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IA, poder e guerra: o que a disputa entre empresas e governo dos EUA revela sobre o futuro da tecnologia

Caso envolvendo OpenAI, Anthropic e o Departamento de Defesa dos EUA expõe a consolidação da Inteligência Artificial como infraestrutura estratégica de poder

LC agência comunicação 05/03/2026
IA, poder e guerra: o que a disputa entre empresas e governo dos EUA revela sobre o futuro da tecnologia
IA, poder e guerra: o que a disputa entre empresas e governo dos EUA revela sobre o futuro da tecnologia - Foto:

Uma decisão recente do governo dos Estados Unidos acendeu um alerta no debate global sobre Inteligência Artificial. A administração do presidente Donald Trump determinou que agências federais deixem de utilizar tecnologias desenvolvidas pela Anthropic. Poucas horas depois, a OpenAI anunciou um acordo para disponibilizar seus modelos em redes classificadas do Departamento de Defesa norte-americano.

À primeira vista, a mudança pode parecer apenas uma troca de fornecedores. Mas, para o especialista em tecnologia e inovação Fernando Barra, o episódio revela a transformação definitiva da Inteligência Artificial em infraestrutura estratégica de poder.

“Quando um governo integra IA à sua infraestrutura militar, não estamos falando apenas de software. Estamos falando de capacidade estratégica, vantagem geopolítica e novas formas de exercer controle e tomada de decisão em escala inédita”, afirma Barra, autor do livro Inteligência Artificial Ampliada.

Reação pública imediata

O impacto da decisão também foi percebido fora do ambiente político e tecnológico. Dados da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower indicam que as desinstalações do aplicativo ChatGPT nos Estados Unidos cresceram 295% em um único dia após a divulgação do acordo envolvendo o Departamento de Defesa.

Nos 30 dias anteriores, a taxa média diária de remoção do aplicativo era de cerca de 9%.

Para Barra, o movimento indica uma mudança na percepção pública sobre o papel da IA. “As pessoas estão começando a entender que a Inteligência Artificial não é apenas um produto tecnológico. Ela também envolve poder, valores e impactos sociais”, diz.

O conflito que tirou a Anthropic do contrato

Antes da decisão, o Pentágono mantinha um contrato estimado em até US$ 200 milhões com a Anthropic para o desenvolvimento de sistemas de IA voltados a operações de defesa e inteligência.

O acordo acabou interrompido após divergências sobre limites éticos para o uso da tecnologia. A empresa teria defendido duas restrições explícitas: a proibição do uso da IA em armas totalmente autônomas (sem controle humano) e em sistemas de vigilância em massa de cidadãos americanos.

A posição do governo foi diferente. A justificativa foi de que, ao adquirir a tecnologia, o Estado deveria poder utilizá-la em qualquer finalidade considerada legal para a segurança nacional.

Sem consenso, o contrato foi cancelado e a empresa passou a ser considerada um risco de cadeia de suprimentos para a segurança nacional. Pouco depois, a OpenAI firmou o novo acordo com o Departamento de Defesa.

IA como amplificador de poder

Para Fernando Barra, episódios como esse reforçam um ponto central do debate atual sobre Inteligência Artificial. Segundo ele, a tecnologia funciona menos como uma entidade autônoma e mais como um amplificador das estruturas humanas que a utilizam.

“A IA amplia a capacidade de governos, corporações e instituições. Por isso, a pergunta mais importante não é apenas o que a tecnologia consegue fazer, mas quem controla os sistemas que estão sendo ampliados”, explica.

Na prática, isso significa que o impacto da IA tende a refletir as prioridades das estruturas que a utilizam. “Se o sistema dominante é científico, ela acelera a ciência. Se é empresarial, acelera os mercados. E se é militar, amplia a capacidade estratégica e de guerra”, afirma.

Impacto no Conflito no Oriente Médio

Uma reportagem da Reuters apontou que os Estados Unidos realizaram ataques contra posições associadas ao Irã utilizando um conjunto de recursos militares que incluiu mísseis, aeronaves de combate e drones.

De acordo com o veículo, sistemas de IA ligados à empresa Anthropic teriam sido empregados no suporte às operações, mesmo após o encerramento do contrato com o governo americano.

O episódio reforça que a presença da inteligência artificial em cenários de conflito e pode impulsionar a aceleração das decisões militares, a escalada da violência entre países e o estímulo para que outras nações invistam em tecnologias semelhantes para não perder vantagem estratégica.

Quem define os limites?

O episódio envolvendo empresas de tecnologia e o governo norte-americano também levanta uma discussão mais ampla sobre governança e responsabilidade no uso da Inteligência Artificial.

Para Barra, a questão central não é apenas tecnológica, mas política e social. “Estamos assistindo a uma disputa sobre quem define os limites e as direções dessa amplificação”, afirma.

A pergunta que emerge desse cenário é complexa: quem deveria estabelecer os limites da Inteligência Artificial em contextos de guerra, vigilância e segurança nacional, empresas privadas, governos ou organismos internacionais?

Segundo o especialista, a resposta definirá não apenas o futuro da tecnologia, mas também o tipo de inteligência coletiva que as sociedades decidirão ampliar.

“A tecnologia não determina o futuro sozinha. O futuro depende das estruturas humanas que escolhem como utilizá-la”, conclui.