Poder e Governo
Caiado promete 'mão pesada' contra agressores de mulheres e engrossa foco de pré-candidatos contra feminicídios
Violência contra a mulher mobiliza discursos e promessas de adversários da esquerda à direita na corrida ao Planalto, em meio à repercussão de casos violentos pelo país
Anunciado nesta segunda-feira como o gravou vídeos em que explora números de sua gestão estadual no combate à criminalidade e se posiciona como alguém de "mão pesada" contra agressores de mulheres. O foco na pauta da segurança pública com menção específica ao combate à violência de gênero reflete um movimento já adotado por aqueles que deveriam ser seus principais concorrentes na corrida ao Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
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Apelos por punições a agressores e por políticas de proteção às mulheres convergem no discurso de política da esquerda à direita. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgados em janeiro apontam que, em 2025, quatro mulheres foram mortas por dia no país, . O tema mobilizou os pré-candidatos já na largada da pré-campanha em meio à repercussão de novos assassinatos e outros atos violentos no país contra eles, que representam 52,5% do eleitorado, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A expectativa é que as inserções de TV gravadas por Caiado sejam veiculadas após a Páscoa. Como O GLOBO mostrou, a pré-campanha do goiano pretende. As peças apostaram no confronto direto com a administração federal e reforçaram os resultados de Goiás na área de segurança.
— Você acha mesmo que bandido é vítima da sociedade? Que roubou sua carteira e seu celular só para comprar uma cervejinha? — diz Caiado em uma delas.
Em outra, ao abordar o feminicídio, ele afirma:
— Existe uma arma que pode dar um jeito nisso. É a caneta. A diferença é que eu tenho coragem para ousar.
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Nos bastidores, a avaliação é que o objetivo é provocar o governo e forçar uma resposta nesse terreno, deslocando o debate para uma agenda em que Caiado se sinta mais confortável. Ao mesmo tempo, as inserções ajudam a marcar posição própria na direita, sem dividir espaço diretamente com o bolsonarismo neste primeiro momento.
Nos últimos meses, o senador Flávio Bolsonaro também intensificou os discursos voltados para as mulheres. No caso dele, a iniciativa busca ainda evitar repetir o forte eleito do eleitorado feminino ao seu pai, Jair Bolsonaro.
Em entrevistas, discursos e cartas, o filho do ex-presidente passou a fazer homenagens a mulheres como exemplos de "força e inspiração" e a mencionar ao governo federal uma suposta responsabilidade pelo aumento do número de feminicídios, dizendo que, sob a gestão de seu pai, as mulheres eram "mais protegidas".
Num ato na Avenida Paulista, o pré-candidato também defendeu um valor maior do Bolsa Família às mães solo. Já num giro pelo Nordeste, em que historicamente o bolsonarismo tem menos força, destacou representar um projeto de governo que "se preocupa de verdade com as mulheres" e oferece "o caminho de quem não tolera agressor de mulher".
O movimento em direção ao eleitorado feminino se embrenhava, inclusive, nas articulações pelo nome de seu vice-chapa. O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, vinha defendendo a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como companheira ideal de Flávio na corrida ao Planalto, de olho no magnetismo do ex-ministro de Jair Bolsonaro sobre o voto das mulheres e do agronegócio. Nesta segunda, durante evento do grupo Lide, em São Paulo, Valdemar voltou a defender que a vice seja mulher, mas disse que Tereza pretende concorrer ao Senado.
Em outra frente, o PL escalou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para buscar o voto feminino. Michelle passou a viajar mais pelo país em eventos do PL Mulher e aumentou a frequência de falas públicas. Isso não se refletiu, porém, no engajamento na pré-campanha de Flávio em meio às divergências entre os dois núcleos políticos da família. No evento em São Paulo, Valdemar citou os atritos internos e ressaltou que o clã vai ter de "resolver problemas" para poder vencer as eleições.
Por outro lado, em meio às críticas bolsonaristas à atuação do governo Lula, petistas passaram a postar conteúdo nas redes sociais relembrando falas machistas de Bolsonaro. O presidente atualizou o combate à violência de gênero como bandeira eleitoral desde o ano passado. Em dezembro, por exemplo, durante a solenidade de entrega das Carteiras Nacionais Docentes do Brasil (CNDB) no Ceará, ele afirmou que quem bate em mulher não precisaria votar nele em 2026 e ressaltou que se posicionaria como um "soldado" nessa luta.
No dia anterior, em Recife, Lula disse que a primeira-dama Rosângela Lula da Silva pediu a ele que assumisse a responsabilidade de uma luta mais dura no combate à violência contra a mulher. Como mostrado O GLOBO, Lula.
Além de incluir o tema nas falas públicas, o presidente planejou que o novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, priorizasse o tema e passasse a defender a articulação entre Executivo, Judiciário e Legislativo. Em fevereiro, Lula lançou um pacto nacional contra feminicídios. Na abertura da solenidade, a primeira-dama Janja da Silva fez um discurso e falou das vítimas. Já o presidente optou por ler um texto com dados sobre esses crimes no país.
No Dia Internacional da Mulher, o petista fez ainda um pronunciamento em cadeia nacional direcionado às mulheres. Entretanto, o discurso do presidente esbarra na falta de resultados concretos nessa proteção, na ocorrência popular à profusão de casos mais recentes e ao avanço de sua desaprovação no público feminino.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 11 de março revelou que a desaprovação do governo Lula entre as mulheres superou pela primeira vez a aprovação. Historicamente, as mulheres têm o governo aprovado mais do que os homens. Mas, desde novembro, a aprovação da gestão federal vem caindo nesse segmento. Naquele mês, chegou a 51%, e nesse levantamento mais recente caiu ao patamar de 46%, enquanto a desaprovação chegou a 48%.
Na pauta da segurança em geral, o presidente reforçou o discurso contra o crime organizado ao sancionar o Projeto de Lei Antifacção com vetos apenas pontuais. De olho no impacto eleitoral, foram mantidos trechos políticos do texto, como o que proíbe o voto de presos provisórios ligados ao crime organizado e o que veda o pagamento de auxílio-reclusão a familiares de condenados por participação em organizações criminosas.
— Que o cidadão que quiser cometer seus crimes saiba que seus filhos e sua esposa irão pagar pela irresponsabilidade dele. Acho uma medida muito relevante. Ele tem que sentir que não está causando mal apenas à sociedade, mas à sua família.
Outros pré-candidatos a fora da raia também reforçaram a entrega de proteção às mulheres. Cotado como possível sucessor de Jair Bolsonaro na corrida eleitoral antes do anúncio da escolha do ex-presidente pelo filho Flávio, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), confirmou a pré-candidatura à reeleição.
Nesta segunda-feira, o governador anunciou um pacote de medidas de combate à violência contra a mulher. As iniciativas incluem a criação de um plano de metas decenais e a ampliação da rede, com atendimento itinerante de acolhimento, assistência jurídica e encaminhamento para medidas protetivas. Nos próximos quatro meses, a administração estadual espera abrir 69 novas salas de Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), sendo 60 no interior do estado.
Além disso, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), órfãos de mulheres vítimas de feminicídio terão prioridade nas ações de suporte do programa SuperAção SP.
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