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Resiliência 'notável', mas não invulnerável: como o Brasil resistiu ao tarifaço

Fatores internos e externos ajudam a economia brasileira a enfrentar desafios.

Sputnik Brasil 05/08/2026
Resiliência 'notável', mas não invulnerável: como o Brasil resistiu ao tarifaço
Economia brasileira resiste ao tarifaço dos Estados Unidos, mas fragilidades permanecem. - Foto: © Foto / Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Mercado interno, novos parceiros comerciais e medidas do governo reduziram os impactos do tarifaço, mas economistas ouvidos pela Sputnik Brasil alertam que os riscos podem migrar do comércio para as áreas financeiras e tecnológicas.

Em meio ao aumento das taxas comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou que a economia brasileira tem demonstrado "resiliência notável" diante dos impactos das tarifas impostas pela Casa Branca.

“As exportações do Brasil têm se mantidos resilientes, apesar das elevadas tarifas dos EUA, e o déficit em conta atual diminuída para 2,9% do PIB em 2025”, diz o texto da consulta anual do Artigo IV.

Além disso, o FMI revisou para cima (2,4%) a projeção de crescimento do produto interno bruto (PIB) do país, impulsionado pelos altos preços do petróleo e pela crescente participação de fontes renováveis ​​na matriz energética brasileira.

Resiliência da economia brasileira

Como explica Caio Vilella, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD), há três fatores que elucidam essa característica na relação comercial entre Brasil e EUA:

"Esses três fatores são um quadro geral que traz um pouco a explicação para essa resiliência que o FMI aponta."

Para Francisco Marzinotto, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), embora a diversificação de parceiros fortaleça a capacidade de ocorrência da economia brasileira, isso não elimina todas as vulnerabilidades.

Em vez disso, isso pode ter apenas mudado o eixo da economia brasileira para depender de outras áreas. Em seu discurso no Sputnik Brasil, ele também listou outros fatores que desenvolveram para a resistência do Brasil às tarifas norte-americanas:

Essa posição permitiu amortecer os efeitos da alta internacional dos preços de alimentos e combustíveis, garantindo o abastecimento do mercado doméstico. “A gente perde na quantidade, mas ganha no preço […] Isso foi principalmente importante não na dinâmica econômica, mas para conter a inflação.”

Marzinotto acrescenta que a elevada participação de fontes renováveis ​​e a condição de exportação líquida de petróleo exercem uma segunda camada de proteção para a economia brasileira, reduzindo a exposição a choques energéticos internacionais.

"O Brasil possui relativa autonomia energética, é exportação líquida de petróleo e tem elevada participação de fontes renováveis. O FMI inclusive afirmou que essa estrutura protege parcialmente o país do aumento do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio."

Lições do primeiro tarifaço

Vilella destaca que, durante a primeira tarifaço, em 2025, o governo federal, em conjunto com o BNDES, elaborou medidas para mitigar os impactos sobre os setores mais afetados pelas tarifas de Washington. O Plano Brasil Soberano, em linhas gerais, permitiu que empresas exportadoras tivessem acesso a linhas de crédito para atravessar o período mais agudo da crise, enquanto o Brasil buscava abrir novos mercados e redirecionar parte de suas exportações.

O economista ressalta, no entanto, que o programa teve um papel de contenção de danos, e não de contribuições o crescimento da economia. Em sua avaliação, a principal explicação para a resiliência apontada pelo FMI está na política fiscal adotada nos anos anteriores, que sustentou a demanda doméstica e permitiu ao país manter um ritmo relativamente estável de crescimento.

Embora essa estratégia tenha perdido força com o corte de gastos e a manutenção dos juros altos, foi ela que criou as condições para que a economia absorvesse melhor os choques externos.

Para o economista, a continuidade dessa abertura nas contas públicas pode reduzir o dinamismo do mercado interno — já apontado como o principal motor do PIB brasileiro — e limitar a capacidade de crescimento nos próximos anos.

Marzinotto faz uma avaliação semelhante quanto à importância da política econômica, mas destaca que a combinação entre as políticas fiscais e monetárias foi decisiva para reduzir os efeitos das tarifas. Enquanto os juros elevados ajudaram a estabilizar as expectativas e reduzir a volatilidade cambial, a manutenção dos gastos públicos com investimentos e programas de transferência de renda sustentou o consumo, o emprego e a atividade econômica.

"Sem esse ambiente, os impactos das tarifas poderiam ter sido mais significativos, com maior desaceleração do PIB, redução dos investimentos e aumento da instabilidade financeira."

Brasil ainda tem fragilidades

Mesmo com tantas capacidades, o Brasil ainda pode ser afetado pelas tarifas norte-americanas, especialmente se estes focarem em outros setores da economia, apontam os especialistas.

Para Vilella, a principal preocupação seria uma eventual escalada para o campo financeiro, já que a capacidade dos Estados Unidos de impulsionar a economia brasileira é maior por meio dos fluxos internacionais de capitais e do sistema financeiro do comércio exterior.

"Se os Estados Unidos começarem a exercer pressão financeira sobre o Brasil, como ameaçando desligar o Brasil do SWIFT, aí sim nós seríamos muito mais afetados."

Marzinotto amplia esse diagnóstico ao destacar que Washington também dispõe de instrumentos tecnológicos e digitais. “Além das tarifas, Washington dispõe de outras armas geoeconômicas, como restrições ao acesso a tecnologias estratégicas, como o GPS, além de capacidade de bloqueios ao acesso a serviços digitais e computação em nuvem.”

"Portanto, a capacidade de coerção econômica dos EUA sobre o Brasil não desapareceu, mas é menor do que seria em uma economia altamente dependente do mercado americano."


Por Sputnik Brasil