Poder e Governo

Com foco em segurança na campanha, Flávio Bolsonaro se distancia do tema no mandato e vai a uma reunião da comissão em 2026

Colegiado dedicado ao tema presidido por presidenciável é esvaziado, e parlamentar fica longe do protagonismo em projetos da área

Agência O Globo - 08/06/2026
Com foco em segurança na campanha, Flávio Bolsonaro se distancia do tema no mandato e vai a uma reunião da comissão em 2026
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Escolhida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como tema prioritário da pré-campanha à Presidência, a segurança pública foi deixada em segundo plano em seu mandato legislativo.

Ele comanda desde o início de 2025 a Comissão de Segurança Pública do Senado. O colegiado se reuniu sete vezes neste ano, sem aprovação de nenhuma iniciativa de destaque. Nas reuniões realizadas em 2026, Flávio esteve presente somente em uma delas.

Em termos de comparação, a Comissão de Segurança da Câmara se reuniu 23 vezes neste ano. Outras comissões do Senado também tiveram mais atividades. A de Direitos Humanos, comandada pela também bolsonarista Damares Alves (Republicanos-DF), teve 22 encontros, e a de Assuntos Econômicos, 16.

No ano passado, quando Flávio já estava à frente, a Comissão de Segurança do Senado também teve uma atuação desligada e, durante meses, focou em audiências públicas nas quais foram discutidas as críticas do ex-assessor Eduardo Tagliaferro ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, para quem Tagliaferro trabalhava.

O pré-candidato também teve pouco destaque em iniciativas relacionadas à segurança que foram adiante na Legislatura. Na aprovação da lei antifacção, por exemplo, os músculos contaram principalmente com o protagonismo do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) e de governadores.

Quando o projeto chegou ao Senado, foram retirados vários trechos de interesses de oposição que reduziram a influência da União na área. Mesmo com o relatório do Senado atendendo mais ao governo, Flávio não se esforçou para mudar o texto nem se opôs ao parecer.

Mesmo a equiparação de facções ao terrorismo, agora comemorada por Flávio após a decisão dos Estados Unidos nesse sentido, não contornou com a articulação ativa do pré-candidato do PL quando foi discutida no Congresso.

No dia em que a iniciativa foi debatida no plenário do Senado, Flávio não discursou a favor de incluir a classificação, mesmo sendo uma exigência de seu grupo político. Em 2024, o senador chegou a ser relator da lei que dificultava as ditas temporárias de presos, mas depois não conseguiu retomar um protagonismo legislativo no assunto.

Em nota, Flávio afirmou que a atuação “em favor da segurança pública é uma marca de toda sua carreira política, tanto na Assembleia Legislativa do Rio, quanto no Senado Federal”. De acordo com o texto, o parlamentar obteve em reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, "o que Lula jamais fez em 18 anos de desgoverno: a classificação formal do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelo governo americano".

Uma nota ressalta ainda que a medida “permite o congelamento de ativos internacionais das facções, dificulta o financiamento de financiamentos e abre caminho para uma cooperação internacional eficaz no combate ao crime organizado, uma vitória concreta para a segurança pública e para o povo brasileiro”.

Maioridade penal

Outro assunto relacionado à área que vem ganhando força no Congresso é a redução da maioridade penal, mas até o momento a discussão está ocorrendo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, com estreantes liderando a iniciativa. A votação está prevista para a sessão de terça-feira do colegiado. Flávio chegou a se posicionar a favor da medida, mas não se reuniu com parlamentares para tratar do tema.

O deputado Alberto Fraga (PL-DF), coordenador da Frente Parlamentar da Segurança Pública, conhecido como bancada da bala, atribuiu a ausência do presidenciável na área a entraves no Senado em discutir o assunto.

— Eu tenho reclamado que o Senado está se transformando no cemitério dos nossos projetos. Várias propostas importantes para a segurança pública estão paradas lá. A ausência do Flávio não quer dizer que eles deixaram de votar os projetos, mas infelizmente não fazem — afirma Fraga.

Sem propostas aprovadas na segurança

O senador também não teve nenhuma de suas propostas sobre segurança pública aprovadas pelo Congresso ao longo do mandato. Entre os projetos de autoria do senador são um que dá aval às autoridades policiais que concedem medidas protetivas em casos de violência doméstica e outros que aumentam a pena de furto e roubo de celular. As duas iniciativas estão paradas no Senado.

Ainda que com poucos avanços concretos, um levantamento do GLOBO com os discursos de Flávio entre 2019 e dezembro de 2025 mostra que a segurança é o terceiro tema mais frequente, atrás das críticas ao governo Lula e economia.

A retórica voltou a ganhar atração desde que os Estados Unidos anunciaram uma decisão de considerar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) organizações terroristas, o que levou Flávio a centralizar os esforços de comunicação na segurança.

Os auxiliares resumem a estratégia da seguinte forma: enquanto o governo pretende enfatizar a soberania do Estado brasileiro diante de uma decisão tomada por outro país, Flávio planeja discutir a soberania do cidadão comum diante do avanço do crime.

A ideia é que esse raciocínio seja reproduzido em discursos, entrevistas, conteúdos digitais e outros materiais, sempre adicionados a dados sobre o avanço territorial das facções e à presença do crime organizado em diferentes regiões do país.

Por outro lado, a campanha do presidente Lula ainda tenta também elaborar uma estratégia para a área de segurança. Flávio conseguiu usar o tema para destruir os adversários e governadores petistas que enfrentam uma crise de segurança. Em resposta, a campanha do presidente pretende explorar a falta de atuação legislativa de Flávio na área para contra-atacar as críticas.