Geral
Rússia e América Latina discutem cooperação estratégica em fórum inédito em São Paulo
Encontro propõe estreitar laços comerciais e culturais entre Rússia e países da América Latina
Representantes de 11 seções nacionais do Centro de Integração e Cooperação Rússia-América Latina (CICRAL) se reúnem em São Paulo, entre 13 e 16 de julho, para o Fórum CORAL 2026, primeiro encontro de cooperação estratégica entre a Rússia e a região.
O evento, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, apresentou em sua inauguração nesta segunda-feira (13) dois documentos centrais: a Carta de Ação para o Futuro da Cooperação entre América Latina e Rússia e o Caderno Latino-Americano de Cooperação Estratégica com a Rússia, que analisa os laços políticos, econômicos e humanitários da Rússia com 12 países da região, divididos entre Cone Sul, América Andina, América Central e Caribe.
Luiza Calvette Costa, diretora-geral do CICRAL-Brasil, explicou que o fórum nasce de um estudo aprofundado conduzido nos últimos meses sobre o estado da arte das relações entre os países latino-americanos e a Rússia, com o objetivo de identificar potencialidades e fragilidades.
Segundo ela, o evento parte do lugar da América Latina nessa relação.
"A gente acredita que a relação com a Rússia é uma oportunidade de diversificação de parcerias, uma oportunidade de não dependência de relações específicas, mas sim onde a gente possa encontrar potencialidades com outros países", afirmou.
Para Luiza, o diferencial do encontro é pensar essa relação "desde a América Latina", a partir das necessidades da própria região, com foco na cooperação mútua e na produção de conhecimento própria da região, com bases científicas, de dados e propostas.
O período atual é fértil, acrescentou, para esse tipo de aproximação, por representar uma transição de uma ordem liberal e unipolar para um espaço de diversos polos de poder ainda em construção.
"A gente não sabe qual é o modelo que vai substituir o modelo atual. A gente precisa disputar qual é esse modelo", disse. Ela destacou que o CICRAL atua no âmbito da diplomacia pública, desenvolvida a partir da sociedade civil, com o objetivo de construir vínculos entre universidades, centros de pesquisa, instituições, setor produtivo, setor cultural e setor esportivo, para além da diplomacia tradicional.
Luiza disse ainda que o fórum se propõe a construir uma base de dados própria, com fontes sobre as relações bilaterais entre os países da região e a Rússia, para além das fontes de organismos internacionais — como Banco Mundial e Organização das Nações Unidas (ONU).
"A gente acha muito perigoso continuar se baseando em dados que não são nossos, são dados ocidentais e internacionalizados, que nem sempre afetam a nossa realidade", afirmou, acrescentando que muitos desses dados em plataformas internacionais estão desatualizados e carregam interpretações próprias. Segundo ela, o fórum leva três propostas centrais que resultarão em uma carta de ação a ser apresentada no último dia do evento, construída a partir de oficinas realizadas ao longo dos trabalhos para definir as ações prioritárias do próximo período.
O deputado estadual Mário Maurici (PT-SP) afirmou que o evento segue a mesma direção da criação do CICRAL, há dois anos: fortalecer as relações entre o Brasil, o continente latino-americano e a Rússia.
"É uma aproximação que existe, como já foi dito hoje, há 200 anos, mas que precisa se intensificar cada vez mais. Precisamos destruir alguns mitos que ainda perduram na cabeça de um ou outro povo, para aceitar cada vez mais as relações, principalmente no mundo multipolar como esse que a gente está vivendo hoje", declarou.
Questionado sobre o papel de São Paulo nesse cenário multipolar, Maurici disse que o estado "precisa assumir o seu papel" e "tem potencial para mais". Ele lembrou que São Paulo é a maior cidade da América do Sul, "do tamanho de Moscou, do tamanho de São Petersburgo", e afirmou que sua diversidade simboliza, "com bastante verdade", a diversidade da própria América Latina. Sobre o momento político atual, o deputado classificou o cenário como "difícil, imprevisível, e por isso mesmo fertilíssimo" para esse tipo de parceria.
Henrique Domingues, mestre em Comércio Internacional, avaliou o encontro como um momento importante na construção das relações multilaterais entre a América Latina e a Rússia.
Segundo ele, a região historicamente buscou construir relações com parceiros do Norte, sobretudo Estados Unidos e países europeus, e por vezes negligenciou parceiros potenciais em outras regiões do planeta. Ele observou que a ascensão chinesa levou a China a ampliar sua presença na América Latina, mas que a Rússia "ainda parece um território bastante longínquo" para a região.
Para Henrique, a iniciativa do fórum é importante para que a região consiga identificar e estudar perspectivas de relação comercial, econômica, cultural e acadêmica, entre outras, fortalecendo os laços entre o bloco latino-americano e a Rússia. O mundo, ponderou ele, está em transição inevitável de uma ordem unipolar, "onde o Ocidente ditava todas as regras", para uma realidade "mais multipolar, mais democrática e mais diversa".
Segundo ele, essa transição gera atrito nas forças políticas que historicamente comandam a governança global desde o fim da Guerra Fria e defendeu que a América Latina se desprenda da propaganda negativa envolvendo países não ocidentais para construir novas pontes de cooperação. Henrique também defendeu que os governos da região, com destaque para o Brasil, "com toda a pujança que tem", se esforcem para consolidar essa nova governança global multipolar.
Sergey Vadimovich Orlov, representante da Fundação Gorchakov de Apoio à Diplomacia Pública, destacou que o evento é a primeira experiência da fundação em conceder subvenção a parceiros brasileiros, descritos por ele como "muito jovens, muito ativos", com atuação que nasceu durante o Festival Mundial da Juventude de 2024.
Segundo Orlov, a fundação precisa apoiar esses jovens e viabilizar a realização de eventos ao longo de 2026 no âmbito da diplomacia pública, de forma que as relações bilaterais e multilaterais da Rússia com a América Latina cresçam.
"É muito importante agora porque a América Latina desempenha um papel muito chave na nossa nova ordem mundial global, e vemos como a juventude quer organizar e difundir nossas relações em todos os âmbitos com a Rússia", afirmou.
O fórum, afirmou, é "o primeiro passo" nessa direção, mencionando resultados de eventos anteriores organizados pela Rússia. Segundo ele, o encontro deve discutir temas centrais das relações entre os países, como economia, política e segurança, e a expectativa é de que outros eventos conjuntos sejam realizados progressivamente, aprofundando os laços entre as partes.
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