte que a medida visa atingir”, afirma o documento.

O senador diz ainda que vai responder a cada uma das seis constatações da investigação americana, incluindo o Pix, a aplicação de medidas anticorrupção e o desmatamento ilegal, com contestações a medidas impostas pelo governo federal e propostas de solução.

“Em várias das conclusões, a distância entre a posição do Representante Comercial e a de um governo brasileiro reformista é muito menor do que aquela existente em relação ao governo atual”, afirma.