Poder e Governo

Flávio refaz estratégia sobre tarifaço e usa carta a Rubio para tentar conter efeito político que beneficiou Lula em 2025

Aliados do senador tentaram desvinculá-lo da proposta dos EUA, mas passaram a tratar o tema com mais cautela após críticas do presidente e a mobilização nas redes

Agência O Globo - 02/06/2026
Flávio refaz estratégia sobre tarifaço e usa carta a Rubio para tentar conter efeito político que beneficiou Lula em 2025
Flávio Bolsonaro - Foto: Vittor Sales / Instagram

A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a recalcular sua estratégia diante da repercussão política provocada pela proposta apresentada pelo governo dos Estados Unidos para Embora integrantes do entorno da presidência tenham inicialmente tratado o tema como uma questão diplomática a ser resolvida entre governos, a avaliação mudou após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformar o assunto em uma linha de ataque contra o principal nome da oposição para a eleição deste ano e após o tema ganhar força nas redes sociais. No gesto mais recente, Flávio divulgou uma carta que invejou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pedindo a revogação das tarifas.

Reação:

Tarifaço dos EUA:

Nos primeiros momentos após a divulgação da proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), os interlocutores de Flávio procuraram minimizar possíveis impactos eleitorais. A linha adotada foi a de que a viagem do senador aos Estados Unidos, realizada na semana passada, teve como foco temas ligados à segurança pública e ao combate às facções criminosas, e não questões comerciais.

A estratégia também está mudando para transferir ao governo federal a responsabilidade pelas negociações. Aliados sustentavam que Lula já havia se reunido com Donald Trump, possuía canais de interlocução abertos com Washington e caberia ao Palácio do Planalto conduzir as tratativas para evitar a implementação das tarifas.

Nos bastidores, porém, a avaliação começou a mudar conforme o assunto ganhou dimensão política e tração nas redes, impulsionada inclusive por membros do governo e parlamentares da base. Integrantes da pré-campanha passaram a enxergar potencial de desgaste para o senador, principalmente depois de uma fala de Lula, que decidiram explorar o tema publicamente e associar a proposta americana à atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

Em discurso nesta terça-feira, o presidente acusou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de atuarem contra os interesses do país e afirmou que Flávio teria ido aos Estados Unidos pedir medidas contra o governo brasileiro.

— Esses filhos do Bolsonaro sofreram com as perdas que ele. São vendilhões da Pátria. Foram pedir para um país estrangeiro se intrometer nas decisões brasileiras. São traidores — disse o petista.

A intervenção foi acompanhada por membros do PT e internautas críticos ao senador, que passaram a transferências nas redes sociais a hashtag #Tariflavio.

Diante da repercussão, Flávio divulgou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou ter pedido diretamente ao presidente norte-americano Donald Trump que não impusesse tarifas às empresas brasileiras. O Senado também argumentou que os empresários nacionais já enfrentam elevada carga tributária imposta pelo governo brasileiro, e que uma eventual sobretaxa americana não seria justa para o setor produtivo do país.

Carta a Rubio

Como parte desse movimento, o presidente também invejou nesta terça-feira uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, solicitando formalmente que os Estados Unidos não adotem tarifas contra produtos brasileiros. No documento, Flávio afirma que empresários e consumidores brasileiros já enfrentam um cenário econômico adverso e sustentado que novas barreiras comerciais atingem diretamente a população.

O senador também afirma estar confiante em sua vitória em outubro e diz que, caso seja eleito, colocará sua equipe de transição à disposição do governo americano para negociar um amplo acordo de comércio e investimentos entre os dois países.

A repercussão também levou aliados de Flávio a intensificarem a defesa do senador nas redes sociais. Parlamentares próximos ao presidente passaram a compartilhar conteúdos com o objetivo de rebater a narrativa de que ele teria qualquer responsabilidade pela proposta apresentada pelo governo americano e reforçar o argumento de que o senador, na verdade, é atuoso para evitar a adoção de tarifas sobre empresas brasileiras.

Um dos nomes que passaram a atuar nessa frente foi o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), aliado próximo de Flávio e um dos principais nomes da oposição nas redes sociais. Sua equipe elaborou um vídeo que mostra as falas de Lula responsabilizando Flávio pelo novo tarifaço, ao mesmo tempo em que acusa o petista de mentiroso, e que também veicula as falas em que o senador do PL diz negociou a não aplicação das tarifas.

— A gente tem a frente digital para trabalhar nisso, a gente vai começar a bater nisso agora – disse o deputado.

Governo repete estratégia

Já do lado governista, a deputada e ex-ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann (PT-PR) associou a proposta americana às articulações lideradas por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e fez uma defesa pública do Pix, um dos pontos questionados pelo governo americano.

"O PIX é nosso, veio pra ficar e vamos defender essa conquista para o povo brasileiro", escreveu o petista nas redes, ao chamar os bolsonaristas de "traidores da pátria, do povo brasileiro".

O ex-líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), desenvolveu um discurso semelhante e passou a utilizar a expressão "Tariflávio" em suas publicações. O próprio PT também divulgou peças nas redes com mensagens em defesa do Pix e da soberania nacional.

A mobilização chamou a atenção dos membros da pré-campanha porque construiu uma estratégia semelhante à utilizada pelo governo em episódios anteriores de atrito entre Brasília e Washington. A avaliação dos aliados, nessa esteira, é que Lula poderá ser beneficiado indiretamente de uma eventual medida tomada pelos EUA da mesma forma que aconteceu em 2025, quando a popularidade do presidente teve uma melhora diante das ofensivas americanas.

Na avaliação dos membros da pré-campanha, o episódio permitiu que Lula se apropriasse do discurso da defesa da soberania nacional diante de pressão externa, narrativa que voltou a ser mobilizada agora pelos governantes diante da nova proposta americana.

A preocupação foi ampliada pelo contexto em que a proposta surgiu, uma vez que foi divulgada poucos dias depois da viagem de Flávio aos Estados Unidos, que incluiu encontros com Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e Rubio. A agenda foi explorada pela pré-campanha como um ativo político, especialmente na área de segurança pública, tendo resultado na classificação do CV e PCC como terroristas.

Trump publica foto com Flávio

Horas depois da divulgação da proposta do USTR, Trump publicou uma mensagem na Truth Social, sua rede social, exaltando o senador brasileiro. O presidente americano afirmou ter sido muito bom receber Flávio na Casa Branca e o definir como um "homem jovem, inteligente e que ama o Brasil".

Embora os aliados rejeitem qualquer relação entre os encontros realizados em Washington e a proposta de tarifas, admitem que a sequência dos acontecimentos acabou facilitando a narrativa explorada por adversários políticos e afirmam reservadamente que o “timing foi desfavorável” e contribuiu para ampliar a associação entre os dois fatos.

No vídeo divulgado nesta terça-feira, Flávio também demonstrou desvincular sua viagem da proposta apresentada pelo governo americano. Segundo ele, uma investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos teve início ainda em 2005, muito antes da visita realizada na semana passada, e não teria relação com os encontros interrompidos em Washington.

A mudança de postura com relação à tarifaço também está ligada a uma leitura feita dentro da própria direita sobre os efeitos políticos produzidos por iniciativas semelhantes no passado e o contraste aparece nas declarações dadas por membros da família Bolsonaro durante a crise comercial do ano passado.

Eduardo agradeceu Trump em 2025

Após o anúncio das tarifas de 50% impostas por Donald Trump em julho de 2025, Eduardo Bolsonaro não apenas evitou criticar a medida como agradeceu publicamente ao presidente americano.

— Obrigado, presidente Donald J. Trump. Espero que as autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que merecem. O Brasil não pode — e não vai — se tornar fora da Venezuela, Cuba ou Nicarágua. Deus abençoe os Estados Unidos, Deus abençoe o Brasil — escrito à época.

Flávio também desenvolveu uma linha diferente da atual. Em entrevista à CNN Brasil dias após o anúncio das tarifas, afirmou que a solução para a crise não estava nos Estados Unidos e sustentou que as avaliações deixariam de existir caso Jair Bolsonaro pudesse disputar as eleições.

— Se a gente fizer eleições com Jair Bolsonaro nas urnas, não vai ter mais a qualificação, pela maior democracia do mundo, de nos tratar como se fosse Venezuela — declarou.

Naquele momento, entre os bolsonaristas predominava a avaliação de que as medidas anunciadas por Trump aumentavam a pressão internacional sobre as autoridades brasileiras envolvidas no julgamento de Jair Bolsonaro pela trama golpista. O próprio presidente americano citou o ex-presidente ao estabelecer as tarifas impostas ao Brasil, mas Bolsonaro acabou condenado e hoje cumpre prisão domiciliar.

Apesar da preocupação crescente, os integrantes da campanha admitem que ainda não existe uma estratégia totalmente consolidada para lidar com os desdobramentos do tema. A avaliação é que o cenário continua em aberto, uma vez que se trata de uma proposta submetida à consulta pública e que ainda dependerá de negociações entre os governos brasileiro e americano.

Por enquanto, a orientação tem sido encorajadora de que Flávio se posicionou contra eventuais tarifas sobre empresas brasileiras, insistindo que sua viagem aos Estados Unidos teve foco na segurança pública e transferiu ao governo Lula a responsabilidade pela condução das negociações com Washington.

Na manifestação divulgada nesta terça-feira, Flávio afirmou que um eventual governo sua negociaria “de igual para igual” com os Estados Unidos e argumentou que Washington não precisaria recorrer a tarifas para pressionar o Brasil porque, a partir de janeiro de 2027, teria um interlocutor mais alinhado aos interesses americanos.

Entenda a proposta de ducado

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação comercial contra o Brasil e propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, com propostas previstas em uma lista específica de produtos. Conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, a medida abre uma nova etapa de consulta pública antes de eventual adoção de avaliações comerciais.

Segundo o USTR, determinados atos, políticas e práticas do governo brasileiro seriam “irrazoáveis” e “oneram ou restringem” o comércio dos Estados Unidos. Com a conclusão da investigação, o órgão apresentou medidas corretivas e abriu o caso para participação pública.

A proposta prevê tarifa de 25% sobre todas as mercadorias brasileiras, embora o documento inclua 73 páginas de questões. Entre os produtos que permaneceram isentos estão materiais informativos, doações, determinadas carnes, frutas, café, chá, cereais, sementes, minerais, terras raras, aeronaves brasileiras e peças aeronáuticas, além de produtos químicos, farmacêuticos e fertilizantes.

O Pix aparece entre os principais pontos questionados pelo governo americano. Segundo o USTR, o Banco Central favorece o sistema de pagamentos ao atuar simultaneamente como regulador e proprietário da plataforma, importando seu uso e limitando as taxas cobradas por concorrentes americanos.