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Kamala diz que 'muitos civis' foram mortos em ataque israelense a complexo escolar em Gaza e defende um cessar-fogo na região

Ao ser questionada sobre ação, vice e candidata à Casa Branca afirmou que Israel tem direito à defesa, mas que também tem 'importante responsabilidade' em evitar vítimas

Agência O Globo - GLOBO 11/08/2024
Kamala diz que 'muitos civis' foram mortos em ataque israelense a complexo escolar em Gaza e defende um cessar-fogo na região
Kamala Harris - Foto:

A vice-presidente dos EUA e candidata pelo Partido Democrata à Casa Branca, Kamala Harris, disse no sábado que Israel tem o direito de lutar contra o Hamas, mas que também tem a "responsabilidade" de evitar vítimas civis, e reiterou seu pedido por um acordo para libertação dos reféns e um cessar-fogo na Faixa de Gaza. A declaração ocorreu após ser questionada sobre o ataque israelense contra um complexo escolar transformado em abrigo no enclave palestino que matou ao menos 90 pessoas, incluindo 11 crianças e seis mulheres. Segundo a vice, "muitos civis" foram mortos no território.

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— Israel tem o direito de perseguir os terroristas do Hamas — disse Kamala, acrescentando: — Mas, como eu já disse muitas e muitas vezes, eles também têm, acredito eu, a importante responsabilidade de evitar vítimas civis.

O porta-voz do Hamas, Mahmoud Basal, disse inicialmente que cerca de 6 mil palestinos deslocados estavam abrigados no complexo, mas depois mudou o número para mais de 2 mil. Tanto o serviço de emergência da Defesa Civil quanto o porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza, Medhat Abbas, disseram que o ataque ocorreu enquanto mais de 200 pessoas se reuniam antes do nascer do sol, em um salão de orações para rezar.

As autoridades israelenses afirmam que mataram ao menos 19 terroristas no ataque e justificaram a ação afirmando que combatentes do grupo estavam usando o local na Cidade de Gaza para conduzir operações militares e ataques contra Israel. O bombardeio — cujo número de vítimas não pôde ser verificado de forma independente — está entre os mais mortíferos desde o início da guerra em Gaza, desencadeada por um ataque do Hamas em solo israelense em outubro, segundo dados divulgados pelo próprio grupo, no poder no enclave desde 2007.

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O ataque foi amplamente condenado internacionalmente e ocorreu em meio ao temor de uma escalada regional e à pressão internacional para que as partes envolvidas na guerra cheguem a um consenso sobre um cessar-fogo. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional americano, Sean Savett, disse em comunicado que Washington estava "pedindo mais detalhes" e que o ataque "ressalta a urgência de um cessar-fogo e de um acordo sobre reféns, pelos quais continuamos trabalhando incansavelmente".

Os posicionamentos de Kamala

A guerra em Gaza é um tema sensível para a política externa americana, que tem gerado críticas entre uma parte dos democratas, principalmente os mais jovens, ao apoio sem reservas da administração do presidente Joe Biden ao aliado no Oriente Médio. Kamala, assumiu uma voz ativa sobre o conflito, especialmente sobre a situação dos palestinos. Em um discurso sobre os direitos civis em Selma, no Alabama, ela chamou atenção ao pedir um “cessar-fogo imediato”, e criticando Israel por criar uma “catástrofe humanitária” no enclave, que já soma quase 40 mil mortos em dez meses de guerra.

No fim de julho, a vice-presidente se reuniu com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Washington. Em declarações à imprensa após a reunião, disse ter um compromisso antigo com a defesa de Israel, chamou o Hamas de “uma brutal organização terrorista”, que cometeu atos “horrendos” de violência sexual e que sequestrou mais de 250 reféns — ela leu os nomes de alguns dos cidadãos americanos que ainda estão em Gaza.

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Mas afirmou também que não "ficará em silêncio" sobre a crise em Gaza, dizendo ter expressado a Netanyahu sobre sua preocupação com essa situação ao citar a grave insegurança alimentar enfrentada por praticamente toda a população de cerca de dois milhões de pessoas. Ela também afirmou que a guerra em Gaza “não é um conflito binário”, e pediu aos americanos que tentem entender as complexidades da região.

Sua ênfase ao sofrimento palestino marca uma diferença na retórica de Biden, e, ao mesmo tempo que expressou repúdio aos discursos antissemitas durante os protestos nas universidades ao redor dos EUA, não atacou o movimento de forma geral. Kamala defende a solução de dois Estados e o apoio anual fornecido pelos americanos ao país, além de pacotes adicionais, como os aprovados desde o início do conflito. Condenou o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro e participou de um fórum que discutiu as acusações de estupro cometidas pelo grupo durante o ataque.

Kamala é casada com Doug Emhoff, que é judeu. Ele garantiu que a companheira será, se eleita, uma grande defensora do Estado de Israel, e também da manutenção da ajuda americana ao país, embora a vice dê sinais de que irá recalibrar essa relação.

O posicionamento da vice-presidente frente ao conflito também se estende à escolha para seu companheiro de chapa, o governador de Minnesota, Tim Walz. A campanha de Donald Trump e aliados do ex-presidente alegam que a escolha de Walz e não de Josh Shapiro, governador da Pensilvânia e um dos outros cotados, teria sido orientada pelas opiniões de extrema esquerda entre os democratas que estariam preocupados com a atuação de Shapiro, que é judeu, frente à guerra em Gaza.

"Sejamos claros: Kamala não cedeu à ala antissemita e pró-Hamas do Partido Democrata. Ela pertence à ala pró-Hamas do Partido Democrata", escreveu o senador republicano do Arkansas Tom Cotton, enquanto o ex-secretário de imprensa da Casa Branca durante o governo de George W. Bush, Ari Fleischer fez uma publicação similar: "O partido D não é o lar de fortes apoiadores de Israel. É hora de a comunidade judaica reconhecer que o poder no partido D está com sua base progressista anti-Israel."

Apesar disso, o grupo Democratic Majority for Israel elogiou a escolha do governador de Minnesota, descrevendo-o como um "democrata pró-Israel com um forte histórico de apoio ao relacionamento EUA-Israel". (Com NYT)