Poder e Governo
De escala 6x1 a minerais críticos: Lula faz pedidos a Motta em jantar regado a whisky e samba enredo
Presidente convidou líderes de partidos da base para jantar na Granja do Torto
O jantar de confraternização do presidente Luiz Inácio da Silva com líderes de partidos da base do governo na Câmara, realizado nesta quarta-feira, teve clima de descontração, além de afagos e agradecimentos públicos de Lula ao presidente da Casa, (Republicanos-PB). No encontro, que durou cerca de três horas, o petista reforçou ao deputado o pedido para que pautas prioritárias do governo neste ano, quando tentará a reeleição, sejam votadas. Na lista estão a proposta que põe fim à escala de trabalho 6x1, a regulação do trabalho em aplicativos e um marco legal para a exploração de minerais críticos no país.
Líderes ouvidos pelo GLOBO afirmaram que Lula também pediu a Motta que o Congresso aprove rapidamente o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que tende a ser votado até março. Ainda é preciso tramitar pela comissão do bloco econômico na Casa antes de ir ao plenário. Esses pedidos foram feitos em conversa reservada.
O encontro, que foi realizado na Granja do Torto, residência oficial de campo da Presidência, teve como cardápio pratos da culinária paraense. Em discurso aos presentes, Lula disse ter certeza que sairá vitorioso em outubro, mas admitiu que será “uma eleição difícil”.
Todos os partidos da base aliada do governo, inclusive do Centrão, estavam representados no encontro.
O jantar oferecido por Lula na noite desta quarta-feira reuniu líderes da base aliada e o presidente da Câmara, em meio a um ruído entre o Palácio do Planalto e a cúpula da Casa. O encontro teve caráter político e simbólico: sinalizou a tentativa de distensionar a relação entre Executivo e Legislativo e reorganizar o ambiente de diálogo logo na largada do ano legislativo.
No encontro, Lula deixou de lado o ruído mais recente na relação com o Congresso, que envolve a discordância com a aprovação, por parte do Congresso, da ampliação das gratificações a servidores da Câmara e do Senado vinculadas ao desempenho e ao exercício de funções, que podem chegar a 100% do salário-base.
Motta e o líder do governo, José Guimarães, sentaram-se na mesma mesa e, segundo presentes não teve mal-estar. Mais cedo, após o governo negar conhecimento sobre o projeto, o presidente da Câmara disse que o deputado sabia do acordo que levou o texto à votação. Guimarães não se manifestou sobre o tema.
O presidente Lula agradeceu aos líderes e a Motta pela aprovação de projetos prioritários do governo no ano passado, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, e disse que a pauta prioritária de seu governo para este ano envolve o fim da escala 6x1 e a garantia de direitos a trabalhadores de aplicativo.
Reservadamente, líderes presentes no jantar dizem que, em um gesto visto como de afago ao presidente da Câmara, Lula disse a Motta que “amigo não é aquele que fica ao seu lado apenas nos bons momentos” e que o deputado poderia contar com ele nos momentos difíceis. O tom adotado por Lula contrasta com as críticas públicas do presidente a Motta na condução da PEC da Blindagem, por exemplo.
Lula também mencionou o presidente americano, Donald Trump, em sua fala. Disse que segue defendendo a soberania nacional e voltou a mencionar uma conversa com Trump na qual teria dito que o Brasil pode cooperar com os Estados Unidos no combate ao crime organizado.
A escolha da Granja não foi casual, já que tradicionalmente o espaço é usado por presidentes para conversas reservadas e fora da formalidade do Planalto.
Peixe e samba
O cardápio teve bacon de pirarucu, além de cerveja, vinho, uísque e cachaça. Lula circulou entre os convidados, conversou de forma descontraída e fez um discurso de tom emocional.
Antes de discursar, o presidente deixou tocar a música “Eu venho lá do sertão”. Em sua fala, reafirmou que a campanha será de comparações entre os avanços sociais de seu governo e os problemas da gestão do antecessor Jair Bolsonaro. Em sua fala a Motta, Lula não apresentou cobranças públicas. Os pedidos ocorreram em conversas paralelas.
O jantar foi encerrado ao som do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói deste ano, que homenageia Lula e sua trajetória política. O gesto tem sido repetido pelo presidente em vários de seus encontros recentes. Segundo aliados, ele tem mostrado a canção a todos.
Participaram do encontro, além dos líderes convidados, os ministros Rui Costa (Casa Civil), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Fernando Haddad (Fazenda), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Alexandre Silveira (Minas e Energia), além dos líderes do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e na Câmara, José Guimarães (PT-CE).
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