Poder e Governo

Set de 'Dark horse' teve tensão entre equipe e chefes, sinais de investimento alto e champanhe na prisão de Bolsonaro

Filme sobre a facada no ex-presidente teve patrocínio de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e preso sob acusações de corrupção e outros crimes

Agência O Globo - 16/05/2026

As filmagens de Dark Horse tiveram momentos de tensão nos bastidores, porque boa parte da equipe era progressista, como é comum no meio audiovisual, enquanto os líderes do projeto eram identificados com o bolsonarismo e o trumpismo — como o roteirista Mário Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh. Além disso, o dia a dia da produção deixava claro que o longa contou com altos investimentos, conforme participantes relataram ao GLOBO.

Dark Horse:

Dark Horse, ou "azarão", conta a história da facada em Jair Bolsonaro e de sua ascensão à presidência. A produção teve patrocínio do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação, coerção e outros crimes. O GLOBO questionou a produtora Go Up, responsável pelo projeto, sobre os bastidores das filmagens, mas não teve resposta — o espaço segue disponível.

Desde o início, os chefes deixaram claro que as equipes deveriam tomar cuidados ligados a questões ideológicas — como não usar roupas de cor vermelha ou símbolos de grupos como o MST. Mas, com o correr das filmagens, as equipes também passaram a questionar bonés e vestimentas das lideranças, que exibiam símbolos como a bandeira americana adornada por fuzis. "A gente concordava em não usar vermelho, mas pedimos que eles também não usassem aquilo", conta uma pessoa que participou da produção.

De acordo com os relatos, integrantes da equipe resistiram a participar do projeto por conta da natureza ideológica do filme, e alguns só aceitaram porque teriam recebido cachês mais elevados que a média do mercado. Uma participante chegou a perder um outro trabalho, após os responsáveis saberem que ela participava de Dark Horse. "Ela chorou no set", diz um profissional.

O ponto alto das tensões teria acontecido no chamado "dia do rolo 100". É uma tradição no cinema que, quando as gravações chegam ao centésimo rolo de filme, exista uma celebração no set. Atualmente, com a digitalização do setor, a festa acontece quando se atinge o "cartão de memória 100" — embora, por conta da tradição, os profissionais ainda chamem de "rolo 100".

Conforme a data se aproximava, boa parte da equipe não estava animada para os festejos, por conta das divergências políticas, mas as lideranças compraram champanhes e planejaram a celebração. Ocorre que o "rolo 100" aconteceu em 22 de novembro de 2025, data da prisão de Jair Bolsonaro. Resultado: a equipe abriu champanhes e celebrou, até meio ostensivamente, com a "desculpa" de que se tratava da festa do "rolo 100" — enquanto Frias e outros bolsonaristas lamentavam nos bastidores.

'Dinheiro para todo lado'

Os relatos também indicam que a produção, de fato, teve farto financiamento — como sugerem os documentos e mensagens que ligam Vorcaro ao projeto.

As filmagens duraram cerca de dez semanas, acima até do tempo gasto em séries com diversos episódios, segundo profissionais do setor ouvidos pelo GLOBO. "Tudo era filmado com calma, a gente filmava três páginas de roteiro por dia, quando o normal no cinema é cinco ou seis", diz um integrante da equipe.

Em boa parte desse período, o set tinha centenas de figurantes — entre 250 e 300, conforme os relatos. Havia sempre ao menos três equipes de câmeras, que chegavam a cinco em certos dias — mesmo em filmes de bom orçamento, o normal são dois times. Elas usavam equipamentos sofisticados, como gruas da marca Scorpio com braço robótico.

Os atores norte-americanos, como o protagonista Jim Caviezel e Esai Morales, contavam com trailers de apoio, uma exigência do sindicato do país. Nos momentos em que se maquiavam ou se preparavam para as cenas, a produção contava com stand-ins — profissionais com as mesmas características físicas dos atores, usados para se ensaiar a preparação de luz e o posicionamento das câmeras, também um luxo incomum nas produções filmadas no Brasil.

A colunista Malu Gaspar, do GLOBO, apurou que . O valor supera os orçamento de produções brasileiras que disputaram o Oscar, como 'Ainda Estou Aqui' (R$ 45 milhões) e 'O Agente Secreto' (R$ 28 milhões). "Em Dark Horse, era dinheiro para todo lado", diz um integrante da equipe.