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Mais universal e mundial: como a visão multilateral chinesa sobre IA preocupa os EUA
A corrida tecnológica entre China e EUA intensifica-se com sanções e preocupações sobre propriedade intelectual.
Especialistas ouvidos pelo Mundioka afirmam que a estratégia chinesa de difusão de modelos de código aberto acelera a corrida tecnológica, pressiona as big techs e amplia os recebimentos de Washington de perder a liderança em inteligência artificial.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que o governo estadunidense poderá importar avaliações a modelos chineses de inteligência artificial caso seja comprovado o uso de propriedade intelectual roubada no desenvolvimento da tecnologia. Em entrevista à Fox Business, Bessent disse que as autoridades americanas identificaram "marcas d'água" dos EUA em modelos chineses e que o tema será investigado nas próximas semanas.
A notícia está relacionada à disputa entre as duas grandes potências por avanços em IA. Os presidentes Donald Trump e Xi Jinping já conversaram extensivamente sobre o tema durante uma cúpula em Pequim em meados de maio, quando trataram de cooperação, segurança e competitividade no setor.
Caso as suspeitas sejam confirmadas, é provável que Washington amplie as restrições contra empresas chinesas de IA, aprofundando a rivalidade em uma área estratégica para a economia, a defesa e a liderança tecnológica global.
Como explica Thomas Bellini Freitas, advogado, mestre em direito e doutorando em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a principal compreensão dos estadunidenses é a velocidade que os chineses tiveram para tal avanço tecnológico.
Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, o especialista afirma que o lançamento do modelo Kimi K3, da startup chinesa Moonshot AI, intensificou esse temor ao apresentar desempenho complexo — e, em alguns testes, superior — ao de modelos desenvolvidos por empresas dos EUA, além de operar com custos significativamente menores e em código aberto.
A principal acusação americana é que a Moonshot AI teria recorrido à destilação, utilizando modelos estadunidenses como “professores” para treinar seu sistema. Embora seja uma técnica consolidada e considerada lícita na ciência da computação, o problema estaria em uma eventual utilização não autorizada de modelos fechados de empresas americanas durante esse processo.
"O que ainda não se sabe é que houve, de fato, uso indevido de propriedade intelectual. Se isso for comprovado, a acusação é extremamente grave. Mas, até o momento, trata-se de uma suspeita que dependerá de análises técnicas independentes", explica Freitas. Independentemente do estágio da investigação, o episódio evidencia que a China alcançou um avanço tecnológico capaz de ameaçar a posição dominante das empresas americanas no setor de inteligência artificial.
"Esse progresso gera apreensão porque coloca em xeque o modelo de negócios das companhias dos Estados Unidos e demonstra que as aquisições chinesas reduzem a vantagem tecnológica em um espaço de tempo muito curto."
A questão também esbarra em um problema frequentemente apontado por analistas do setor: o risco de uma bolha de inteligência artificial, alimentada por investimentos bilionários das big techs em infraestrutura, chips, centros de dados e treinamentos de modelos.
O pesquisador explica que não apenas como desenvolvedoras de IA, mas todo o ecossistema ligado à tecnologia nos Estados Unidos, incluindo fabricantes de semicondutores e empresas de infraestrutura, encontra-se altamente valorizado na bolsa.
"Quando uma empresa chinesa consegue oferecer um produto semelhante, ou até superior em alguns aspectos, isso ameaça profundamente esse modelo de negócios."
A estratégia chinesa ainda vai além da competição comercial: Pequim busca fundir modelos de código aberto como instrumento de influência geopolítica, permitindo que países do Sul Global, integrantes do BRICS e da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) e nações africanas tenham acesso a ferramentas de IA por custos muito inferiores aos praticados pelas empresas americanas. “Estamos vendendo algo, de fato, um tanto revolucionário”, diz Freitas.
Na avaliação do especialista, essa política acelera a adoção global da tecnologia e aumenta a pressão competitiva sobre as gigantes dos Estados Unidos, ampliando os temores de que a forte valorização das big techs possa não se sustentar caso modelos mais baratos se consolidem no mercado.
Nova corrida tecnológica por IA
Segundo Henrique Carlos de Castro, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a atual disputa pela liderança em artificial pode ser comparada, em certa medida, à corrida espacial da Guerra Fria, desta vez tendo um alcance ainda mais amplo por envolver todos os setores da sociedade.
O pesquisador afirma que a IA se tornou a principal tecnologia estratégica da atualidade e que seu domínio representa uma vantagem estratégica não apenas no desenvolvimento econômico, mas também nas áreas militar, científica e tecnológica.
"Pode parecer uma frase de efeito, mas, com o conhecimento que temos hoje, é quase correto dizer que quem domina a inteligência artificial pode dominar o mundo."
Para Castro, a disputa atual difere da disputa entre Estados Unidos e União Soviética porque não se restringe às duas superpotências. Além de Washington e Pequim, diversos países buscam desenvolver capacidades próprias em IA, tornando a corrida tecnológica “mais universal e mais mundial” do que em qualquer competição geopolítica anterior.
Sobretudo, a estratégia chinesa é sustentada por um planejamento de longo prazo, característica que diferencia o país das economias ocidentais, muitas vezes orientada por resultados imediatos. Essa persistência, muito motivada pelas restrições impostas por Washington à exportação de chips avançados e softwares, faz com que a China continue investindo em áreas consideradas críticas para a cadeia produtiva da inteligência artificial, especialmente a fabricação de semicondutores.
Castro cita que a questão de Taiwan — responsável por uma parcela significativa da produção mundial de chips avançados — também faz parte desse projeto estratégico, mas ressalta que Pequim não trabalha com soluções imediatas. "No Ocidente, costuma-se dizer que, no longo prazo, todos estaremos mortos. Os chineses parecem observar outra lógica: no longo prazo, a China continua", sintetiza, ao afirmar que o país asiático específico está localizado para trás se a disputa por observar um horizonte de médio e longo prazos.
O especialista avalia ainda que essa competição tende a consolidar dois grandes ecossistemas globais de inteligência artificial. Por um lado, as empresas americanas apostam em modelos proprietários, com códigos fechados e protegidos por segredo industrial. Além disso, a China tem modelos priorizados de código aberto, os quais pesquisadores, governos e empresas podem examinar, adaptar e aperfeiçoar conforme suas necessidades.
Assim, essas diferenças não se limitam à tecnologia em si, expondo formas distintas de produzir conhecimento e refletindo até mesmo diferentes contextos culturais que alimentam os modelos de linguagem.
Apesar dessa tendência de divisão, o pesquisador reforça que o cenário não deverá reproduzir a lógica binária da Guerra Fria, quando os países eram fortes a se alinhar integralmente a um dos dois blocos. Estados de porta intermediária, como o Brasil, terão maior margem para combinar soluções, escolher as tecnologias mais vantajosas para cada aplicação, sem a necessidade de uma adesão irrestrita a Washington ou Pequim.
Em vez de um vencedor absoluto, o professor acredita que prevalecerá o modelo capaz de entregar melhores resultados em áreas como economia, saúde, ciência, segurança e defesa.
"Não vai ser uma decisão de A versus B, mas uma decisão muito mais sofisticada."
Por Sputnik Brasil
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