Poder e Governo
‘Recondo e os Onze’: Mendonça e Gilmar entre o Velho e o Novo Testamento
Da Lava Jato ao caso Master, ministros trocam recados que vão além do que percebe um observador desatento
Este conteúdo faz parte da newsletter Recondo e os Onze, em que Felipe Recondo traduz os movimentos do STF e de seus ministros.
A sessão da Turma do STF que julgava um incidente relacionado ao caso Master funcionou como um ajuste de contas. O diálogo entre os ministros trouxe mais mensagens, referências e recados do que poderia captar um observador desatento.
A começar pela paráfrase de um embate recente entre os dois. Quando André Mendonça iniciou sua divergência, na terça-feira, com a frase — “Quero agradecer por este julgamento presencial, que me permite pôr às claras algumas coisas que não estão tão claras” —, certamente tinha na memória o que ouviu, em silêncio, de Gilmar Mendes em março deste ano. Na ocasião, Gilmar afirmou: “Quero agradecer a ele por ter nos dado esta oportunidade de ouro de dialogarmos, inclusive, com a CPMI”.
Mesmo que seja apenas um detalhe entre tantas mensagens trocadas, o episódio revela a natureza desse conflito e a forma de pensar de Gilmar Mendes — já bastante conhecida por quem acompanha o tribunal há décadas — e de André Mendonça, um dos mais novos integrantes da Corte e ainda em processo de compreensão por muitos observadores.
Nos embates sobre combate à corrupção, Gilmar Mendes costuma recorrer a uma espécie de cartilha formada pela lista de erros e vícios da Lava Jato. São pontos já notórios: os diálogos entre o então juiz Sergio Moro e o Ministério Público, os vazamentos indevidos de informações e a manipulação da opinião pública.
É como um fantasma a pairar sobre as investigações de corrupção no Supremo. Como se a máscara de Sergio Moro pudesse se ajustar ao rosto de Mendonça; como se ele fosse um lavajatista acrítico, destinado a atuar, mais cedo ou mais tarde, como justiceiro. Talvez se ignore, nesse raciocínio, que Mendonça já fazia críticas a Moro e aos procedimentos da operação quando ainda era um nome anônimo na Controladoria-Geral da União.
Os alertas de Gilmar Mendes foram explícitos. Era como se dissesse — e como costuma repetir — que o Supremo pode ter um encontro marcado com esse tipo de situação. Mendonça que cuide para que o caso Master não se transforme na próxima Lava Jato.
Mas, do outro lado da linha nesse diálogo, está alguém que transita entre o Velho e o Novo Testamento. Genuinamente evangélico, Mendonça parece exercitar ambos em momentos distintos, conforme a circunstância. Na relação com os colegas, demonstra a piedade e a compreensão associadas ao Novo Testamento. Quando o tema é justiça, porém, recorre especialmente a um profeta do Velho Testamento: Habacuque.
Habacuque é o profeta que questiona Deus sobre a impunidade do mal e a lentidão da justiça. E, mesmo sem uma resposta definitiva, declara que viverá pela fé e confiará apesar de tudo.
Gilmar Mendes é repetitivo, minucioso e, às vezes, impiedoso. André Mendonça, ao lembrar Habacuque, não se aproxima da vingança nem da resignação cínica, mas da confiança paciente.
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