Poder e Governo

Ofensiva de campanha de Flávio por apoio de Ratinho Jr. com vaga de vice gera resistência e abala aliança no Paraná

Proposta foi discutida em conversa com Rogério Marinho em Brasília, mas plano de candidatura própria do PSD está mantido

Agência O Globo - 12/03/2026
Ofensiva de campanha de Flávio por apoio de Ratinho Jr. com vaga de vice gera resistência e abala aliança no Paraná
O senador Rogério Marinho (PL-RN) - Foto: Pedro França/Agência Senado

A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez uma nova tentativa de atrair o PSD e ofereceu ao governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), a vaga de vice na chapa e um superministério em um eventual governo. O chefe do Executivo resiste, e o PL ameaça com o rompimento da aliança no Paraná, o que pode tumultuar a sucessão no estado.

A proposta foi discutida nesta quarta-feira em Brasília, durante uma conversa entre Ratinho e o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado e responsável pela coordenação política da pré-campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ratinho, porém, reagiu com cautela, segundo interlocutores, e afirmou a Marinho que pretende manter seu projeto presidencial caso seja escolhido pelo PSD para representar o partido na eleição de 2026.

Durante a conversa, o governador também afirmou que se considera hoje o nome com maior respaldo interno dentro da legenda para disputar a Presidência. O PSD deve definir nas próximas semanas quem representará o partido na corrida ao Planalto, em uma disputa interna que envolve também os governadores Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS).

Uma nova conversa deve ocorrer em duas semanas, mas Ratinho disse, segundo aliados, que ameaças de rompimento poderiam dificultar a construção de um entendimento. O governador afirmou a Marinho que uma tentativa de forçar sua desistência poderia ter efeito contrário. Segundo interlocutores, ele sinalizou que um movimento nesse sentido poderia inclusive afetar o nível de engajamento de seu grupo em um eventual segundo turno presidencial envolvendo o candidato do PL.

Apesar da tensão, aliados de ambos os lados afirmam que o objetivo do encontro foi manter aberto o canal de negociação entre o bolsonarismo e o PSD, considerado um dos partidos mais cobiçados nas articulações para 2026 por sua presença nacional, capilaridade nos estados e tempo de televisão.

Fator Moro

Enquanto tenta atrair Ratinho, o entorno de Flávio também mantém em avaliação um plano alternativo no Paraná caso o entendimento com o governador não avance. Interlocutores da campanha dizem que o PL discute a possibilidade de apoiar o senador Sergio Moro (União Brasil) em uma eventual disputa pelo governo estadual. Um encontro entre Flávio e o senador está previsto para ocorrer na próxima semana.

A hipótese é vista dentro do PL como uma forma de garantir um palanque competitivo para a candidatura presidencial de Flávio no estado caso a aliança com Ratinho se deteriore.

Aliados do governador, no entanto, afirmam que o governador considera improvável um rompimento definitivo neste momento e que a estratégia de ambos os grupos ainda é preservar algum grau de convergência política para 2026.

Ao tratar do assunto com Marinho na reunião desta quarta-feira, Ratinho afirmou que a aliança com o PL no estado está costurada desde 2024. Nas eleições de Curitiba, o PL lançou o vice-prefeito Paulo Martins na chapa de Eduardo Pimentel (PSD). Na ocasião, segundo o governador, ficou acertado que o partido apoiaria o candidato indicado por ele para o governo do Paraná em 2026, em troca da candidatura do deputado federal Filipe Barros (PL) a uma das vagas ao Senado.

O governador também reclamou que, nesse período, sempre cumpriu os compromissos firmados com o PL — o que, segundo ele, não teria ocorrido do lado bolsonarista. Ratinho citou como exemplo o segundo turno da eleição em Curitiba, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro fez gestos de apoio à candidata derrotada Cristina Graeml, rompendo o acordo político previamente estabelecido.

Disputa no PSD

Dentro do PSD, a orientação segue sendo manter o projeto de candidatura própria à Presidência. O presidente da legenda, Gilberto Kassab, tem repetido a aliados que a decisão sobre o nome do partido será tomada internamente e que a sigla pretende apresentar uma alternativa de centro na disputa de 2026.

Nos bastidores da legenda, dirigentes avaliam que Ratinho tem hoje a maior capilaridade política entre os possíveis candidatos do partido, impulsionada tanto por sua popularidade no Paraná quanto pelo peso político de seu pai, o apresentador Ratinho, e por seu trânsito junto ao setor empresarial.

Mesmo com a investida da campanha de Flávio, aliados de Kassab afirmam que o PSD pretende manter o plano de candidatura própria. Uma aliança com o PL também enfrenta resistência dentro do partido por causa dos palanques estaduais, já que poderia prejudicar alianças locais — como em Pernambuco, onde a governadora Raquel Lyra (PSD) está politicamente mais próxima do governo Lula.

Após o encontro, Flávio fez um gesto público ao governador nas redes sociais. O senador comentou na noite de quarta-feira uma publicação de Ratinho e afirmou que os dois precisam “resgatar o Brasil das mãos sujas do PT”, sinalizando que, apesar das divergências, o bolsonarismo ainda tenta preservar pontes com o governador. No entorno de Ratinho, o gesto foi interpretado como uma tentativa de reduzir a tensão gerada pela conversa e manter abertas as negociações entre os dois campos.