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Milei recua em liberar venda de áreas afetadas por incêndios

Projeto que permitia a venda foi excluído após pressão popular.

Agência Brasil 07/08/2026
Milei recua em liberar venda de áreas afetadas por incêndios
Protestos em Buenos Aires contra queda de direitos sobre terras atingidas por incêndios.

Em meio à repressão contra protestos nas ruas, o governo de Javier Milei excluiu da votação no Senado, nesta quinta-feira (6), o capítulo do projeto que prevê a possibilidade de vender terras em áreas afetadas por incêndios florestais.

Esta é a segunda derrota da semana da Casa Rosada no Senado do país. O capítulo que ampliava os limites para venda de terras ao exterior também foi retirado de acordo com a pauta pressão popular .

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Os dois projetos compõem um pacote de mudanças chamado pelo governo de Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada.

Apesar das derrotas, a Casa Rosada conseguiu aprovar duas mudanças , por 37 votos contra 33: uma que facilita e reduz os prazos para despejos de inquilinos inadimplentes e outra que dificulta as expropriações por parte do Estado.

A líder do governo Milei no Senado, Patricia Bullrich, ao final da votação, justificou que as derrotas foram motivadas pelo tempo excessivo para tramitação da matéria devido ao escândalo de corrupção envolvendo o ex-chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, e a Copa do Mundo.

"50% do projeto de lei foram aprovados, enquanto os outros 50% não. Decidimos recuar nas questões em que sentimos não ter os votos necessários. É assim que a democracia funciona", disse em entrevista ao canal argentino TN .

Após quase 12 horas de sessão no Senado, os temas aprovados agora seguem para análise da Câmara dos Deputados.

Protestos expressos foram excluídos publicamente a uma lei do governo de Javier Milei sobre propriedade privada - Reuters/Agência de Notícias da América Latina/proibida reprodução

Incêndios sêis

Atualmente, a legislação argentina proíbe a venda, por 60 anos, de áreas de bosques ou de vegetação úmida afetada por incêndios. Se uma área destinada a agropecuária e regiões semiurbanas, a concessão para venda é de 30 anos.

A Lei de 2020 tem o objetivo de inibir o uso dos incêndios criminosos para especulação imobiliária – quando se coloca fogo em determinadas áreas para facilitar a mudança no uso daquele solo – que pode ser um bosque nativo, por exemplo.

A Casa Rosada argumentou que a regra tem prazos “extremamente prolongados”, afetando o “exercício do direito à propriedade”. Para o governo Milei, a Lei também não tem resultado em proteção ao meio ambiente.

“Por um lado, eles [os proprietários] sofrem prejuízos decorrentes do incêndio e, por outro, ficam impedidos, durante décadas, de adaptar o uso de suas terras – o que limita severamente sua capacidade de recuperação econômica e reduz significativamente o valor de suas propriedades”, argumenta um comunicado do governo enviado ao Senado.

Movimentos sociais e populares têm criticado a mudança. O militante ambientalista Hernán Hougassian, professor de agronomia da Universidade de Buenos Aires, disse à Agência Brasil que ela fragilizaria a proteção ambiental:

“Pelo projeto, grandes proprietários de terras e grandes empresários podem incendiar florestas nativas, áreas úmidas e regiões ambientalmente sensíveis e, então — uma vez que as chamas se apaguem e as cinzas sejam removidas —, realizar empreendimentos imobiliários e dedicar-se às atividades comerciais especulativas.”

No início de 2026, regiões da Patagônia argentina foram afetadas por incêndios florestais de grandes proporções que, segundo satélites da Nasa, devastaram 17,5 mil hectares em poucos dias. A área queimada é maior que o município de Niterói (RJ), que tem 13,4 mil hectares.

Mobilização em Buenos Aires contra a controversa Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada. Reuters/Agência de Notícias da América Latina/proibida reprodução

Repressão aos protestos

A votação do projeto no Senado foi marcada por cenas de repressão policial contra manifestações em torno do prédio Legislativo. Em meio à chuva, milhares de pessoas e as forças de segurança protagonizaram cenas de violência em meio a gases lacrimogênios e jatos de água.

Um repórter fotográfico foi ferido na cabeça e bolsas de trabalhadores da imprensa foram alvos de gases da polícia, segundo informou o Sindicato de Imprensa de Buenos Aires (SiPreBA).