Poder e Governo

Viagens de Vorcaro a NY, Courchevel e St. Barths somaram R$ 41 milhões, diz PF

Banqueiro usava serviço “ultra premium” para organizar hotéis de luxo, iate, massagistas e compra de bolsa Hermès

Agência O Globo - 18/06/2026
Viagens de Vorcaro a NY, Courchevel e St. Barths somaram R$ 41 milhões, diz PF
Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A Polícia Federal identificou que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, gastou R$ 41 milhões em viagens a Nova York, Courchevel, nos Alpes franceses, e St. Barths, ilha no Caribe, entre 2024 e 2025. Notas fiscais reunidas pela investigação detalham despesas com hotéis de luxo, massagistas à disposição, aluguel de iate e de uma vila exclusiva de frente para o mar, fretamento de voos, eventos com autoridades e compra de bolsas Hermès, posteriormente entregues em Miami.

As informações foram reunidas pela empresa que prestava serviços “ultra premium” a Vorcaro e cuidava de todos os detalhes dos deslocamentos do banqueiro. Mensagens entre o dono do Banco Master e o gerente da firma, sediada na Flórida, foram apreendidas pela PF, o que levou a novos desdobramentos na apuração.

A empresa afirma atuar há dez anos no mercado de turismo de luxo e informou que o dono do Banco Master era um dos clientes mais assíduos de uma carteira com 105 nomes. Em uma das viagens detalhadas no inquérito, a firma providenciou, a pedido de Vorcaro, reservas de suítes no Park Hyatt New York, hotel de luxo em Manhattan, em nome dele e de convidados, entre eles o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo a companhia, a viagem ocorreu entre 11 e 15 de maio de 2024 e tinha como objetivo a participação em eventos na cidade americana.

Também ficou a cargo do serviço a organização de um encontro em que foram distribuídas garrafas de uísque Macallan 30 anos e charutos. Conforme revelou a colunista Malu Gaspar, a degustação ocorreu no The Carnegie Club, um espaço exclusivo, e contou com a presença de políticos, como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).

A fatura enviada a Vorcaro com os gastos em Nova York ficou em US$ 4,7 milhões, o equivalente a R$ 23 milhões na cotação da época. O documento indica que o banqueiro reservou três quartos no hotel situado na chamada “rua dos bilionários” de Nova York, entre eles a suíte presidencial. Também aparecem na cobrança despesas com dois voos em jatinho entre Guarulhos e Nova York, acomodação em outro hotel de Manhattan, US$ 44 mil em extras no hotel e US$ 5,9 mil em compras de um convidado.

Os documentos mostram ainda que Vorcaro reservou, por três dias, uma mansão com 21 suítes, ao custo de US$ 1,2 milhão, para realizar três eventos. O banqueiro pagou por produção, decoração, som e iluminação, além de performances de artistas — cujos nomes não são mencionados.

“Amanhã cedo tenho outro [evento]. À tarde outro. À noite outro. E quarta uns quatro”, disse Vorcaro em mensagem à noiva, em 13 de maio de 2024. “Que máximo! Que agenda crazy [louca]. Não achei que fosse ser assim”, respondeu Martha Graeff, segundo troca de mensagens que também integra a investigação.

Esqui em Courchevel

Oito meses depois, Vorcaro recorreu novamente aos serviços da empresa para organizar uma viagem a Courchevel, na França, em janeiro de 2025. Equipamentos de esqui, pagamentos em restaurantes e massagistas à disposição durante a estadia entraram na conta, fechada em US$ 2,1 milhões — o equivalente a R$ 12,9 milhões, conforme a cotação da ocasião.

Somente com hospedagem, o banqueiro desembolsou US$ 1,2 milhão. As faturas detalham ainda a compra de uma bolsa Hermès, ao custo de US$ 15 mil, valor que incluiu uma passagem aérea para que o item fosse entregue em mãos em Miami, onde morava a então noiva de Vorcaro.

A previsão inicial era de que o banqueiro permanecesse no local entre 11 e 26 de janeiro de 2025. Durante a viagem, no entanto, a partida foi antecipada. Vorcaro seguiu para Zurique, na Suíça, onde ficou nos dias 23 e 24 de janeiro, e depois para St. Barths, no Caribe, onde permaneceu de 28 de janeiro a 4 de fevereiro. Seu convidado, Ciro Nogueira, continuou hospedado nos Alpes franceses.

“Reservas até sábado”

Foi nesse contexto de mudança de planos que a Polícia Federal interceptou uma mensagem em que Vorcaro orienta o gerente da empresa de turismo a continuar pagando a conta de restaurantes para o senador Ciro Nogueira. A firma informou aos investigadores que o banqueiro deu a mesma ordem em outro grupo criado para a organização da viagem. Na conversa, batizada de “DV Courchevel”, Vorcaro escreveu, em inglês, que Ciro e sua companheira permaneceriam no local e que ele “precisava que fossem reservados restaurantes até o sábado para eles”.

Enquanto arcava com as despesas do convidado em Courchevel, Vorcaro também gastava no Caribe. O banqueiro alugou uma vila inteira, com nove quartos e vista para o mar, pagou por um tour de um dia em iate e bancou apresentações de artistas. A conta fechou em US$ 840 mil, o equivalente a R$ 5,2 milhões na cotação da época.

“O sr. Daniel Vorcaro, que integra o perfil de contratantes dos serviços prestados, figurou entre os clientes mais assíduos da empresa. Suas contratações compreendiam viagens e eventos de lazer, primordialmente privados, com foco no atendimento de concierge e serviços personalizados de alto padrão”, informou a empresa no curso da investigação.