Poder e Governo

Carteado com Michelle, banhos de sol e fisioterapia: a rotina de Bolsonaro na prisão domiciliar

Prazo da detenção em casa termina na quinta-feira, e Moraes decidirá se mantém ou revoga o benefício

Agência O Globo - 22/06/2026
Carteado com Michelle, banhos de sol e fisioterapia: a rotina de Bolsonaro na prisão domiciliar
Michelle Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A poucos dias do fim do prazo da prisão domiciliar concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mantém uma rotina marcada por cuidados médicos, convivência familiar, momentos de oração e pouca atividade política — embora ela não seja inexistente. Enquanto aliados aguardam uma definição sobre uma eventual prorrogação da medida, Bolsonaro divide os dias entre consultas, sessões de fisioterapia, jogos de cartas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e visitas autorizadas.

Segundo interlocutores da família, os dias do ex-presidente começam com a medicação prescrita e seguem com compromissos relacionados à recuperação física, como as sessões de fisioterapia.

Ainda no tratamento após a cirurgia no ombro direito realizada neste ano, Bolsonaro segue sentindo fortes dores no local, quadro que tem parte limitada de suas atividades.

Aliados relatam ainda que os episódios de solução que marcaram suas internações começaram por ocasiões ocasionais, como Michelle tem afirmado em eventos públicos recentes. A ex-primeira-dama revelou também que a medicação do marido foi alterada para contornar o problema.

Quando não está cumprindo recomendações médicas, Bolsonaro costuma passar parte do tempo no quintal da residência para tomar sol. Outra parte do período em casa é dedicada às conversas com familiares e às seguranças que acompanham a rotina.

Aliados do ex-presidente afirmaram ainda que ele tem aproveitado o período fora da Papuda para dedicar mais tempo à filha Laura, ajudando em tarefas escolares e acompanhando mais de perto seu cotidiano — algo que pessoas próximas apontam como um efeito colateral positivo do recolhimento em casa.

O ex-presidente também costuma jogar cartas com Michelle e dedicar parte do dia à leitura da Bíblia, habitualmente incentivado pela ex-primeira-dama. À noite, faça uso de medicação para dormir.

A alimentação passou a ser controlada de forma mais escavada desde a transferência para casa. Segundo interlocutores, Michelle assumiu pessoalmente o preparo de parte das refeições do marido, que segue uma dieta restritiva recomendada pelos médicos e mantém preferência pela comida preparada pela mulher.

Entre os frequentadores mais assíduos da casa estão os advogados responsáveis ​​por sua defesa e membros da equipe médica que acompanham sua recuperação. No dia 13 de junho, um sábado, o visitante foi o senador Flávio Bolsonaro. Moraes autorizou a ida entre 11h e 13h, e pai e filho acabaram não vendo juntos o primeiro jogo do Brasil na Copa — a seleção empatou em 1 a 1 com o Marrocos, em partida que começou às 19h.

Michelle “sumida”

Embora tenha tido uma presença significativamente limitada nas agendas públicas, Michelle não avançou completamente nas discussões sobre políticas do grupo bolsonarista e tem frequentado lançamentos de pré-candidaturas de deputados.

Nessas agendas, ela se encontra com aliadas como a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a deputada Bia Kicis (PL-DF). Há duas semanas, Michelle também participou de um jantar reservado com senadoras que, segundo relatos, foi importante para que ela pudesse “descontrair”.

Aliadas e amigas de Michelle afirmam frequentemente, nos bastidores, que a prisão de Bolsonaro acabou por “prender” também a ex-primeira-dama, em referência ao tempo e ao esforço exigidos no cuidado diário do marido.

Interlocutores dizem que a ex-primeira-dama afetou significativamente sua atuação política durante o período de prisão domiciliar de Bolsonaro. A avaliação de pessoas próximas é que Michelle conseguiu evitar movimentos que pudessem ser interpretados como uma “provocação” a Moraes ou que gerassem novos desgastes para o ex-presidente.

Na véspera da decisão que autorizou Bolsonaro a cumprir a prisão domiciliar humanitária, Michelle se reuniu reservadamente com Moraes. Desde então, aliados passaram a identificar uma tentativa de preservação de canais de diálogo com o ministro.

O gesto mais explícito ocorreu em maio, segundos interlocutores, quando uma ex-primeira-dama chamou Moraes de “irmão em Cristo” durante um evento político, ao agradecer a autorização para que um cabeleireiro fosse até a residência do cabelo do ex-presidente.

A declaração causou desconforto em parte do bolsonarismo, mas foi interpretada pelos aliados como mais um sinal da estratégia de evitar confrontos públicos com o magistrado, que é, no fim das contas, as decisões responsáveis ​​pelas envolvendo Bolsonaro.

Embora continuem sendo apontados por aliados como um dos principais nomes do campo bolsonarista para o Senado pelo Distrito Federal em outubro, interlocutores afirmaram que Michelle ainda não tomou uma decisão definitiva sobre disputar uma carga eletiva, mas admitiram que esse é um desejo da ex-primeira-dama.

Ao mesmo tempo, ela também tem sido cobrada por uma ala do bolsonarismo ao entrar de vez na campanha de Flávio, mas tem demonstrado resistência. No início de junho, ao ser questionada sobre o assunto, Michelle afirmou que pretendia apoiá-lo, mas “no momento certo”, sem dar mais detalhes sobre quando isso ocorreria. Na ocasião, ela voltou a defender a manutenção da prisão domiciliar do marido por motivo de seu estado de saúde.

Domiciliar desde março

A atual fase do ex-presidente começou em março, depois que ele apresentou um quadro súbito de mal-estar enquanto estava custodiado no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, no Complexo da Papuda. Bolsonaro foi levado ao Hospital DF Star, em Brasília, após apresentar febre, queda na saturação de oxigênio e pneumonia bacteriana decorrente de broncoaspiração. Com base nos relatórios médicos apresentados à época pela defesa, Moraes autorizou a transferência para casa.

O ex-presidente retornou à residência em Brasília em 27 de março. Na decisão, Moraes foi colocado em prisão domiciliária por 90 dias, prazo que termina em 25 de junho, quinta-feira. Em maio, Bolsonaro voltou a ser internado para uma cirurgia no ombro.

A poucos dias do término do prazo, aliados avaliaram que Bolsonaro cumpriu as condições impostas pelo Supremo e evitou episódios que poderiam ser interpretados como descumprimento das determinações judiciais.

— É a primeira vez que eu vejo, na história do Brasil, uma prisão domiciliar com prazo de validade. Ela tem apenas regras que, se não forem cumpridas, a pessoa volta para o regime fechado. Fica um ponto de interrogatório muito grande — diz o deputado Zé Trovão (PL-SC).

A principal preocupação do entorno neste momento envolve a compreensão de uma arma vinculada ao ex-presidente durante uma blitz no início da semana.

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) marcou para esta terça-feira uma audiência por videoconferência para ouvir Bolsonaro sobre o caso e informou ao STF que vai compartilhar com o gabinete de Moraes as informações produzidas no inquérito aberto. No boletim de ocorrência, o ex-presidente aparece na condição de “envolvido”.

Apesar do episódio, interlocutores de Bolsonaro avaliam que o caso não deverá produzir consequências relevantes para sua situação judicial. A expectativa no grupo é que Moraes leve em consideração o cumprimento das demais condições da prisão domiciliária ao decidir se mantém ou não a medida após o prazo do prazo inicialmente previsto.