Poder e Governo
PF mira Jaques Wagner e expõe fissuras na base baiana de Lula antes da campanha
Presidente deve se reunir com senador para discutir eventual saída do aliado da liderança do governo no Senado
A operação da Polícia Federal que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA) expôs fissuras no círculo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo conhecido como “República da Bahia” saiu chamuscado depois que uma investigação sobre o caso do Banco Master alcançou o líder do governo no Senado e levou o PT e o Palácio do Planalto para o centro do desgaste provocado pelas supostas fraudes relacionadas a Daniel Vorcaro.
O ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, apontou por quatro governantes como um dos auxiliares que levaram diretamente ao presidente a avaliação de que Wagner deveria deixar a liderança. Sidônio nega. Outros membros do Planalto reforçam o entendimento de que seria necessário separar um problema pessoal do parlamentar da imagem do governo, sobretudo às vésperas da campanha eleitoral.
De um lado, Sidônio atua para afastar de Lula o desgaste provocado pela citação de Wagner na investigação do Mestre — caso que também aparece entre as estratégias do PT para tentar desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial. Além disso, Wagner resiste a deixar o posto e se apoia na amizade de mais de 40 anos com Lula.
O senador é um dos poucos aliados da velha guarda petista que manteve influência no círculo próximo ao presidente. No entorno de Lula, Wagner é descrito como uma das raras vozes capazes de dizer “não” ao chefe do Executivo. Procurado, o senador não se manifestou.
A “República da Bahia” ganhou força com a chegada de Sidônio Palmeira ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2025. O grupo já reunia Wagner e o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, que deixou a carga em abril para disputar uma vaga ao Senado pela Bahia. Todos nasceram no estado e integraram o núcleo principal de conselheiros de Lula no terceiro mandato. Esse grupo, por exemplo, foi fiador da ida de Wellington César Lima e Silva para o comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública após a saída de Ricardo Lewandowski.
Apesar da pressão, uma eventual saída de Wagner só deverá ocorrer após um encontro pessoal entre ele e Lula. Aliados do petista afirmam que a reunião deve ocorrer na quarta-feira, quando ambos comparecerem em Brasília. A avaliação dos auxiliares presidenciais é que a iniciativa deve partir do próprio senador, para evitar constrangimentos. Não está descartado, no entanto, um movimento de Lula caso o aliado resista.
igual de anos
Jaques Wagner e Sidônio Palmeira são aliados históricos na Bahia. O marqueteiro foi o responsável pela campanha vitoriosa de Wagner ao Palácio de Ondina, em 2006, ano em que o PT passou a comandar o governo baiano. Agora, segundos interlocutores, Sidônio faz cálculos eleitorais ao defensor da saída do aliado da liderança do governo no Senado.
Wagner também foi responsável por lançar o nome de Rui Costa como seu sucessor no Governo da Bahia, embora, naquele momento, as chances de vitória do PT fossem consideradas remotas. Anos depois, foi um dos fiadores de Ida de Costa para a Casa Civil no terceiro mandato de Lula.
O senador ainda é descrito por petistas como um dos aliados mais próximos de Lula no plano pessoal. Além de frequentador assíduo do Palácio da Alvorada, Wagner respondeu com o presidente em novembro de 2022, logo após a vitória sobre Jair Bolsonaro nas urnas, para uma casa de praia na Ponta do Camarão, no sul da Bahia.
Na avaliação de parte do núcleo baiano, a saída de Wagner da liderança do governo no Senado não traria impactos eleitorais locais para a candidatura do senador à reeleição, mas ajudaria o governo a se afastar do escândalo do Master antes da campanha. No entorno de Sidônio, há consenso de que as relações de Vorcaro abrangem entre os temas da disputa eleitoral.
“Vantagens indevidas”
Jaques Wagner foi alvo de operação da Polícia Federal na última quinta-feira. A investigação aponta que ele teria recebido “vantagens indevidas” do Banco Master, de Daniel Vorcaro, para favorecer interesses do banqueiro e de seu ex-sócio, Augusto Lima. O parlamentar nega o envolvimento do Mestre.
Segundo relatos de governantes, há preocupação com o momento de uma eventual saída de Wagner da liderança do governo. A mudança ocorreria às vésperas das celebrações do 2 de Julho, data comemorativa da Independência da Bahia, quando o governo federal deve anunciar medidas positivas para o estado.
Todos os anos, Lula viaja a Salvador para participar das festividades. Desta vez, estão previstas a inauguração de um hospital em Alagoinhas (BA) e a reinauguração do Teatro Castro Alves, na capital. Ainda em julho, deverá ocorrer um evento no canto de obras da ponte que ligará Salvador à Ilha de Itaparica.
Atuação questionada
Como líder do governo no Senado, Wagner se tornou a voz de Lula na Casa, mas teve sua atuação questionada por governistas nos últimos meses. Um dos episódios que provocaram contrariedade entre auxiliares do presidente foi um acordo firmado sem avaliação do Planalto sobre a votação do projeto de lei da dosimetria, considerado favorável a Jair Bolsonaro (PL). Wagner negociou com a oposição que o governo não atrapalharia a tramitação da proposta e, em contrapartida, os opositores não impediriam o avanço de um projeto específico ao aumento da arrecadação do Executivo.
A atuação do senador também foi questionada após a derrota da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), revisada considerada histórica para Lula. O líder do governo apresentou ao Planalto e ao próprio presidente um cenário favorável à aprovação do chefe da Advocacia-Geral da União. Também pesa contra Wagner, segundos interlocutores, o fato de ele ter dito a Lula, mais de uma vez, que não teria qualquer envolvimento com Daniel Vorcaro nem com o escândalo do Mestre.
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