Poder e Governo
Tarcísio volta a enfrentar desafio de não ser o ‘22’ na urna
Estrategistas avaliam retomar slogans para reduzir confusão entre o número do governador e o do candidato apoiado à Presidência
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deve enfrentar novamente, na busca pela reeleição, o desafio de disputar com um número de urna diferente do candidato à Presidência apoiado por seu grupo político. Estrategistas da campanha sinalizam a retomada de slogans para reduzir o risco de confusão entre os parlamentares, enquanto aliados mais otimistas apostaram na transferência de votos para fortalecer os Republicanos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e na Câmara dos Deputados, inclusive com avanço sobre o PL.
A perda de votos “por engano” pode ter peso decisivo neste ano, sobretudo diante da possibilidade, apontada por pesquisas, de uma disputa ser resolvida já no primeiro turno. Aliados lembram que Tarcísio deixou de receber cerca de 500 mil votos na primeira fase da eleição passada, quando tinha como principal credencial política a passagem pelo Ministério da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro.
Na ocasião, esses votos foram dados ao “22”, número do PL, no momento de escolher o candidato ao governo paulista, o que levou à anulação. Tarcísio, apoiado por Bolsonaro, concordou pelos Republicanos e pediu o voto no “10”.
Música chiclete
Como estratégia, o jingle “Tarcísio é 10 e com ele eu vou” foi repetido à exaustão no pleito anterior, em complemento às músicas de apelo bolsonarista. O “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro” chegou a ser cantado por Neymar Jr. nas redes sociais, em um esforço para superar a lembrança do antigo “17”, do PSL, número usado por Bolsonaro em 2018.
A campanha do governador terá de lidar novamente com o problema, agora com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escalado para o enfrentamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um dos principais cabos eleitorais de Tarcísio já tratou do tema publicamente.
— O Tarcísio tem 10 ou não é? — disse o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), na semana passada, funcionários de uma unidade básica de saúde na Zona Sul da capital, reformada e reinaugurada em evento com a presença do governador.
Na ocasião, Nunes também declarou preocupação com as regras eleitorais.
— Sei que tem muito jornalista aqui e vocês viram que eu não fiz pedido de votos.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a pressão de Tarcísio para migrar de partido ao longo do mandato. A mudança faria mais sentido caso o governador fosse confirmado como candidato à Presidência, mas a hipótese perdeu força depois de Bolsonaro ungir o filho como candidato.
Alguns dos principais conselheiros políticos de Tarcísio estão no Republicanos, como o presidente estadual da sigla, Roberto Carneiro, atual secretário da Casa Civil. Ao permanecer no partido, o governador também ajuda a afastar uma das legendas tradicionais do Centrão, comandada pelo deputado federal paulista Marcos Pereira, de uma eventual aliança eleitoral com o PT.
Nos bastidores, é recorrente a avaliação de que o PL, partido de Jair Bolsonaro, chega enfraquecido à disputa em São Paulo, abrindo uma janela de oportunidade à direita. O voto bolsonarista que elegeu nomes como Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Ricardo Salles não tem destino claro neste momento: Eduardo está inelegível e nos Estados Unidos; Zambelli, na Itália; e Salles tenta uma vaga no Senado pelo Novo.
Esse cenário levou o partido de Tarcísio a apóstar no apresentador da TV Sikêra Júnior, conhecido por programas policiais na RedeTV! e por discursos conservadores já enquadrados pela Justiça Federal como discriminatórios. Natural do Amazonas, ele deve disputar espaço no eleitorado de direita. O deputado estadual Tomé Abduch, um dos precursores do movimento “Nas Ruas”, de viés bolsonarista e ligado a Zambelli, também deve tentar uma vaga na Câmara pelos Republicanos.
Um articulador político disponível, sob reserva, que Flávio Bolsonaro não demonstra a mesma capacidade de convocação de votos do pai, que cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Para esse aliado, um Tarcísio “mais independente” do bolsonarismo, com campanha focada nas entregas da gestão, pode ajudar a alavancar nomes próximos ao governador e não necessariamente direcionados à família do ex-presidente.
Reforço à máquina
O peso da máquina estadual aumenta a confiança dos aliados de que Tarcísio não apenas conseguirá superar com mais facilidade a divergência numérica nas urnas, como também poderá ampliar a votação na legenda. O ex-deputado estadual Danilo Campetti (Republicanos), que perdeu o mandato com o retorno da secretária de Esportes, Coronel Helena (PSD), à Alesp, aposta nessa estratégia. Ele acertou com o partido a candidatura com um número que combina o “10” com o “22”.
— O trabalho do Tarcísio é consolidado e reconhecido, e isso certamente vai repercutir nas urnas. A vinculação ao número fica mais fácil — afirma.
Integrantes dos Republicanos ressaltam que a sigla tinha, no máximo, 15 prefeitos antes da chegada de Tarcísio ao poder. Hoje, esse número chega a 93.
Apesar da ligação histórica com a Igreja Universal, os Republicanos têm buscado fortalecer seus quadros com nomes de maior densidade política, mantendo a expectativa de eleger cerca de cinco candidatos oriundos do segmento evangélico. Um exemplo é a deputada estadual Bruna Furlan, ex-PSDB. Filha de Rubens Furlan, ex-prefeito de Barueri por quatro mandatos, surge como potencial puxadora de votos do partido.
Atualmente, o PL tem 21 deputados na Alesp, contra nove dos Republicanos. O partido de Tarcísio calcula que poderá chegar a 15 cadeiras.
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