Poder e Governo

Investigadores avaliam que capítulos da delação de Vorcaro precisam ser entregues em até duas semanas

Prazo de apresentação do material à PF e à PGR é visto como 'razoável' para assegurar credibilidade do acordo e evitar percepção de que apurações pararam

Agência O Globo - 01/04/2026
Investigadores avaliam que capítulos da delação de Vorcaro precisam ser entregues em até duas semanas
Investigadores avaliam que capítulos da delação de Vorcaro precisam ser entregues em até duas semanas - Foto: Reprodução

Os investigadores à frente das negociações da delação premiada do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, avaliam que os capítulos da delação premiada precisam ser entregues em até duas semanas à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR). O banqueiro está preso na Superintendência da PF em Brasília, onde recebeu a visita de advogados e conversou sobre o teor dos depoimentos.

O prazo até o fim da primeira quinzena do mês é visto como “razoável” pelas autoridades envolvidas no caso.

O acordo de confidencialidade com a PF e a PGR para o início das tratativas veio a público em 19 de março, após o Supremo Tribunal Federal (STF) formar maioria para manter o banqueiro preso. Não há determinação em lei sobre o prazo para que os anexos sejam formalizados a partir da largada das conversas.

Caso PF e PGR considerem que a delação acrescenta elementos essenciais à investigação, ela seguirá adiante, mas para que seja válida em inquéritos ou processos ainda há necessidade de homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Essa etapa ficou a cargo do ministro André Mendonça, relator na Corte.

No mesmo dia em que formalizou a intenção de se tornar delator, Vorcaro foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a carceragem da PF, por determinação de Mendonça. O novo local tem regras menos rígidas para o trânsito de advogados, o que facilita a elaboração da proposta. Uma troca na defesa de Vorcaro também abriu caminho para ele se tornar delator: o advogado José Luís de Oliveira Lima, o Juca, contratou o caso. Ele já atuou no acordo do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro.

No atual estágio das negociações, espera-se que Vorcaro faça um relato preliminar ao investigador que pode apresentar, os fatos que pretende narrar e os nomes envolvidos. Na etapa seguinte, há necessidade de contemplar mais detalhes e fornecer elementos que possam corroborar os depoimentos. Essa fase é considerada crucial para o prosseguimento ou não das tratativas.

É necessário que o conteúdo vá além do que já foi identificado nas frentes de investigação abertas até agora, além de explicar dados já conhecidos, mas sobre os quais ainda paresam dúvidas. O pesquisador já tem em mãos arquivos de nove celulares do banqueiro, que incluem cerca de oito mil arquivos.

O dono do Mestre é suspeito de estar à frente de uma organização criminosa que praticava fraudes financeiras e ameaçava adversários. A posição de liderança e as provas já colhidas aumentam o grau de exigência do que ele precisará revelar para obter os benefícios.

PF e PGR precisam verificar informações

A colaboração premiada pode ser firmada por investigados ou réus, consistindo de presos ou não, em troca de benefícios, como redução de pena, regime mais brando ou, em situações específicas, até o perdão judicial.

As contrapartidas não são definidas de forma automática e são negociadas entre a defesa, PGR, PF e formalizadas em um documento. Também é frequente a previsão do delator devolver palavras que foram desviadas. Após a etapa dos anexos, trazemos os depoimentos formais, que precisam ser gravados em vídeo.

A lei exige que a colaboração produza resultados concretos, o que inclua a identificação dos coautores e demais participantes, a revelação sobre a divisão de tarefas dentro do grupo e o rastreamento de recursos.

Cabe à Polícia Federal e ao Ministério Público verificar a veracidade das informações apresentadas. A palavra do colaborador, isoladamente, não basta para sustentar uma acusação — é necessário que ela seja confirmada por outras provas.

Caso tenha certeza de que o colaborador mencionou ou omitiu informações relevantes, ele poderá perder os benefícios previstos. Por outro lado, se agir de boa fé e cumprir o que foi pactuado, não é punido caso as provas não sejam obtidas pelos investigadores.

Possíveis

Como O GLOBO mostrou, além das negociações formais, o avanço da delação pode barrar possíveis obstáculos como divergências entre PF e PGR e o alcance das conexões de Vorcaro na política e no Judiciário. Antes de o acordo de confidencialidade ser assinado, interlocutores do banqueiro sondaram investigadores sobre a possibilidade de a delação passar ao longo de ministros do STF, com o recebimento de que menções aos magistrados emperrassem o acordo.

A hipótese de uma colaboração restrita foi rechaçada, mas há visões diferentes entre autoridades a par do caso sobre a gravidade do que já veio à tona. Uma ala do Supremo avalia que é necessário esclarecer as relações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. Outras autoridades a par das investigações, por sua vez, deram mais peso ao que já surgiu sobre o ministro Dias Toffoli.

Os Auxiliares do Supremo lembram que as menções genéricas ou as relações indiretas não foram suficientes para trazer um ao centro das apurações, sendo necessária a apresentação de ouvidos concretos do ministro de eventual prática de atos de ofício.