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Revisão aponta baixa eficácia de novas drogas contra Alzheimer e divide comunidade médica

Colaboração internacional diz que fármacos para combater proteína associada à doença tem efeito apenas "trivial"; críticos veem problema metodológico na avaliação

Agência O Globo - 07/05/2026
Revisão aponta baixa eficácia de novas drogas contra Alzheimer e divide comunidade médica
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma das instituições médicas mais influentes do mundo entrou em conflito com associações de psiquiatras e neurologistas após publicar um parecer dizendo que uma classe de drogas modernas contra a doença de Alzheimer não funciona bem e faz pouca ou nenhuma diferença no tratamento.

Os autores da revisão de ensaios clínicos que chegaram a essa conclusão são da colaboração Cochrane, uma rede internacional de pesquisadores que há três décadas tem sido a ente independente mais influente na construção de consenso em medicina.

Ranking da preocupação:

Esse consórcio cresceu ao longo de três décadas por ter demonstrado conseguir compilar e analisar estudos com metodologia sólida e independente para avaliar a eficácia de drogas e tratamentos.

Duas semanas atrás, a Cochrane publicou uma revisão sobre as drogas inibidoras da beta-amiloide, uma proteína associada ao Alzheimer que tem sido o principal alvo dos desenvolvedores de medicamentos. Esse é o composto que se acumula na forma de placas afetadas no cérebro de portadores dessa doença, caracterizada pela degeneração de neurônios afetando a memória e outras funções cognitivas.

Entrevista:

As drogas que existem hoje atacam a beta-amiloide usando anticorpos monoclonais, agentes imunológicos produzidos em laboratório especificamente para decompor essa molécula. Segundo a análise da Cochrane, porém, essa estratégia teve resultado inconsistente.

"Considerando a função cognitiva e a gravidade da demência, o efeito das anticorpos monoclonais contra a proteína beta-amiloide após 18 meses de tratamento à doença de Alzheimer é trivial. Considerando a capacidade funcional, o efeito é, na melhor das hipóteses, pequeno", disse o relatório. "A remoção bem-sucedida da amiloide do cérebro não parece estar associada a efeitos clinicamente causados ​​em pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido à doença de Alzheimer."

Na opinião do comitê que fez a revisão dos estudos, liderada por Francesco Nonino, do Instituto de Ciências Neurológicas de Bolonha (Itália), as pesquisas futuras de novos medicamentos contra o Alzheimer devem se concentrar "em outros mecanismos de ação."

Ação e reação

Ao longo dos últimos dias, o documento precipitou a evidência de várias associações médicas e grupos acadêmicos. Eles afirmam que a Cochrane foi dura demais em suas conclusões e que a revisão teve limitações metodológicas. É uma crítica relatada dirigida a um consórcio que há décadas mantém confiança de uso do "padrão-ouro" para avaliar de medicina com base em evidências.

O principal problema apontado pelos críticos da revisão é que ela agrupou drogas com princípios ativos muito diferentes. Agregados numa espécie de meio que a revisão produzida, os medicamentos com desempenho pior foram ofuscados a qualidade daqueles que tiveram algum diferencial clínico.

"Interpretar essas estimativas agregadas como uma representação uniforme do efeito dessa classe de risco obscurecer diferenças importantes entre terapias individuais", escreveu no artigo hoje na revista Lancet o neurologista Nick Fox, professor do University College de Londres. "É importante notar que uma redução sustentada na taxa de declínio cognitivo, mesmo moderada, pode adiar transições clínicas relevantes, como a perda de independência, a necessidade de suporte e a internação."

Um dos líderes da revisão, porém, defendeu em comunicado que a metodologia do trabalho foi desenhada de modo a não encontrar viés, e que os resultados estão em linha com a experiência clínica de muitos médicos.

“Atendo pacientes com Alzheimer em minha clínica todas as semanas e gostaria de ter um tratamento eficaz para oferecer a eles”, disse Edo Richard, professor da Universidade Radboud, da Holanda. "Os medicamentos aprovados atualmente oferecem algum benefício para alguns pacientes, mas há uma grande demanda ainda não atendida por tratamentos mais eficazes. Infelizmente, os medicamentos anti-amiloides não oferecem isso e trazem riscos adicionais."

Histórico tumultuado

Ao todo, uma revisão da Cochrane incluiu 17 estudos clínicos feitos para sete diferentes tipos de drogas. Duas delas, o lecanemab e o donanemab, foram aprovadas em vários países, incluindo o Brasil.

Em terceiro lugar, o aducanumab recebeu aprovação nos EUA em 2021 num processo que pulou etapas, decisão controversa que desencadeou a renúncia de membros do comitê regulador. A empresa que desenvolveu o medicamento, a Biogen, descontinuou-o em 2024 por razões financeiras e redirecionou seus recursos para o Lecanemab, que também é produto seu.

Os quatro outros medicamentos testados não chegaram a ser aprovados porque tiveram desempenho ruim nos ensaios clínicos. Enquanto esses testes estavam em andamento, em 2022, eclodiu também um em estudos pré-clínicos influentes sobre o Alzheimer e a beta-amiloide.

Muitos médicos defendem a posição de que os anti-amiloides são benéficos para uma parcela minoritária de pacientes e que exigem diagnóstico precoce para terem um efeito protetor, o que reduz seu escopo de aplicação.

Situação no Brasil

Apesar do histórico tumultuado de debate, entidades médicas pedem cautela a quem cogita desconsiderar o uso das drogas em questão. A Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) é um dos grupos que defendem que drogas que não foram aprovadas não deveriam ser consideradas na revisão da Cochrane.

“Não se deve desconsiderar evidências positivas recentes por interpretações bastante generalistas”, afirmou a enteidade. "O momento atual da terapêutica da doença de Alzheimer exige nuance, responsabilidade e atualização constante."

Segundo Lucas Schilling, neurologista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), o que o estudo da Cochrane não contemplou muito é que existe um subtipo de paciente de Alzheimer que tende a se beneficiar mais dos anti-amiloides.

— A questão é que há grande dificuldade no sistema de saúde hoje no acesso a um diagnóstico em fases iniciais, feito com biomarcadores, que pode identificar o perfil de paciente elegível que tenha chance de benefício conseguindo ter uma redução na progressão da doença de Alzheimer com esse tratamento — diz o pesquisador.

Leonardo Cruz de Souza, professor de neurologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta uma outra limitação da revisão da Cochrane. Recentemente, médicos divulgaram dados novos sobre a continuidade de acompanhamento com lecanemab e do donanemab, que não foram incluídos na análise porque estavam fora da janela de tempo predeterminada do estudo.

— Os dados de extensão sobre essas duas moléculas que são bem interessantes no sentido de mostrar que o benefício desses remédios se sustentam ao longo do tempo — diz Cruz de Souza. — A revisão da Cochrane é importante, sim, mas tem alguns limites interpretativos que devem ser considerados. Não entendo essa revisão como algo que justifica não mais prescrever esses medicamentos, ou que o uso deles seja inócuo.

Os especialistas ouvidos pela GLOBO, de todo modo, concordam que o cenário de pesquisa de Alzheimer precisa encontrar caminhos complementares e avançar mais. Mesmo que se reconheça a eficácia das drogas disponíveis, seu efeito é parcial na desaceleração da doença, e a esperança de reverter os danos neurais que ela causa ainda é um objetivo distante para a ciência.