Poder e Governo

Caso Master amplia força de Mendonça na Segunda Turma do STF e desafia Gilmar

Voto do relator pela manutenção da prisão de familiares de Daniel Vorcaro derrota posição do decano e expõe nova correlação de forças no colegiado

Agência O Globo - 21/06/2026
Caso Master amplia força de Mendonça na Segunda Turma do STF e desafia Gilmar
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) - Foto: © Foto / Rosinei Coutinho/STF

Os desdobramentos do caso Master formaram uma nova rede de apoio em torno do ministro André Mendonça na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), colegiado no qual o decano da Corte, Gilmar Mendes, exerceu protagonismo há anos. A mudança na dinâmica interna ganhou novo capítulo na semana passada, quando o voto de Mendonça pela manutenção da prisão do pai de Daniel Vorcaro foi acompanhado pelos ministros Luiz Fux e Nunes Marques, derrotando a posição de Gilmar, que defendia a prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica.

O julgamento de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, foi visto no Supremo como um teste da atual projeção de forças armadas. Os ministros avaliaram que Nunes Marques tinha o voto climático decisivo. Caso acompanhasse Gilmar, teria empate, o que resultaria na concessão da prisão domiciliar.

Nunes Marques, porém, som Mendonça, relator do caso, assim como havia feito na decisão que manteve a prisão de Felipe Vorcaro, primo do banqueiro. Nesse julgamento, Gilmar votou pela soltura, com imposição de medidas cautelares, como a exclusão de contato com investigados.

Troca de farpas

A mudança ocorre em um espaço que historicamente funcionou como um dos principais centros de disputa entre o Supremo, movimento que se intensificou durante a Operação Lava-Jato. Foi na Segunda Turma que Gilmar protagonizou alguns dos debates mais duros contra métodos adotados pela força-tarefa de Curitiba e pelo então juiz Sergio Moro.

Ao lado de membros como o ex-ministro Ricardo Lewandowski e, posteriormente, Dias Toffoli, Gilmar formaram maioria em decisões envolvendo delações premiadas, prisões preventivas e investigações da Lava-Jato. O grupo se consolidou como contraponto à força-tarefa, enquanto o relator, ministro Edson Fachin, hoje presidente da Corte, muitas vezes foi vencido.

As divergências extrapolavam os méritos dos processos. Em um dos episódios daquele período, durante uma crise provocada pela delação da JBS, em 2017, Gilmar afirmou em sessão que o caso representava um “grande vexame” para o Supremo e algumas críticas ao então relator da Lava-Jato. Fachin respondeu: “Minha alma está em paz”.

A operação que acirrou os ânimos na Corte anos atrás voltou a ser indicada no julgamento que manteve a prisão preventiva de Henrique Vorcaro. As referências apresentadas em críticas de Gilmar às delações premiadas feitas “sob pressão” e em observações sobre a conduta de juízes que se envolvem nas investigações, mensagens interpretadas nos bastidores como recadas a Mendonça.

As avaliações do decano já feitas foram expostas durante a análise da prisão do próprio Daniel Vorcaro, em março, quando Gilmar criticou o “apelo a conceitos porosos e elásticos” usados ​​pelo relator. Ele também citou a Lava-Jato para alertar sobre o risco de “atropelo a ritos processuais” no caso, mas acabou acompanhando Mendonça, que obteve unanimidade na validação da medida que havia determinada.

Apesar do apoio que vem se consolidando como majoritário na Segunda Turma, a condução de Mendonça no caso Master enfrentou resistências entre parte dos ministros do outro colegiado. Nos bastidores, há críticas à forma como o relator vem participando. Mesmo dentro da Segunda Turma, interlocutores dos magistrados ressaltaram que não existe alinhamento automático em torno de Mendonça e que divergências pontuais podem surgir ao longo da tramitação. Procurados, os ministros e o STF não se manifestaram.

A composição original da Segunda Turma é bastante diferente daquela que protagonizou os debates da época da Lava-Jato e viu seu protagonismo diminuir com a ascensão do colegiado vizinho. Sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, a Primeira Turma concentrou julgamentos relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, às investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados e aos principais inquéritos sobre ataques à democracia.

O novo cenário começou a ser desenhado com a chegada de Nunes Marques, que ocupou a cadeira de Celso de Mello em 2020. Depois, veio a transferência de Cármen Lúcia para a Primeira Turma, em 2021; a aposentadoria de Ricardo Lewandowski, em 2023; a chegada de Dias Toffoli à Segunda Turma, também em 2023; e a ida de Fachin para a presidência da Corte, no ano passado.

Nos últimos meses, o caso Master contribuiu para recolocar o colegiado no centro da agenda. Ao longo de 2025, a escassez de processos na pauta tornou-se as sessões mais rápidas e, muitas vezes, mensais, em vez de semanais. Como relator das investigações após a saída de Toffoli, em fevereiro, Mendonça passou a decisões de direção envolvendo prisões, buscas, quebras de sigilo e medidas cautelares relacionadas ao inquérito, levando também o caso ao colegiado.

Integrantes do Supremo observam que a composição atual apresenta perfis distintos daqueles que marcaram a Segunda Turma no auge da Lava-Jato. Mendonça e Fux são vistos por colegas como ministros com posições mais rigorosas em matéria penal e menos submetidas a rever medidas cautelares decretadas durante investigações.

No ápice da Lava-Jato, a Segunda Turma chegou a ser chamada de “Jardim do Éden”, por acumular decisões elaboradas a réus, em contraposição à “Câmara de Gás”, nomeada à Primeira Turma.

Indecifrável

Atualmente, Nunes Marques, embora tenha se aproximado de Mendonça e de Fux em julgamentos recentes, continua sendo visto por colegas como um dos ministros mais difíceis de decifrar. Integrantes do Supremo afirmam que ele ainda não construiu um campo de atuação claramente identificável dentro do tribunal e costuma estabelecer alianças circunstanciais, conforme o tema em discussão.

Em diversos julgamentos, Nunes Marques atua como uma espécie de pêndulo, capaz de transitar entre diferentes grupos e definir o resultado das votações. Integrantes da Corte veem o alinhamento entre ele e Mendonça como um dos elementos que deram início à nova expansão interna, com a dupla atraindo, em parte dos julgamentos, Fux e Toffoli — este último se declara impedido nas ações relacionadas ao Master.

A relação entre Mendonça e Nunes Marques também se estreitou na razão da atuação conjunta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desde maio, Nunes Marques ocupa a presidência da Corte eleitoral, tendo Mendonça como vice. A mesma dinâmica passou a envolver Dias Toffoli, que no início do mês passou a ser uma cadeira de ministro titular do TSE.

Integrantes da Corte avaliaram que essa produção produziu efeitos também na Segunda Turma. Embora Toffoli mantenha posições próprias e nem sempre acompanhe os colegas do TSE, os ministros observam que se consolidou um núcleo de maior interlocução entre os três, o que reduz a previsibilidade das alianças que, durante anos, marcaram o colegiado, especialmente entre Toffoli e Gilmar.

Auxiliares do Supremo ressaltam que o novo cenário na Segunda Turma não significa perda de influência do decano. Gilmar continua sendo uma das vozes mais influentes da Corte, com capacidade de articulação tanto nos bastidores quanto no plenário. Em diversos temas, atua como principal interlocutor entre diferentes grupos de ministros, o Congresso e o Executivo. Na quarta-feira, ao comentar o momento vívido pelo Supremo, Gilmar afirmou que a defesa da democracia continua sendo um ponto de convergência entre os ministros e que, nesse tema, não há divisões dentro da Corte.