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PF aponta snipers, blindados e ameaças em grupo ligado a Vorcaro

Segundo a Polícia Federal, estrutura chamada “A Turma” atuava com homens armados, celulares estrangeiros e ações de intimidação para proteger interesses do ex-banqueiro e de sua família.

Agência O Globo - 17/06/2026
PF aponta snipers, blindados e ameaças em grupo ligado a Vorcaro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Atiradores de elite, homens armados com fuzis, carros blindados, celulares registrados no exterior e reuniões em locais isolados, longe de testemunhas. É assim que a Polícia Federal descreveu o funcionamento do grupo denominado “A Turma” , uma estrutura clandestina de intimidação e vigilância que, segundo as investigações do caso Master, atuou para proteger os interesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de sua família.

O grupo, formado por policiais federais, operadores do jogo do bicho e integrantes com perfil paramilitar, é apontado pela PF como responsável por ameaçar desafetos, acessar informações sigilosas e executar uma série de ações ilícitas em favor do empresário.

As informações constam da representação da Polícia Federal tornada pública na terça-feira por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o pesquisador, a organização era controlada por Vorcaro, ao lado de seu pai, Henrique Vorcaro, e gerenciada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

A investigação aponta que, mesmo após a deflagração das duas primeiras fases da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025 e janeiro de 2026, Henrique Vorcaro continuou exigindo os serviços da organização e viabilizando o repasse de recursos, seja por meio do policial federal federal Marilson Roseno da Silva, seja por contato direto com Felipe Mourão.

Blindados e homens armados

Um dos episódios descritos pela Polícia Federal envolve um encontro organizado por Manoel Mendes Rodrigues, apontado como líder do braço da Turma no Rio de Janeiro e operador do jogo do bicho. Em conversa interceptada em fevereiro deste ano, Manoel relata a um interlocutor que Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, e outro homem ficaram assustados ao serem recebidos por homens armados e veículos blindados.

De acordo com o diálogo, o interlocutor registrou que os visitantes foram recepcionados por pessoas portando fuzis. Manoel afirma que havia a certeza de que “nosso pessoal” fazia a segurança e que todos permanecessem “o mais paisana possível”. O interlocutor, então, comenta que a estratégia fracassou. Um dos presentes, segundo o relato, ficou sem conseguir falar diante da cena. “Eles falaram que pareciam a Rússia do Putin”, disse Manoel, em referência ao aparelho de segurança montado no local.

Ameaça, um ex-chef de cozinha

A PF também anexou o depoimento do chef de cozinha Leandro Garcia, que trabalhou na casa de praia de Daniel Vorcaro, em Angra dos Reis. Ele afirmou ter sido ameaçado por um grupo de cerca de sete a oito pessoas, entre eles Manoel e “Sicário”.

— Ele se apresentou como Manoel, “vim a mando do seu Daniel e mexo com jogo” — disse Leandro, de acordo com o relato prestado à Polícia Federal.

Ainda segundo o cozinheiro, Manoel afirmou que havia sido encarregado de descobrir se ele possuía informações, imagens ou qualquer material relacionado ao banqueiro.

Leandro relatou à PF que o homem disse que Vorcaro havia mandado “levantar tudo” sobre ele. Durante uma conversa, Manoel teria apontado para o grupo que o acompanhava e fez uma advertência velada:

— Ele falou: “Se o senhor tiver alguma coisa, a gente não quer voltar aqui para atrapalhar o senhor” — disse Leandro ao reproduzir a conversa com Manoel.

Trocas de mensagens entre Vorcaro e o Sicário mostram pedidos para que fossem levantadas informações sobre o chef de cozinha. O banqueiro encaminhou ao Sicário a carteira de identidade e os dados pessoais de Leandro e de outro homem, apontados por Vorcaro como o alvo principal. Em resposta, o Sicário afirmou ter buscado informações e disse que não havia registros nos sistemas da PF e do Tribunal de Justiça.

Dias depois, em 1º de junho de 2024, Vorcaro voltou a tratar do assunto com Felipe Mourão após receber um vídeo gravado por Leandro. Segundo a PF, o banqueiro defendeu uma ação imediata e sugeriu que o sicário fosse acompanhado de Fabiano Zettel e de policiais. "Vamos ter que agir antes de eu voltar. O ideal é você ir com Fabiano e com polícia. (...) Não sei nem se é a melhor turma policial ou bicheiro pra vagabundo carioca desse. Polícia às vezes não vai intimidar tanto", escreveu Vorcaro.

Atirador de elite para fazer segurança

Outro diálogo reproduzido pela PF mostra um relato de Manoel sobre a utilização de um atirador para garantir a segurança durante uma reunião ligada aos interesses de Henrique Vorcaro. Ele conta com um interlocutor ligado ao pai do ex-banqueiro que havia contrato rompido com um grupo anterior de segurança. Ao narrar um encontro com o antigo responsável, Manoel diz que o homem recebeu acompanhado de quatro policiais militares. “Eu fui sozinho e botei um atirador de longe”, afirmou.

Segundo a PF, Manoel Mendes Rodrigues liderou no Rio de Janeiro um braço de “A Turma” composto por pelo menos quatro a seis membros ainda não identificados. Os investigadores afirmam que a estrutura dispõe de armamento de grosso calibre, incluindo fuzis, veículos blindados e recursos típicos de organizações paramilitares.

Celulares estrangeiros

A PF acordou ainda o uso sistemático de números estrangeiros e de mecanismos destinados a dificultar o rastreamento das comunicações do grupo. Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, passou a utilizar um telefone registrado na Colômbia após a terceira fase da Operação Compliance Zero. Já o policial federal Sebastião Monteiro Júnior, apontado como integrante de “A Turma”, utilizou exclusivamente um número dos Estados Unidos nas conversas com Marilson Roseno.

A Polícia Federal afirma que o uso de linhas internacionais, mensagens temporárias, ligações telefônicas e encontros presenciais faz parte de um padrão adotado pela organização para “não deixar rastros por mensagem”.

Reuniões reservadas

As investigações também registraram encontros reservados entre membros do grupo. Em março de 2026, Marilson Roseno encontrou Sebastião Monteiro para uma conversa pessoal. Imagens de câmeras de segurança mostram que, após receber a ligação dos colegas, Marilson deixou um grupo de amigos na área de lazer do prédio e movimento com Sebastião para o pilotis, onde os dois encontraram-se sozinhos por cerca de uma hora e dez minutos.

Oley falso da Interpol

Diálogos interceptados pela Polícia Federal apontam que Vorcaro planejou uma emboscada com “droga” para se vingar do DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly. O plano teria começado a ser executado pela chamada “Turma”, grupo criminoso que, segundo a PF, era pago por Vorcaro para intimidar e espionar desafetos.

Rony Seikaly jogou na NBA de 1988 a 1999. Ele teve um relacionamento com Martha Graeff, com quem tem uma filha. Na época das mensagens, Graeff estava em um relacionamento com Vorcaro.

Segundo a investigação, Vorcaro chegou a cogitar uma emboscada com drogas contra Seikaly e citou pressão da polícia e da milícia. Integrantes da Turma, usando o login de um servidor do Ministério Público Federal, deveriam produzir um escritório falso à Interpol para buscar informações sobre Seikaly.

As conversas ocorreram em outubro de 2024, entre Daniel Vorcaro e Felipe Mourão, também conhecido como “Sicário”. Nos diálogos interceptados pela Polícia Federal, Vorcaro sugeriu simular um incidente envolvendo drogas e disse que investiria até R$ 10 milhões, alegando que seria para “ensinar que com filho não se mexe”.