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Igreja Católica beatifica pela 1ª vez bebê que morreu na barriga da mãe, morta por esconder judeus na 2ª Guerra

Evento religioso ocorre neste domingo na pequena vila de Markova, que deve contar com a presença do presidente Andrzej Duda, dezenas de ministros e políticos e o alto clero do país

Agência O Globo - GLOBO 09/09/2023
Igreja Católica beatifica pela 1ª vez bebê que morreu na barriga da mãe, morta por esconder judeus na 2ª Guerra

A Igreja Católica realiza neste domingo um evento inédito: a beatificação de toda uma família ao mesmo tempo, incluindo um bebê que não chegou a nascer. Tratam-se dos Ulma, poloneses católicos mortos por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por esconder judeus. Os pais, Josef e Wictoria Ulma, além de seus sete filhos — um deles ainda na barriga da mãe, e os outros com idades entre 1 e 8 anos — serão beatificados em um evento com ares de superprodução na pequena vila de Markova, a cerca de 200 km de Cracóvia, na Polônia, que deve contar com a presença do presidente Andrzej Duda, dezenas de ministros e políticos e o alto clero do país, onde pelo menos 90% dos 37 milhões de habitantes se declaram católicos.

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Em 24 de março de 1944, toda a família foi fuzilada por soldados nazistas que descobriram que os Ulma escondiam no sótão oito pessoas de duas famílias judaicas. Eles haviam sido denunciados por Wlodzimierz Les, um membro da Polícia Azul, única força armada polonesa autorizada pelos nazistas na Polônia ocupada. Os judeus escondidos pertenciam às famílias Goldman e Szall e também foram vítimas do massacre.

Em 1995, o Instituto Yad Vashem, de Israel, atribuiu ao casal o título de Justos entre as Nações. Já o processo católico começou há 20 anos, em 2003, mas só em dezembro do ano passado o Papa Francisco anunciou a data da beatificação, que ocorre em meio à campanha eleitoral do país. À época, o Vaticano confirmou que se trata de “um acontecimento sem precedentes no processo moderno de canonização”. Na Igreja Católica, a beatificação é o último passo antes da santidade.

“Essa beatificação incomum é um testemunho do seu sacrifício durante a Segunda Guerra Mundial, quando os Ulma abrigaram e protegeram oito judeus da perseguição”, afirmou o Vaticano em nota.

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Quando morreu, Wictoria estava grávida de sete meses. Algumas versões do caso dizem que a cabeça do bebê podia ser vista quando seu corpo foi encontrado em uma fossa comum, o que indicaria que ela tinha começado a dar à luz durante sua execução. Para beatificar o nascituro, o Papa lhe concedeu um "batismo de sangue", para que o bebê que não chegou a nascer fosse considerado digno do martírio.

A pequena vila de Markova inaugurou, em 2016, um museu com o nome da família, que também homenageia, com uma enorme placa de pedra, outros mil poloneses católicos da região que tentaram ajudar os judeus durante o Holocausto — 116 deles foram mortos. Foram investidos 6 bilhões de zloty (moeda local), o equivalente a cerca de R$ 7 bilhões, no projeto.

Os Ulma também tornaram-se patronos das ruas de toda a Polônia, e sua história está nos livros didáticos. O último ato ocorreu em julho deste ano, quando o Parlamento polonês aprovou, por amplo consenso, uma lei que designa o ano de 2024, 80 anos após a morte do casal e de seus filhos, como o Ano da Família Ulma.

— A família Ulma tem um papel importante na consciência nacional polonesa. Eles personificam o heroísmo e sacrifício polonês durante a Segunda Guerra Mundial. Essa é uma parte importante da nossa identidade, e os poloneses querem ser identificados com esses valores — disse ao GLOBO o cientista político polonês Paweł Ukielski, vice-diretor do Museu do Levante de Varsóvia.

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Em um artigo recente, publicado no jornal polonês Wszystko co najważniejsze (Tudo que é mais importante, em tradução livre), o presidente Duda afirma que o evento católico "vai além da dimensão religiosa":

"Será também uma homenagem aos heróis que incorporam os mais elevados ideais da humanidade. A história do seu martírio merece reconhecimento global, pois, embora seja terrível, é também um testemunho fortalecedor do amor ao próximo", escreveu o presidente polonês, um católico conservador reeleito em 2020 para um mandato de cinco anos.

* A repórter viajou a convite do Memorial do Holocausto de São Paulo, com apoio do governo da Polônia