Poder e Governo

Fala de Lula sobre senadores irrita líderes e tensiona ambiente para análise de indicação de Messias

Declaração de que parlamentares ‘pensam que são deuses’ provocou reação no Congresso

Agência O Globo - 01/04/2026
Fala de Lula sobre senadores irrita líderes e tensiona ambiente para análise de indicação de Messias
Fala de Lula sobre senadores irrita líderes e tensiona ambiente para análise de indicação de Messias

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que provocou evidências de líderes e parlamentares da Casa e tensionou o ambiente político em um momento sensível para o governo, às vésperas da análise da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A fala foi feita nesta quarta-feira, em entrevista à TV Cidade, no Ceará, ao defender a necessidade de ampliar alianças no Congresso. Na ocasião, Lula afirmou:

— Governador mantém relação civilizada com o presidente da República porque precisa do presidente. Senador com mandato de oito anos pensa que é Deus. E pode criar muito problema se você não tiver uma base de sustentação.

Nos bastidores, a declaração foi recebida como um ruído em uma fase em que o Planalto tenta reduzir resistências no Senado. A avaliação dos parlamentares é que, ao generalizar a crítica, Lula acaba atingindo também senadores fora da oposição, grupo que hoje concentra os votos decisivos na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

A realidade mais dura veio da oposição. O líder da oposição no Senado, o senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou que declarou como essa acabando favorecendo o campo adversário:

— A melhor propaganda que a campanha nos proporciona é Lula falando.

O senador Hamilton Mourão (RS), vice-líder dos Republicanos, disse que a fala pode ampliar resistências à indicação:

— Foi uma fala típica de alguém que julga que o Legislativo só serve para subserviente. Não é um democrata. Pode ser que chore mais aversão à indicação do Messias. Estamos trabalhando para que ele não seja aprovado.

Entre senadores de centro, a ocorrência pública foi mais contida, mas acompanhada de ressalvas. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) afirmou que o episódio não deve alterar a agenda:

— Deus só tem um. Boa (a postura) certamente não é, mas não acredito que impactará na agenda.

Reservadamente, senadores do MDB, PSD e União Brasil ouviram afirmar que a fala dificulta a articulação do governo e pode esfriar as negociações em curso, especialmente entre parlamentares que ainda não fecharam posição sobre a indicação.

Outros parlamentares fizeram uma leitura mais política do episódio. Para o vice-líder do PP no Senado, o senador Esperidião Amin (SC), Lula mirou sua própria base:

— Está reclamando do “preço” ou do “apreço” dos que o apoiam. Ele está falando daqueles com quem convive e que o apoiam.

Na mesma linha, o senador Angelo Coronel (PSD-BA) relativizou o impacto direto da fala sobre a indicação:

— Senador pode até pensar que é Deus. Lula não pensa. Ele quer ser. Messias, pelo seu estilo, independência de Lula.

Do lado governamental, os senadores ouvidos sob reserva classificaram a fala como “infeliz” e consideraram que o timing não ajuda. A avaliação interna é que o governo precisa recompor a relação com o Legislativo.

Ruído se soma a relação já desgastada

O episódio ocorre em um momento de relação já tensionada entre o Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Ontem, Lula anunciou que enviará uma mensagem com a indicação de Messias ao STF sem comunicar previamente os dados ao senador, segundos aliados.

A indicação já vem enfrentando resistência desde novembro, quando Lula optou por Messias contrariando a preferência de Alcolumbre e de parte da cúpula do Senado pelo nome do ex-presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). O episódio abriu um período de desgaste entre o Planalto e o comando do Senado que ainda não foi completamente superado.

Nos bastidores, a avaliação é que a nova declaração não altera a postura de Alcolumbre, mas reforça o ambiente de distanciamento. Os interlocutores afirmam que ele não pretende reagir publicamente e seguirá evitando se colocar como parte do conflito.

Pelo rito, cabe a Alcolumbre decidir quando encaminhar a mensagem à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa necessária para a realização da sabatina, e não há prazo regimental para essa decisão.

O movimento ocorre em paralelo a outras frentes em que o governo enfrentou dificuldade de forma progressiva no Congresso, como a tentativa de avanço com a PEC da Segurança Pública, considerada prioridade do Planalto, mas que está parada na mesa de Alcolumbre, sem ter sido enviada à CCJ, etapa que marca o início da tramitação.