Poder e Governo

Tabata e Boulos têm papéis distintos na pré-campanha de Haddad em São Paulo

Deputada do PSB atua na formulação do plano de governo; ministro do PSOL deve focar na mobilização social e no palanque petista

Agência O Globo - 17/06/2026
Tabata e Boulos têm papéis distintos na pré-campanha de Haddad em São Paulo
Boulos e Tabata - Foto: Reprodução TSE

O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), pré-candidato ao governo de São Paulo, tem dado pesos diferentes a aliados que, há dois anos, disputaram a Prefeitura da capital paulista e, juntos, somaram quase 40% dos votos válidos no primeiro turno. Enquanto a deputada federal Tabata Amaral (PSB) foi chamada para discutir estratégias de campanha e contribuir com a elaboração do plano de governo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), ainda não tem uma função direta definida na pré-campanha.

Aliados relatam ao GLOBO que Tabata deve colaborar especialmente na construção de propostas para a área da segurança pública. A deputada e Haddad se reuniram no início de abril, pela primeira vez, e desde então ela passou a sugerir especialistas para debater estratégias para o setor. O petista afirma que o tema deve ser um dos primeiros apresentados ao eleitorado, possivelmente de forma antecipada, na tentativa de criar uma marca em uma área apontada por pesquisas como uma das principais preocupações dos brasileiros.

A assessoria de Boulos, por sua vez, pondera que ele é ministro de Estado e integra a coordenação da pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em nota enviada ao GLOBO, a equipe afirma que o psolista passa a semana em Brasília ou em viagens pelo país, no programa Governo do Brasil na Rua. “Por essas razões, seria inviável uma atuação mais ativa na pré-campanha de Haddad”, diz o comunicado. Ainda assim, aliados garantem que Boulos estará no palanque do candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes, como ocorreu nas eleições de 2022 e 2024, e que sua contribuição se dará sobretudo pela relação com movimentos sociais e coletivos populares nas periferias.

Em 2024, Boulos disputou a Prefeitura de São Paulo com apoio do PT e teve como vice a ex-prefeita Marta Suplicy. Recebeu R$ 30 milhões do partido de Lula para investir na campanha e chegou ao segundo turno, quando foi derrotado pelo prefeito reeleito, Ricardo Nunes (MDB). Antes disso, em 2020, já havia sido o candidato de esquerda mais bem colocado na disputa contra Bruno Covas, do PSDB. Também chegou a ser cogitado para disputar o governo paulista contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas acabou apoiando Haddad ainda no primeiro turno. Na sequência, tornou-se o deputado federal mais votado do estado.

Integrantes do PSOL admitem, de forma reservada, que Boulos nunca manteve uma relação próxima com Haddad. Esse distanciamento ficou evidente na eleição municipal, quando o petista apareceu pouco em comícios e até no momento de votar, nos dois turnos, em um colégio da Zona Sul. Questionado por jornalistas no segundo turno, o ex-ministro da Fazenda disse ter se envolvido na campanha do psolista o quanto “foi demandado” e afirmou que não usava adesivo no peito porque ninguém havia lhe entregue.

Institucionalmente, o PSOL tem participado das conversas com Haddad e com o núcleo duro da campanha. O partido promete “viabilizar o que for preciso” nas eleições, o que inclui reforço na mobilização de rua em parceria com organizações como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e a Frente Povo Sem Medo. Em contrapartida, a legenda espera que a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) seja candidata ao Senado. PSOL e Rede compõem uma federação, e o grupo de Boulos poderia indicar suplentes.

Uma liderança estadual do PSOL minimiza o impacto eleitoral da pouca interação entre Haddad e Boulos, sob o argumento de que o petista “tem os meios para chegar a qualquer setor” e “não precisa dele para nada”. A avaliação ocorre apesar da experiência eleitoral recente de Boulos na capital, que ajudou a abrir pontes com trabalhadores de aplicativos e autônomos. Haddad foi prefeito de São Paulo entre 2013 e 2016, mas perdeu a reeleição quatro anos depois, em meio à ascensão do tucano João Doria, então apresentado como um outsider.

Em entrevistas, Haddad tem afirmado que tanto Tabata quanto Boulos estão disponíveis para ajudá-lo na campanha. Em maio, questionado pelo GLOBO, o pré-candidato do PT disse que a deputada está integrada à formulação do plano de governo, enquanto Boulos tem uma “missão nacional” como ministro do governo Lula, mas poderá se engajar futuramente.

“O Boulos já se colocou à disposição. A missão dele está mais na esfera nacional, porque ele é ministro, resolveu ficar e não concorrer. Então, ele não é candidato aqui em São Paulo, mas está disponível”, afirmou Haddad, após elogiar Tabata na saída de um evento da Fundação FHC. “Ela vai ajudar muito, é uma pessoa muito qualificada para o plano de governo. Quero contar com as ideias dela. Ela saiu da periferia, foi para Harvard, tem uma vivência muito grande e pode ajudar demais.”

Tabata chegou a ser cogitada no PT como possível vice de Haddad, mas descarta a hipótese. Sua prioridade é ampliar a bancada federal do PSB em São Paulo, hoje formada por apenas dois deputados. O partido será representado na chapa majoritária por Simone Tebet, cuja filiação à legenda foi resultado de uma articulação da própria Tabata, e que é pré-candidata ao Senado. O ex-governador Márcio França tenta consolidar seu nome para a segunda vaga ao Senado e também é cotado para a vice. Procurada, Tabata não respondeu aos pedidos de entrevista.

Haddad procurou a deputada em 13 de abril, cerca de um mês após o anúncio oficial da pré-candidatura, para alinhar estratégias de campanha. Segundo aliados, além de contribuir para o plano de segurança pública, Tabata é vista como peça importante para abrir diálogo com setores tradicionalmente resistentes ao PT, entre eles o empresariado paulista. Ela também deve ajudar nas redes sociais. Nas últimas semanas, a deputada passou a publicar mais conteúdos críticos a Tarcísio, abordando o aumento de furtos e roubos de celulares na capital e o pedágio free flow.

Nesse período, porém, setores da esquerda criticaram um projeto apresentado por Tabata no Congresso que equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de dois a cinco anos e multa, sem prescrição ou fiança. A deputada nega que a proposta criminalize posições contrárias à política externa de Israel. Ainda assim, trechos que estendem a definição a manifestações contrárias “ao Estado de Israel, encarado como uma coletividade judaica”, provocaram preocupação entre especialistas em relações internacionais.