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PF aponta que empresa de Ciro comprou ações de Vorcaro com 92% de desconto para receber dividendos

Segundo análise baseada em alerta do Coaf, senador teria recuperado quase todo o investimento em distribuição de lucros três meses depois

Agência O Globo - 17/06/2026
PF aponta que empresa de Ciro comprou ações de Vorcaro com 92% de desconto para receber dividendos
Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução

Um pagamento de R$ 1 milhão feito por uma das empresas do senador Ciro Nogueira (PP-PI) levantou suspeitas da Polícia Federal sobre supostas vantagens indevidas pagas ao parlamentar por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A investigação aponta que a venda de ações de uma empresa ligada ao ex-banqueiro teria sido usada como mecanismo para que o senador recebesse valores sob a forma de lucro distribuído a acionistas, conhecidos no mercado como dividendos.

A estratégia foi identificada em mensagens interceptadas pela PF e apresentadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para justificar a operação que teve Ciro Nogueira como alvo. Em uma das mensagens anexadas ao processo, de 24 de janeiro de 2024, Vorcaro relata ao primo, Felipe Vorcaro, a necessidade de encontrar um caminho para escoar recursos com aparência de legitimidade. “Preciso de um lugar que dê para gerar dividendos”, afirmou Daniel. Procurada, a defesa do ex-banqueiro informou que não comentaria o caso. O senador não se manifestou.

Segundo a PF, Vorcaro buscava, também com o auxílio do cunhado, Fabiano Zettel, uma forma de viabilizar o pagamento desses dividendos a uma pessoa física sem que a operação chamasse a atenção dos mecanismos de fiscalização e conformidade dos bancos. Ao fim de cada ano, empresas com acionistas fazem um balanço e calculam o lucro ou o prejuízo obtido no período. Em caso de lucro, essa renda pode ser repassada aos sócios na forma de dividendos — processo semelhante ao adotado por companhias de capital aberto, como a Petrobras, no pagamento a detentores de ações na Bolsa.

O pagamento investigado, no valor de R$ 1 milhão, foi identificado em um alerta emitido pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão do governo que recebe comunicações de bancos, corretoras e cartórios sobre movimentações financeiras atípicas. A PF sustenta que uma “engenharia societária” permitiu que uma empresa ligada a Ciro Nogueira adquirisse participação nos negócios de Vorcaro com desconto de 92%.

A operação envolveu a venda de parte das ações da Green Investimentos. Até então, a empresa era integralmente controlada pelo fundo Green, ligado a Vorcaro. A CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa que tem o senador como sócio, adquiriu 30% das ações — fatia que corresponderia à proporção do negócio que lhe daria direito a lucros futuros. A Green, por sua vez, detinha participação acionária na Trinity Energias Renováveis, que atua no setor elétrico.

O contrato de compra e venda foi formalizado em abril de 2024. Pelo acordo, a CNLF, de Ciro Nogueira, comprou 30% do capital da Green pelo valor de R$ 1 milhão.

Entretanto, conforme a investigação, avaliações internas feitas pelo próprio administrador do fundo de Vorcaro indicavam que a totalidade das ações da empresa valia R$ 43,5 milhões. Por esse cálculo, a fatia de 30% adquirida pela empresa ligada ao senador deveria custar cerca de R$ 13 milhões. Como o valor pago foi de apenas R$ 1 milhão, o desconto chegou a 92,3%, o equivalente a 7,7% do valor estimado.

Em relatório, a PF também destacou uma manobra considerada incomum na operação:

“Sob a ótica negocial ordinária, tratando-se de venda de participação societária pelo Green FIP (fundo de investimento), os recursos financeiros decorrentes da operação deveriam ingressar no patrimônio do fundo vendedor, e não no caixa da própria sociedade cuja participação foi alienada”, diz a análise da Polícia Federal.

Os investigadores afirmam que, em uma venda comum de ações, o dinheiro pago pelo comprador deveria ter sido destinado ao caixa do fundo que estava vendendo a participação societária. No entanto, o R$ 1 milhão teria entrado diretamente no caixa da própria empresa negociada. Para a PF, esse ponto reforça a suspeita de que a operação foi estruturada de forma artificial.

Para evitar alertas às autoridades e aos órgãos do setor elétrico, do qual a Trinity faz parte, o acordo teria sido mantido como um “contrato de gaveta”, ou seja, sem registro público imediato. O desenho da operação foi mencionado por Felipe Vorcaro em outro diálogo com Daniel Vorcaro, em abril, também interceptado pela Polícia Federal.

“Só importante estar alinhado que neste momento precisamos disso somente como instrumento particular, pois o Acordo de Acionistas Trinity acaba restringindo essa operação, pois tem direito de preferência”, afirmou Felipe, indicando que o registro oficial poderia revelar o negócio aos demais sócios da Trinity antes do momento pretendido.

De acordo com a PF, o retorno do investimento de Ciro Nogueira teria ocorrido em curto prazo. Em julho de 2024, três meses após a assinatura do contrato, Felipe Vorcaro informou a Daniel que havia sido recebida a distribuição anual de lucros da Trinity, no valor total de R$ 2,4 milhões.

“Considerando que os 30% atribuídos à empresa ligada ao senador Ciro Nogueira corresponderiam, proporcionalmente, ao montante de aproximadamente R$ 720 mil, verifica-se que, em um único exercício, tal valor se aproxima do montante integral supostamente investido, indicando que, em curto espaço de tempo, o investimento inicial estaria praticamente recuperado”, afirmou a Polícia Federal.