Poder e Governo

Sem candidato em SP, PSDB avalia apoio a Tarcísio contra Haddad

Kim Kataguiri e Paulo Serra, que somavam 10% das intenções de voto, desistiram da disputa e ampliaram a polarização pelo governo paulista

Agência O Globo - 22/06/2026
Sem candidato em SP, PSDB avalia apoio a Tarcísio contra Haddad
Tarcísio - Foto: © Sputnik / Guilherme Correia

Um dia depois de o deputado Kim Kataguiri (Missão) desistir da disputa pelo governo de São Paulo, o pré-candidato Paulo Serra (PSDB) seguiu o mesmo caminho e anunciou que também tentará uma cadeira na Câmara dos Deputados. Com a saída dos dois, que somavam 10% das intenções de voto na última pesquisa Genial/Quaest, a corrida ao Palácio dos Bandeirantes fica ainda mais polarizada entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro Fernando Haddad (PT). A tendência no PSDB é de apoio ao atual chefe do Executivo paulista.

Será a primeira vez na história que o PSDB não terá candidato ao governo de São Paulo, berço do tucanato e estado governado pela sigla por quase três décadas. Com as duas desistências, a disputa se desenha, por ora, em um cenário diferente dos dois últimos pleitos, quando a presença de um terceiro nome ajudou a dispersar votos e levou a eleição ao segundo turno. Foi assim em 2018, quando Paulo Skaf obteve 21%, e em 2022, com o tucano Rodrigo Garcia, que alcançou 18%. Ambos ficaram em terceiro lugar, apesar da votação expressiva.

Na última pesquisa Quaest, divulgada em abril, Tarcísio aparece com 38% das intenções de voto, seguido por Haddad, com 26%. Kim Kataguiri e Paulo Serra registravam 5% cada.

‘Tendência de Tarcísio’

Presidente estadual do PSDB, Paulo Serra não cravou apoio da sigla a Tarcísio, mas afirmou que a discussão “se inicia” e admitiu haver uma “tendência” de aliança, em razão de uma “identidade” entre os dois projetos políticos. O ex-prefeito de Santo André disse ainda que uma composição com Haddad seria “muito difícil”, já que o PT é “adversário histórico” dos tucanos.

— A gente tem uma federação com o Cidadania, tanto no âmbito estadual quanto no nacional, e no nosso estatuto está previsto que a definição nos estados cabe à executiva nacional da federação. Então, é uma discussão que se inicia. Claro que há uma identidade, uma tendência, vamos dizer assim, até por uma questão de raia política, de iniciar um diálogo com o governador Tarcísio. Mas isso ainda vai ser debatido internamente no colegiado da federação — afirmou.

Nas últimas semanas, houve conversas entre Serra e o presidente estadual do Republicanos, Roberto Carneiro. Aliados de Tarcísio afirmam que há “todo o interesse” em uma aliança com os tucanos. A palavra final, entretanto, caberá ao senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, e ao deputado Alex Manente, do Cidadania.

Kataguiri, por sua vez, disse no sábado que o Missão ainda não definiu se lançará um novo nome ao governo paulista ou se adotará uma postura de neutralidade. A princípio, o apoio a Tarcísio de Freitas não está no radar do partido.

Do lado de Tarcísio, aliados já falam em trabalhar para garantir a reeleição no primeiro turno. Correligionários avaliam que, sem a dispersão de votos entre vários candidatos, a primeira fase da votação poderá repetir o cenário do segundo turno de 2022, quando Haddad obteve 44,73% e Tarcísio venceu com 55,27%.

A favor do governador, segundo aliados, pesa o fato de ele ter a máquina pública nas mãos, poder apresentar entregas de gestão e iniciar a campanha com uma coligação que reúne PL, MDB, PSD, PP-União e PRD-Solidariedade — siglas que, na eleição passada, estavam com Rodrigo Garcia.

Já pessoas próximas a Haddad apostam que o petista conseguirá manter, ao menos, os cerca de 45% dos votos obtidos no segundo turno da eleição anterior, embora as pesquisas até agora o mostrem em patamar mais baixo. Uma das principais estratégias será desgastar Tarcísio na área da segurança pública, apontada pela Quaest como a principal preocupação dos paulistas. Para isso, a campanha aposta em vídeos críticos nas redes sociais, com casos de violência de grande repercussão, e deve antecipar propostas para o setor antes mesmo da conclusão do plano de governo.

Sem a presença de um terceiro nome para dispersar votos da direita, contudo, levar a disputa para o segundo turno se torna uma tarefa mais difícil. Nas últimas semanas, Haddad intensificou agendas no interior e levou Simone Tebet (PSB), pré-candidata ao Senado, a seu lado, na tentativa de reduzir a resistência histórica do interior paulista à esquerda e ampliar alianças, principalmente com setores do agronegócio e do empresariado.

Um dos desafios para a esquerda em São Paulo é a falta de definição da chapa, o que tem atrasado atos de pré-campanha. Integrantes do PSB e da federação Rede-PSOL têm se queixado, nos bastidores, da demora do presidente Lula e do PT para definir quem concorrerá ao Senado. A segunda vaga está entre Marina Silva (Rede) e Márcio França (PSB). Por causa disso, até agora não houve eventos conjuntos com Haddad e sua chapa na pré-campanha.

A situação contrasta com a da direita, que, com a chapa fechada, já realizou três grandes atos para anunciar as pré-candidaturas de André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. Os eventos tiveram ares de campanha e serviram de palanque não apenas para os dois, mas também para Tarcísio e Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.

Queda do tucanato

Criado em 1988, o PSDB participou de todas as eleições ao governo de São Paulo desde 1990, quando Mário Covas ficou em terceiro lugar. No pleito seguinte, em 1994, Covas foi eleito governador, dando início a uma sequência de administrações tucanas que durou quase 30 anos e passou por nomes como Geraldo Alckmin, José Serra e João Doria.

Nos últimos anos, o partido atravessa uma crise tanto em âmbito nacional, intensificada desde a vitória de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência em 2018 — quando o bolsonarismo ocupou o espaço dos tucanos na polarização com o PT —, quanto em São Paulo, seu reduto mais representativo. Nesse processo, houve também uma debandada de parlamentares tucanos, que migraram sobretudo para o PSD, de Gilberto Kassab, e para o MDB.

Em 2022, o PSDB amargou seu pior resultado em uma disputa estadual paulista. O então governador Rodrigo Garcia, hoje no Republicanos, tentou a reeleição, mas não chegou sequer ao segundo turno, disputado entre Tarcísio e Haddad.

A legenda, que já foi a maior bancada da Assembleia Legislativa de São Paulo, conta hoje com apenas dois deputados estaduais. Na capital, a situação tampouco é melhor: em 2024, pela primeira vez em 30 anos, nenhum tucano foi eleito vereador. Datena, candidato do partido à prefeitura, obteve apenas 1,84% dos votos. No segundo turno, o PSDB declarou apoio a Ricardo Nunes (MDB).