Geral
Programa Praça é Massa ajuda casal a superar situação de rua em Maceió
Após anos, Luana e Marcelo constroem nova realidade em espaços públicos da cidade com a iniciativa da Prefeitura
Até dois anos atrás, praças, canteiros e parques públicos não eram sinônimos de lazer e bem-estar para Luana e Marcelo. Esses lugares, por vezes, foram palcos de episódios de violência, fome, frio e isolamento social vividos pelo casal que enfrentou a sobrevivência em situação de rua. Hoje, os mesmos espaços têm ganhado um novo significado na fase atual de vida dos dois, com a ajuda do Programa Praça é Massa, da Prefeitura de Maceió.
“Pela primeira vez na vida eu vivo com dignidade. Dignidade para mim é receber meu salário fixo todo mês e sem atrasos. É ir ao supermercado e ter dinheiro para fazer a feira, para comprar o alimento. É conseguir pagar as contas do dia a dia. É fazer um curso e não ter que escolher entre estudar e colocar comida na mesa. O Praça é Massa nos dá essa oportunidade”. A fala de Luana Vieira da Silva, de 41 anos, é reflexo de um programa implantado em 2025 pela Prefeitura de Maceió, que já resgatou 330 pessoas em situação de vulnerabilidade social.
De segunda a sexta-feira, das sete da manhã à uma da tarde, Luana e Marcelo vivem essa nova realidade nos mesmos espaços que um dia já foram palcos de experiências traumáticas para os dois. Eles têm a missão de zelar pela conservação e funcionamento de equipamentos públicos, como praças, canteiros, terrenos e no Parque Municipal, onde o casal participa da capacitação há pelo menos três meses.
A iniciativa da Prefeitura de Maceió oferece cursos de zeladoria e jardinagem para pessoas desempregadas e de baixa renda, com prioridade para as que vivem em situação de rua ou são moradoras de abrigo público. Durante a formação, que acontece ao longo de 12 meses com aulas práticas em patrimônios do Município, os participantes ganham uma bolsa de um salário mínimo e vale-transporte. Os participantes resgatados da situação de rua também recebem aluguel social.
O peso da identidade “T”
“Eu nunca tive uma oportunidade fixa com mais estabilidade, um retorno financeiro certo. É difícil para quem carrega a letra T da bandeira da diversidade. Mas aqui com o Praça é Massa não houve diferença. Trans, preto, branco… Todos são vistos como merecedores de um lugar ao sol”. Luana é uma mulher trans, e seu depoimento reflete uma estatística desafiadora no Brasil, que a levou por nove anos de sobrevivência nas ruas.
Segundo o último Censo da População em Situação de Rua, 32 mil pessoas nessa condição no país se identificam como transgênero, travestis, agênero ou não-binário. Conforme a pesquisa, o dado é motivado principalmente pela discriminação, que acarreta portas fechadas no mercado de trabalho. A ausência de proteção social agrava o quadro e empurra essas milhares de pessoas para trabalhos informais, precários e até mesmo para a prostituição.
“Eu sempre fui digna de amor e assistência dentro de casa com minha família, mas não da sociedade. Ter uma oportunidade de emprego sempre foi muito difícil e cruel, mas eu tinha que encontrar um meio para sobreviver. Infelizmente, só encontrei espaço nas ruas, mas graças a Deus essa realidade mudou. Com o Praça é Massa eu estudo, consigo pagar um aluguel de moradia, vivo com meu marido, preparo nossas refeições e cuidamos de alguns passarinhos”, relata.
O adeus às estatísticas
Há três meses, a rotina de Luana e Marcelo se divide entre o projeto Praça é Massa, no Parque Municipal, as tarefas domésticas, o preparo do almoço da semana e o cuidado com dois passarinhos. Só que para Marcelo Rosa de Jesus, essa realidade nunca antes foi vivida. Ele viveu em situação de rua durante anos e contrariou uma estatística recorrente a essa população: a dependência química. “Não gosto de álcool e de nenhuma droga. Não é porque a gente mora na rua que necessariamente é viciado”, enfatiza Marcelo Rosa.
De acordo com o Observatório dos Direitos Humanos, o perfil de Marcelo é majoritário entre o público que vive em situação de rua: masculino (88%), pessoas negras (68%) e em idade adulta (57%). Para ele, os dados até podem explicar como chegou aqui, mas sua rotina com o Praça é Massa mostra um momento atual na vida de Marcelo que já não pertence mais às estatísticas.
“O Praça é Massa transformou a minha vida. Eu nunca pensei que fosse conseguir uma oportunidade digna, e olha eu aqui: tenho minha casa, meus passarinhos, Luana e meus amigos. A única tarefa chata que enfrento hoje é lavar os pratos sujos do almoço. Eu quero que outras pessoas tenham a mesma oportunidade que tive, porque a rua não é lugar de ninguém”, afirma o goiano Marcelo Rosa de Jesus.
Conheça mais um pouco a história no vídeo abaixo produzido por Giovanna Carvalho.
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