Poder e Governo

Entrevista: líder do PT diz que Hugo Motta terá que fazer campanha para Lula ‘se quiser se reeleger’

Presidente da Câmara vai tentar reeleição como deputado neste ano e é da Paraíba, estado de maioria lulista

Agência O Globo - 01/04/2026
Entrevista: líder do PT diz que Hugo Motta terá que fazer campanha para Lula ‘se quiser se reeleger’
Entrevista: líder do PT diz que Hugo Motta terá que fazer campanha para Lula ‘se quiser se reeleger’ - Foto: Reprodução

Diante da aproximação da campanha eleitoral, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), após a tendência do presidente da Casa, Hugo Motta (Repúbicanos-PB), é de aproximação com o governo petista neste ano, o que pode se traduzir em apoio político mais explícito ao longo do período eleitoral. Segundo Uczai, Motta precisará apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para garantir a continuidade do mandato como deputado.

— Eu acho que, se ele quiser se reeleger, é bom fazer campanha para o mesmo Lula. A Paraíba é muito forte com o presidente Lula. É remar a favor da maré — afirmou em entrevista ao GLOBO.

O presidente da Casa tem dado sinais de sintonia com o Palácio do Planalto e tem tentado avançar com as prioridades do governo na Câmara, como mudanças na escala de trabalho 6 x 1 e a regulamentação dos trabalhadores de aplicação. Em 2022, houve 64,21% dos votos válidos entre os eleitores da Paraíba no primeiro turno.

Motta busca o apoio do PT para que seu pai, o prefeito de Patos, Nabor Wanderley (Republicanos-PB), seja candidato a senador, mas o partido de Lula também considera uma aliança com o senador Veneziano Vital do Rego (MDB-PB), que vai tentar a reeleição.

Uczai pondera, no entanto, que o presidente da Câmara deve preservar uma posição de independência antes do início formal do processo eleitoral, especialmente em relação às votações na Câmara. Ao mesmo tempo, o líder petista também afirma que o ritmo da Casa deverá diminuir nos próximos meses, devido justamente às lesões para o pleito.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, tem dado sinais de maior sintonia com o governo. Esse alinhamento deve se traduzir em apoio político mais explícito ao longo do ano?

Se ele quiser se reeleger, é bom fazer campanha para o Lula mesmo, até porque a Paraíba é muito forte com o presidente Lula. É remar a favor de uma maré, diferente do Sul ou de outros lugares. Ele precisa manter essa independência, até pelo papel institucional. Mas é um movimento político que está instalado. Ele está num estado muito lulista

A reorganização da direita, com a saída de Ratinho, a possível candidatura de Caiado e o papel de Moro no Sul, muda o equilíbrio da disputa para Lula?

Eu acredito que não. Ter na democracia outras alternativas para a sociedade debatedora e discutidora é importante. Não temos que escolher adversário, temos que mostrar o que fizemos, construir esperança e comparar com o que foi o governo anterior. O que vai definir a eleição do presidente Lula não é quem vai disputar com ele, é conseguir mostrar o que foi feito, comparar com a herança do governo anterior em todas as áreas.

Que tipo de debate o PT pretende levar para a campanha?

Nossa bancada tem que enfrentar e politizar o que foi o governo Bolsonaro. O governo fez pouco de divulgar tudo o que pegou do governo (Bolsonaro), dessa herança, de todas as áreas. Nós temos que fazer o enfrentamento à extrema direita, temos que politizar as políticas públicas e discutir valores. Tem três pontos centrais na campanha nesse sentido: entre barbárie e civilização, a gente que defende uma sociedade civilizada; entre democracia e autoritarismo, tem que defender a democracia; e o terceiro ponto é um projeto de país. O Lula se reelege conservando o que já fez e projetando um projeto de país. O Flávio Bolsonaro não tem capacidade nem intelectual nem política, e nem quer apresentar um projeto de país.

Esses temas mais amplos podem chegar ao eleitor comum?

Não. O terceiro ponto é política social e econômica. Vamos enfrentar o tema da corrupção, o tema da segurança pública e as iniciativas do nosso governo, as iniciativas da Polícia Federal, as operações que foram feitas inclusive com o andar de cima, com as grandes organizações. Nós não recebemos nenhum de fazer o debate que mexe com as pessoas, como o Imposto de Renda, como as políticas sociais.

Diante do crescimento de Flávio Bolsonaro, o PT avalia que falhou na comunicação?

Eu acho que nós já nos desviamos ter começado a desconstruir o Flávio Bolsonaro. Não dá pra deixar consolidar uma ideia de moderado, de tranquilo, de que não é o pai (Jair), de que não é o outro filho, que é o filho mais preparado, bonzinho, essa imagem que estão tentando passar à la (Javier) Milei (presidente da Argentina) em algumas coisas. Não precisa nem desqualificar, é qualificar o conteúdo político dele.

Quem deve liderar esse enfrentamento: governo ou bancada?

É nossa tarefa, do partido, da bancada, fazer esse enfrentamento. O governo tem que governar, informe o que está fazendo. Cabe a nós da bancada enfrentar e mostrar o conteúdo de desqualificação de alguém que possa presidir esse país. A partir do final da janela (partidária), nós miraremos os torpedos no tempo certo e no lugar certo.

Os desdobramentos de casos como o escândalo do Mestre preocupam o PT?

Sempre é possível desgaste porque é governo. Mesmo que não tenha ninguém envolvido, não há ambiente do governo atual. Se não estiver no ambiente em que o governo atual tem denúncia de corrupção, tem denúncia de desvio de dinheiro público especificamente, sempre terá o cuidado de fazer o enfrentamento, independente de quem está ou não envolvido. Um segundo ponto que nos deixa muito tranquilos é que tanto no caso do Banco Master quanto no INSS, tudo tem origem no governo Bolsonaro.

A oposição diz justamente o contrário.

Isso faz parte da oposição. Pegar um caso isolado e não pegar o centro da investigação. Se tivermos capacidade política, e aí depende de nós, é eficaz mostrar onde é que está a origem disso tudo e quem tomou a decisão (de investigar). No INSS foi nosso governo, do Banco Master, foi o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) que liquidou com pressão de muitos setores para não liquidar.

Em um Congresso mais travado em ano eleitoral, quais pautas o PT ainda considera viáveis ​​de avanço e o que entra como prioridade da bancada?

Reduzir a jornada de trabalho e regulamentares o trabalho dos aplicativos são pautas prioritárias para nós, assim como o tema da segurança, que a gente concluiu com a PEC (da Segurança, aprovada na Câmara no início de março) e agora só falta votar no Senado. Outra pauta é o combate à corrupção, que eu acho que a Polícia Federal junto com o governo está segurada. E eu também defendo a criação de duas secretarias no Ministério da Justiça: uma perspectiva ao combate à violência contra as mulheres e outra de combate ao crime organizado. Tem que estruturar pelo menos duas secretarias num ano que precisa ainda avançar em respostas e investigação.

A possível candidatura de Caiado altera o posicionamento do PSD e o comportamento do centro na eleição?

Nesse momento essa é a posição política do PSD. Agora, com a saída do Ratinho, que pra nós era o perfil que mais agregava os setores do PSD no país, com uma característica mais do Caiado, ele já se configurava como extrema direita. Vai dialogar com o centro? Acho difícil. E se for de extrema direita, o centro poderá já transitar no primeiro turno com o presidente Lula e principalmente no próprio segundo turno. E o terceiro ponto: o Caiado pode disputar e competir com o Flávio. O Caiado vai tirar votos do Flávio?

Ainda falando sobre alianças eleitorais, qual é hoje o papel de Geraldo Alckmin na estratégia eleitoral do PT?

Eu acredito que ele se consolida como um grande vice-líder, com diálogo com os setores de centro, que dialoga com esse setor produtivo. Eu chamaria o Alckmin de síntese do apoio ao capitalismo produtivo.