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Startup cria 'computador vivo' com 800 mil neurônios humanos

Demonstração divulgada pela Cortical Labs mostra células cultivadas em laboratório controlando partidas de Doom em tempo real

Agência O Globo - 10/03/2026
Startup cria 'computador vivo' com 800 mil neurônios humanos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma demonstração tecnológica inédita chamou atenção neste mês ao apresentar o que parece ser ficção científica: neurônios humanos cultivados em laboratório jogando videogame. A startup australiana Cortical Labs divulgou um vídeo em que seu dispositivo biológico, o CL1, executa o clássico jogo Doom.

Diferentemente dos sistemas tradicionais baseados apenas em algoritmos, o equipamento utiliza células cerebrais humanas reais conectadas a um chip de silício. Os neurônios recebem estímulos elétricos correspondentes aos dados do jogo e respondem com sinais interpretados como ações no ambiente digital, como movimentação e mira em inimigos.

Um computador feito de neurônios

Apresentado durante o Mobile World Congress 2025, em Barcelona, o CL1 é descrito pela empresa como o primeiro computador biológico comercialmente viável. No núcleo do sistema estão cerca de 800 mil neurônios humanos, derivados de células-tronco reprogramadas a partir de amostras de pele e sangue de doadores adultos, segundo informações da revista IEEE Spectrum.

Essas células crescem sobre uma matriz de eletrodos capaz de enviar impulsos elétricos e registrar respostas do tecido neural em tempo real. Na demonstração com Doom, cerca de 200 mil neurônios receberam dados do jogo convertidos em sinais elétricos, processaram as informações e emitiram comandos que controlaram a partida.

A exibição pública ainda não foi publicada em estudo revisado por pares, mas a base científica do projeto tem precedentes: em 2022, pesquisadores ligados à empresa relataram na revista Neuron que culturas neuronais semelhantes aprenderam a jogar Pong em poucos minutos, reorganizando-se espontaneamente.

Eficiência energética como vantagem

O avanço surge em meio ao debate sobre o alto consumo energético da inteligência artificial. Enquanto grandes centros de treinamento de modelos consomem enormes quantidades de energia, o cérebro humano opera com cerca de 20 watts, equivalente ao consumo de uma lâmpada econômica.

Segundo o cientista-chefe da Cortical Labs, Brett Kagan, um rack com 30 unidades do CL1 consome menos de um quilowatt no total. A proposta não é competir diretamente com GPUs utilizadas em IA, como as da Nvidia, mas atuar em áreas onde aprendizado adaptativo e eficiência energética são essenciais, como robótica, descoberta de medicamentos e modelagem de doenças neurológicas.

Convergência entre cérebro e máquina

O desenvolvimento ocorre paralelamente a iniciativas que buscam integrar diretamente cérebro humano e tecnologia. Um dos exemplos mais conhecidos é a Neuralink, empresa que trabalha com implantes de eletrodos no cérebro para comunicação com computadores.

Enquanto projetos desse tipo conectam dispositivos ao cérebro humano, o sistema da Cortical Labs adota o caminho inverso: leva tecido biológico para dentro da máquina. Especialistas apontam que, futuramente, essas abordagens podem convergir na criação de interfaces híbridas entre inteligência biológica e computação digital.

Neurônios como serviço

Além da venda do dispositivo, com preço anunciado de cerca de US$ 35 mil por unidade, a empresa aposta em um modelo de acesso remoto chamado “wetware as a service”. Nele, pesquisadores podem utilizar culturas neuronais vivas hospedadas em laboratório por aproximadamente US$ 300 por semana, sem necessidade de infraestrutura própria.

Entre os investidores da startup está a In‑Q‑Tel, fundo de capital de risco vinculado à comunidade de inteligência dos Estados Unidos, o que indica interesse estratégico no desenvolvimento da tecnologia.

Segundo a Cortical Labs, as culturas neuronais utilizadas não apresentam estruturas associadas à consciência. Ainda assim, pesquisadores reconhecem que a expansão dessa tecnologia levanta questões éticas e regulatórias sem um marco jurídico definido. Para muitos especialistas, a discussão sobre o uso de tecido humano em computação comercial está apenas começando.