Poder e Governo

Do sertanejo à MPB, Lula e Flávio buscam artistas para ampliar alcance eleitoral

Petista aposta na proximidade com nomes historicamente ligados à esquerda, enquanto filho de Bolsonaro tenta reforçar pontes com o universo sertanejo

Agência O Globo - 21/06/2026
Do sertanejo à MPB, Lula e Flávio buscam artistas para ampliar alcance eleitoral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

A disputa por apoios no meio cultural tornou-se mais uma frente da corrida presidencial, com campanhas tentando dialogar com estratégias públicas e ampliar seu alcance. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na proximidade com artistas historicamente ligados à esquerda e ao círculo da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) busca pontes de cooperação com o universo sertanejo para interações com sua pré-candidatura ao Planalto.

No campo governamental, Janja atua como interlocutora de artistas, músicos e produtores culturais próximos ao petismo. Ela mantém relação com nomes da MPB, que costumam participar de eventos e manifestar apoio a Lula. Em 2022, ajudou a recriar um jingle histórico do petista e teve atuação informal na cooperação cultural da campanha. A primeira-dama também exerce influência no Ministério da Cultura, sendo próxima da ministra Margareth Menezes e do secretário-executivo Márcio Tavares.

Aliados esperam que Janja reedite esse papel, organizando eventos culturais durante a campanha nas cidades em que o presidente viaje para participar de atividades eleitorais. A agenda oficial deve começar em julho.

Do outro lado, a campanha de Flávio investe no universo sertanejo, segmento com forte identificação com o eleitorado do interior e do agronegócio. O cantor Gusttavo Lima, por exemplo, já declarou apoio a Jair Bolsonaro e mantém proximidade com a família. Em abril, apareceu em vídeo com Flávio em homenagem a Zezé di Camargo. Na ocasião, o senador usou uma camiseta com a frase “o agro é top”.

A estratégia incluiu, agora, um encontro reservado com representantes do sertanejo, realizado na última terça-feira, em Brasília. Integrantes da campanha afirmam que a agenda faz parte de um esforço mais amplo para aproximar o pré-candidato de personalidades com influência fora do ambiente político tradicional.

Engajamento

Nos últimos meses, o senador participou de eventos do setor, como feiras agropecuárias, onde acompanhou shows e interagiu com artistas. A comunicação da campanha também reflete essa aposta: o jingle “Vem com Fé” traz referências ao sertanejo e tem sido usado em eventos e nas redes sociais.

Auxiliares de Flávio avaliam que o apoio de artistas pode ajudar a reduzir resistências junto a segmentos que conhecem pouco ou que se associam apenas à imagem do pai. A intenção é ampliar sua capilaridade, inclusive com referências mais ligadas ao universo “pop”. A avaliação é que, embora as celebridades tenham transfiram votos de forma direta, elas ajudam a ampliar o alcance e a gerar engajamento nas redes sociais.

A ação ocorre em um momento em que tanto Lula quanto Flávio tentam expandir suas bases eleitorais para fóruns de suas “bolhas”, em busca de eleições consideradas “independentes”.

— Eu sei que o Flávio gosta muito de música sertaneja. Fomos juntos a um evento, a Fenamilho, em Patos de Minas, que tem muitos shows. Como a agenda do pré-candidato é muito corrida, a gente acabou não conseguindo ver as apresentações. Mas o Flávio até montou em um cavalo que arrumaram para as pessoas dentro do parque — disse o deputado e pré-candidato ao Senado por Minas Gerais, Domingos Sávio (PL).

Do lado de Lula, interlocutores destacam que a relação com artistas é “sólida e positiva”. Também há tentativa de aproximação com o sertanejo para reduzir resistências. A campanha deve explorar resultados da gestão na cultura, como a recriação do ministério e investimentos via Lei Paulo Gustavo, além de estabelecer contraste com o governo Bolsonaro, que manteve postura crítica a uma ala de artistas.

A secretária de Cultura do PT, Viviane Martins, afirma que é preciso destacar de forma didática a comparação entre os dois governos:

— É inegável uma mudança imensa de resultados na cultura do que foi de um governo para o outro.

Em 2022, a campanha de Lula reeditou o jingle “Sem medo de ser feliz”, de 1989, com participação de artistas como Chico Buarque e nomes da televisão, reforçando sua tradicional conexão com o meio cultural.