Poder e Governo

Mensagens sobre Interpol, drogas e hackers reforçam prisão de Daniel Vorcaro

PF aponta estrutura paralela voltada a obter dados sigilosos, intimidar adversários e interferir nas investigações

Agência O Globo - 17/06/2026
Mensagens sobre Interpol, drogas e hackers reforçam prisão de Daniel Vorcaro

Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro e tornadas públicas nesta terça-feira reforçam um dos principais argumentos usados pela Polícia Federal e pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para manter o empresário preso no âmbito das investigações do caso Master.

Segundo os investigadores, o material indica a existência de uma estrutura paralela voltada à obtenção de informações sigilosas, à intimidação de adversários e à tentativa de interferência em apurações oficiais.

Os novos documentos descrevem a atuação de grupos coordenados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Ele é apontado pela PF como operador de uma rede que reuniria policiais federais, hackers e produtores de conteúdo. De acordo com a investigação, a estrutura atuava em favor dos interesses de Vorcaro e de empresas ligadas ao Banco Master.

A divulgação do material ocorre em meio à rejeição da segunda proposta de delação de Vorcaro pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A negativa amplia a indefinição sobre o futuro prisional do ex-banqueiro, atualmente custodiado na superintendência da PF, em Brasília. A corporação pediu sua transferência para uma penitenciária federal, decisão que caberá ao ministro André Mendonça.

Vorcaro também sofreu novo revés no STF nesta terça-feira. A Segunda Turma manteve a prisão de seu pai, Henrique, e de seu primo, Felipe, por entender que havia riscos concretos de obstrução de justiça caso fossem colocados em prisão domiciliar ou tivessem a soltura decretada.

No julgamento, Mendonça convenceu os demais ministros de que ainda há um longo percurso investigativo a ser cumprido pela Polícia Federal. Esse entendimento tende a pesar contra Vorcaro, agora sem a perspectiva imediata de obter benefícios por meio de colaboração premiada.

Nos documentos, a PF reúne episódios que considera evidências da continuidade das atividades do grupo e do risco de interferência na apuração. Em uma das frentes, os investigadores afirmam que integrantes da chamada “Turma” realizavam levantamentos sobre inquéritos policiais e processos judiciais, inclusive sigilosos, além de consultas a sistemas restritos e monitoramento de pessoas consideradas de interesse do empresário.

As mensagens também descrevem a atuação de um núcleo identificado como “Os Meninos”, formado por hackers que, segundo a PF, seriam responsáveis por invadir contas e perfis na internet, obter senhas, remover conteúdos considerados prejudiciais a Vorcaro e impulsionar publicações favoráveis ao grupo empresarial.

Os investigadores sustentam ainda que os grupos recebiam pagamentos mensais intermediados por Mourão. Para a PF, havia uma divisão estruturada de tarefas e recursos entre os diferentes núcleos, o que demonstraria uma atuação permanente e organizada.

Os elementos se somam a outros episódios já citados pela Polícia Federal ao longo da investigação, entre eles relatos de supostas ações para pressionar autoridades, monitorar alvos de interesse, produzir dossiês e obter informações protegidas por sigilo.

Em decisões anteriores, Mendonça afirmou que a liberdade de Vorcaro poderia representar risco concreto à instrução processual, diante da possibilidade de rearticulação dessa estrutura.

Ao justificar a manutenção da prisão preventiva, a PF tem sustentado que a organização não se limitava à prática de crimes financeiros. Segundo os investigadores, o grupo teria capacidade de mobilizar agentes para influenciar testemunhas, intimidar desafetos e acessar informações estratégicas. A avaliação é que parte dessa estrutura permaneceu ativa mesmo após o avanço das operações policiais.

A defesa de Vorcaro nega irregularidades e afirma que o empresário é alvo de uma investigação baseada em interpretações equivocadas de mensagens e de relações profissionais legítimas.

Diálogos interceptados pela PF, porém, apontam que o ex-controlador do Banco Master teria planejado uma emboscada com “droga” para se vingar do DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly. De acordo com a investigação, o plano começou a ser executado pela chamada “Turma”.

Rony Seikaly atuou na NBA entre 1988 e 1999. Ele teve um relacionamento com Martha Graeff, com quem tem uma filha. À época das mensagens, Graeff mantinha um relacionamento com Vorcaro.

Segundo a PF, Vorcaro chegou a cogitar uma emboscada com drogas contra Seikaly e mencionou pressão da polícia e da milícia. Integrantes da “Turma”, usando o login de uma servidora do Ministério Público Federal, teriam produzido um ofício falso à Interpol para buscar informações sobre o ex-jogador.