Poder e Governo

TCU volta a analisar meta fiscal após Congresso flexibilizar regra para o governo

Tribunal de Contas da União retoma debate sobre parâmetro de referência para cumprimento da meta fiscal, mesmo após o Congresso autorizar que o Executivo mire o piso da banda de tolerância.

Agência O Globo - 31/10/2025
TCU volta a analisar meta fiscal após Congresso flexibilizar regra para o governo
- Foto: Depositphotos

O Tribunal de Contas da União (TCU) voltará a analisar, nas próximas semanas, o processo que discute qual deve ser o parâmetro de referência para o cumprimento da meta fiscal — se o centro ou o piso da banda de tolerância.

Pela regra fiscal, há uma faixa de variação que funciona como margem de erro: o governo pode ficar um pouco acima ou abaixo do centro. A principal dúvida é se o Executivo deve mirar o meio dessa faixa (centro) ou o limite inferior (piso).

A retomada do julgamento ocorre após o Congresso Nacional aprovar um dispositivo que autoriza o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a perseguir o limite inferior da meta em 2025 — medida que evita um congelamento adicional de R$ 30,2 bilhões nas despesas.

O relator do caso no TCU, ministro Benjamin Zymler, havia autorizado temporariamente o governo a continuar mirando o piso durante a execução do Orçamento deste ano, mas manteve o entendimento de que essa prática seria irregular a partir de 2026. O julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Jhonatan de Jesus, que agora deve devolver o processo para nova deliberação do plenário.

Integrantes do governo avaliam que a decisão do Congresso oferece respaldo jurídico e político à estratégia do Executivo, mas admitem preocupação com a possibilidade de o TCU reafirmar que o centro da meta é o parâmetro obrigatório. Se isso ocorrer, a equipe econômica terá de preparar um bloqueio de até R$ 30 bilhões adicionais no próximo ano, o que pode comprometer a execução de emendas parlamentares.

O governo argumenta que a Lei de Responsabilidade Fiscal e o novo arcabouço fiscal preveem um intervalo de tolerância e que o contingenciamento deve se basear no limite inferior — não no centro. A Advocacia-Geral da União (AGU) defende que obrigar a busca pelo centro representaria "grave risco à execução de políticas públicas", tese acolhida por Zymler ao conceder efeito suspensivo ao acórdão anterior do tribunal.

A decisão política do Congresso, consolidada nesta quinta-feira, mantém a prática adotada em 2024 e é vista pelo Planalto como um contraponto preventivo à posição técnica do TCU. Ainda assim, ministros da Corte afirmam reservadamente que a aprovação legislativa não encerra o julgamento.

Atualmente, o governo mantém cerca de R$ 12,1 bilhões congelados para cumprir o piso da meta deste ano. Caso fosse obrigado a mirar o centro, o bloqueio total poderia chegar a R$ 42,3 bilhões.

O processo no TCU teve início no fim de setembro, quando o plenário considerou irregular que o governo mirasse o piso inferior da banda de tolerância da meta fiscal — em vez do centro —, alegando que isso contraria os parâmetros da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Na ação, a AGU sustentou que a própria legislação estabelece o limite inferior como baliza para contingenciamento e que exigir o centro da meta implicaria "grave risco à execução das políticas públicas". Zymler acolheu o argumento e concedeu efeito suspensivo à decisão.