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'Aqui não é o fórum apropriado para isso', diz Lula sobre a posição mais moderada do G20 sobre guerra na Ucrânia

Declaração adota posição mais moderada sobre conflito e retira condenação expressa à agressão russa

Agência O Globo - GLOBO 09/09/2023
'Aqui não é o fórum apropriado para isso', diz Lula sobre a posição mais moderada do G20 sobre guerra na Ucrânia
Lula - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste sábado que o G20 não é "o fórum apropriado" para discutir a guerra entre Rússia e Ucrânia. Lula mencionou que a cúpula discute prioritariamente questões econômicas e apontou a Assembleia Geral da ONU - marcada para o próximo dia 19 - como o local para tentar discutir a paz.

Lula deu as declarações durante entrevista para a CNN News, da Índia. O GLOBO teve acesso apenas ao áudio com a tradução.

— Não queríamos aqui na Índia discutir a guerra entre Rússia e Ucrânia. Aqui não é o fórum apropriado para isso. Em setembro deste ano vamos ter a Assembleia-Geral da ONU e este é o lugar para discutir a guerra. Esse é o lugar para tentar discutir a paz. Lá é o lugar para chamar o Putin e o Zelensky para uma mesa de negociação. Todo mundo é contra a guerra. Queremos a paz. Então é necessário que a gente comece uma conversa para convencer os dois países que a guerra não é a solução para nada e que a diplomacia pode ajudar muito mais.

A declaração final dos líderes do G20 adotou um tom mais moderado sobre a guerra. No texto, o grupo de países que reúne as maiores economias do mundo, a União Europeia e mais recentemente a União Africana denuncia o "uso da força" para ganho territorial na guerra na Ucrânia — posição vista como mais moderada do que a condenação expressa à "agressão da Federação Russa" feita no encontro em Bali, no ano passado.

Lula afirmou ainda que falou com os líderes do G20, inclusive o presidente dos Estados Unidos Joe Biden, em mais de uma ocasião que não havia interesse em discutir a guerra, mas sim "discutir a paz", e que a delcaração final "foi uma maioria formada".

— Foi uma maioria que foi formada [...] A gente não podia trazer para a Índia um debate que tem mais consequências na Europa porque está diretamente envolvido na guerra, e nos Estados Unidos, porque também está diretamente envolvido na guerra. Os outros países não estão envolvidos diretamente na guerra. Os outros países estão envolvidos para desenvolver uma política de paz. Já discutimos com os governos europeus, discuti duas vezes com o presidente Biden que não queremos discutir guerra, queremos discutir paz. Quando Putin e Zelensky quiserem discutir a paz, a Índia vai conversar, o Brasil, a China, a Argentina.

Lula ainda reafirmou que o Brasil é contra "qualquer país" que invada o território de outras nações.

— O Brasil é 100% contra a invasão da integridade territorial de qualquer país. É contra isso. É contra a Rússia, a China, os EUA, é contra qualquer país que invada o território de outro país.

Questionado se Putin será convidado para a próxima reunião do G20 no Brasil, Lula afirmou que o presidente russo será convidado e que pode "facilmente ir para o Brasil".

— Ele será convidado. Porque o ano que vem teremos os Brics na Rússia. Antes do G20 no Brasil, teremos os Brics na Rússia e eu vou nos Brics na Rússia no próximo ano [...] Todo mundo vai para a reunião dos Brics e espero que também venham para o G20 no Brasil. No Brasil eles vão sentir um clima de paz, eles vão sentir que no Brasil a gente gosta de música, de carnaval, de futebol, mas a gente gosta de paz e queremos tratar bem as pessoas. Então eu acredito que o Putin pode facilmente ir para o Brasil

Putin é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) pela acusação de deportação forçada de crianças ucranianas. O mandado fez com que o presidente russo desistisse de comparecer à reunião dos Brics na África do Sul, em agosto. Embora Putin tenha sido convidado, o mandado de prisão do TPI por crimes de guerra, em teoria, obriga as autoridade do país africano, que é signatário do Tribunal, a prendê-lo.

Apesar do Brasi também ser signatário, Lula afirmou que Putin não será preso se for ao Brasil.

— O que eu posso dizer para você é que se eu for presidente do Brasil e ele for para o Brasil não há porque ele ser preso, ele não será preso.

Guerra da Ucrânia no G20

Apesar do Brasi também ser signatário, Lula afirmou que Putin não será preso se for ao Brasil.

A guerra na Ucrânia foi um dos tópicos mais sensíveis do fórum, sobretudo para a anfitriã Índia, que tem buscado um equilíbrio entre sua aliança histórica com Moscou — principal fornecedora de armas — e a adesão ao grupo Quad — aliança de segurança com Austrália, Japão e Estados Unidos. Segundo o chanceler indiano, Subrahmanyam Jaishankar, os líderes discutiram as "consequências significativas para a economia global" que a guerra na Ucrânia tem "nos países em desenvolvimento e menos desenvolvidos", observando que o grupo não é uma plataforma para discussões de teor político.

A fala de Jaishankar foi interpretada como uma resposta direta à reclamação da China de que o G20 deveria ser apenas um fórum de discussões econômicas, e não assuntos como guerra e paz. O presidente chinês, Xi Jinping, não compareceu à cúpula este ano pela primeira vez desde que assumiu o poder. Próximo ao presidente russo, Vladimir Putin — que também não esteve presente e enviou o chanceler Sergei Lavrov para representá-lo —, a ausência de Xi acontece também em meio a rusgas com Nova Délhi após a divulgação do mapa do país incluindo territórios em disputa com a Índia.

Em linhas gerais, a menção ao conflito russo-ucraniano foi construída de modo que tantos os EUA e União Europeia (UE) quanto os países neutros ou aliados de Moscou pudessem reivindicar uma vitória diplomática.

Lula ainda afimou durante a entrevista que o G20 está "muito organizado" e falou sobre o lançamento da 'Aliança Global para Biocombustíveis'.

— Tivemos muito trabalho, eu cheguei ontem a noite. Hoje tivemos duas sessões trabalhosas e tivemos outros eventos muito importantes. Lançamos um política de biocombustíveis para que é muito forte para que a gente possa combater os efeitos dos gases estufa.

Lula ainda afirmou que acredita que os países vão sair com "diretrizes" sobre o que deve ser feito a partir de agora para alcançar igualdade entre países e pessoas. O presidente também afirmou que "não é brincadeira" os problemas envolvendo questões climáticas.