Poder e Governo

Investigadores rastreiam transações no exterior de fundos ligados a Vorcaro durante negociações entre Master e BRB

Apuração está concentrada em inquérito sobre possível gestão fraudulenta na instituição controlada pelo governo do DF

Agência O Globo - 02/04/2026
Investigadores rastreiam transações no exterior de fundos ligados a Vorcaro durante negociações entre Master e BRB
Investigadores rastreiam transações no exterior de fundos ligados a Vorcaro durante negociações entre Master e BRB - Foto: Reprodução

Investigadores à frente do caso do Banco Master estão rastreando transações no exterior da teia de fundos ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro durante uma tentativa de venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). A purificação mira o fluxo de recursos em paraísos fiscais e outras regiões com regras menos rígidas para operações financeiras.

Voo:

Apuração:

Um dos destinos mapeados é Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Essa frente de investigação foi especializada no inquérito aberto em fevereiro, que apura suspeitas de gestão fraudulenta no BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal que apresentou proposta para aquisição do Master em março de 2025. O negócio foi barrado pelo Banco Central em setembro do ano passado. Dois meses depois, a instituição foi liquidada, e Vorcaro foi preso pela primeira vez.

O banqueiro negocia um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e já assinou um acordo de confidencialidade com as autoridades. Como mostrado O GLOBO, a expectativa do pesquisador é que ele apresenta os anexos da delação em até duas semanas. Caso as tratativas sejam antecipadas, as pessoas que acompanham o caso de perto afirmam que o banqueiro precisará dar detalhes das transações para o país.

Antes de iniciar o processo de colaboração, Vorcaro veio negando irregularidades e afirmando que estava à disposição da Justiça. Procurado para comentar, ele não se manifestou.

O comando do BRB foi trocado ainda no fim do ano passado, e a nova administração iniciou uma auditoria para apurar possíveis irregularidades. Em entrevista ao GLOBO no mês passado, o atual presidente da instituição financeira, Nelson de Souza, disse que trocou quase toda a cúpula, mantendo apenas duas diretorias, sob alegação de que não teriam qualquer relação com o caso Master. Também foram substituídos todos os membros do Conselho de Administração e do Comitê de Auditoria, além dos superintendentes. O BRB foi procurado, mas não se manifestou.

Dirigentes confortavelmente

A investigação analisa, entre outros documentos, informações colhidas por auditoria independente liderada pelo escritório Machado Meyer Advogados e pela consultoria Kroll, focada em falhas no processo de compra de carteiras com delegados de fraude do Banco Master pelo BRB, para subsidiar o rastreio de dinheiro no exterior. Como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, o documento responsabiliza 30 dirigentes da instituição, e o BRB decidiu retirar todos eles. A investigação tem em mãos ainda o conteúdo de novos celulares de Vorcaro, que reúne cerca de 8 mil vídeos e 400 GB de dados.

Os investigadores apuram supostos crimes de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa na venda de carteiras de crédito, incluindo “insubsistentes” do Master ao BRB, por um valor inicialmente estimado em R$ 12,2 bilhões, mas que pode chegar a R$ 17 bilhões.

Em depoimento no fim do ano passado, Vorcaro afirmou que tratou com o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre uma negociação envolvendo o Master e o BRB. Segundo ele, houve contatos durante o período das tratativas, embora não tenha detalhado o teor das conversas. Ibaneis afirmou na ocasião que nunca tratou com Vorcaro sobre a operação. O ex-governador deixou o cargo no início da semana para se candidatar ao Senado.

Como mostrou O GLOBO, Vorcaro manteve a interlocução com Ibaneis durante as negociações e relatou as pessoas próximas que haviam construído uma rede de relações políticas em Brasília. Em relatos reservados, dizia ter feito “fortes amigos” e afirmava que, sem esse tipo de apoio, não teria feito sua posição no mercado financeiro.

À Polícia Federal, o banqueiro afirmou que Ibaneis chegou à sua residência. Em conversas privadas, também relatou que, durante as negociações, o então governador teria buscado informações sobre seu histórico com alianças políticas e comentários positivos.

Outro ponto sob análise envolve um contrato firmado pelo escritório de advocacia de Ibaneis no valor de R$ 38 milhões, para a venda de honorários de precatórios a um fundo vinculado à Reag — gestora investigada por participação no esquema de fraudes associado ao Banco Master. O negócio foi fechado em maio de 2024, período em que o BRB já adquiriu ativos da instituição de Vorcaro.

Em nota, Ibaneis afirmou que está afastado do escritório desde 2018 e “não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento” e que “nunca participou de quaisquer negociações” ligadas à Reag.

A gestora, também liquidada pelo Banco Central, é apontada pelo pesquisador como uma estrutura central no funcionamento do esquema. A gestora integra uma rede de fundos por onde os recursos captados em operações irregulares foram distribuídos, dificultando a rastreabilidade e a identificação dos destinatários finais.