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Morte em rope jump: sumiço de câmera, criança ferida e indiciados
O que se sabe e o que falta saber sobre o caso da jovem Maria Eduarda.
Dois inquéritos sobre o salto de rope jump sem cordas que matou a jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, em Limeira (SP), foram concluídos pela Polícia Civil nas últimas semanas. Até o momento, quatro pessoas foram indiciadas pela morte da jovem. Seis investigados também continuam presos por suspeita de participação nos fatos, embora dois aguardem análise da Justiça para serem soltos.
Após a conclusão, a Polícia Civil encaminhou os relatórios das investigações ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que poderá ou não denunciar os indiciados pelos crimes de homicídio e fraude processual. O Estadão entrou em contato com o MP-SP sobre o oferecimento das denúncias e aguarda retorno.
O salto que matou a jovem aconteceu em 13 de junho, na Ponte do Esqueleto. A corda que deveria estar presa ao corpo de Maria Eduarda foi esquecida no chão pela equipe organizadora. Vídeos publicados em redes sociais mostram que, assim que a jovem foi arremessada de uma altura de 40 metros, pessoas que aguardavam o salto perceberam a falta do equipamento e se desesperaram. Ela morreu no local.
Sumiço de câmera
Apesar da conclusão dos inquéritos, a polícia ainda não descobriu o paradeiro da câmera que estava acoplada à vítima e também não identificou quem foi o responsável por retirar o equipamento. A câmera modelo Go Pro pode ter registrado o salto que matou a jovem e ajudar a entender a dinâmica dos fatos.
João Antonio Pivetta Ribeiro da Silva, de 35 anos, foi preso pela suspeita de ter sumido com a câmera, mas o inquérito informou que não foram encontrados indícios suficientes de autoria. Em uma carta, o homem já havia negado a acusação. Ele aguarda análise do MP e da Justiça para ser solto, visto que a Polícia Civil pediu a revogação da prisão temporária.
Uma testemunha ouvida na investigação afirmou à polícia que a organizadora do evento de rope jump, Evelyne dos Santos Gonçalves, de 43 anos, determinou que o vídeo gravado pela câmera fixada na vítima fosse apagado. Conforme a testemunha, que prestava serviços para a organizadora no dia da morte da jovem, imediatamente após a queda, Evelyne demonstrou preocupação em recuperar a câmera.
"Segundo ele, houve menção expressa de que seria necessário apagar o vídeo registrado, o que foi por ele recusado naquele momento em razão da prioridade no atendimento à vítima", diz trecho do depoimento que consta no relatório final do inquérito. O relato sobre a câmera foi feito no terceiro depoimento do integrante da equipe - que funcionava como uma empresa, mas não era formalizada.
Em relação a Evelyne, indiciada pela morte da jovem e por fraude processual, o relatório da polícia apontou que "houve manifesta preocupação da investigada com a recuperação da câmera utilizada pela vítima durante o salto, equipamento potencialmente apto a registrar a integralidade da dinâmica dos fatos". A defesa dela diz que discorda do indiciamento.
De acordo com a investigação, ao menos três testemunhas relataram que um homem retirou a câmera que estava acoplada ao corpo da vítima. Porém, nenhuma conseguiu reconhecê-lo. Duas testemunhas disseram que se tratava de um homem de cabelo escuro e que usava uniforme da equipe responsável pela atividade.
Presos, indiciados e investigados
Seis investigados permaneciam presos até a publicação desta reportagem. Dois deles tiveram o pedido de revogação das prisões temporárias pela Polícia Civil, mas aguardam manifestação do MP-SP e decisão da Justiça. Portanto, ainda estão detidos:
Evelyne dos Santos Gonçalves, de 43 anos, organizadora do evento e "chefe da empresa Entre Cordas";
Luis Felipe Feliciano Egoroff, de 32 anos, instrutor de salto;
Maicon Fernandes Cintra, de 42 anos, instrutor de salto;
Vitor de Freitas Gonçalves, de 27 anos, instrutor de salto;
João Antonio Pivetta Ribeiro da Silva, de 35 anos, membro da equipe (teve pedido de revogação da prisão);
Gabriel Barros Martins, de 30 anos, membro da equipe (teve pedido de revogação da prisão).
Quanto aos pedidos de revogação de prisão, no caso de João Antonio, a investigação não encontrou elementos suficientes que pudessem apontá-lo como responsável pelo desaparecimento da câmera do corpo da jovem; já em relação a Gabriel, a polícia indicou que ele era um integrante eventual da equipe e que, no momento do salto, não tinha como visualizar a eventual ausência de cordas.
No primeiro inquérito, concluído em 22 de junho, a polícia indiciou por homicídio com dolo eventual - quando não há intenção, mas se assume o risco de matar - os três instrutores que aparecem no vídeo lançando Maria Eduarda sem cordas. Luis Felipe, Maicon e Vitor estão presos preventivamente em Guarulhos (SP). O Estadão tenta localizar as defesas.
O segundo inquérito do caso, concluído em 30 de junho, indiciou Evelyne por homicídio qualificado por motivo torpe e fraude processual. A polícia também pediu à Justiça a conversão da prisão temporária de Evelyne em preventiva, ou seja, por tempo indeterminado. O inquérito também deixou de indiciar, por falta de provas, outros dois homens investigados pelo suposto envolvimento no salto que matou a jovem.
Não foi erro isolado, mas aceitação do risco
No relatório final do segundo inquérito, a delegada Andréa Dantas Levy afirmou que ficou amplamente demonstrado por laudos periciais, depoimentos, registros em vídeo e outros elementos que Maria Eduarda "foi submetida à atividade conhecida como aviãozinho, sem que estivesse devidamente conectada ao sistema de segurança destinado à proteção contra quedas, circunstância que culminou diretamente em seu óbito".
"Os elementos colhidos não indicam mero erro isolado de execução ou simples excesso de confiança na não ocorrência do resultado, mas a manutenção consciente de atividade de elevado risco em contexto caracterizado por sucessivas falhas estruturais, deficiência dos mecanismos de controle e insuficiência das cautelas exigidas para a segurança dos participantes, circunstâncias que, em tese, revelam aceitação do risco juridicamente desaprovado criado pela própria organização do evento", afirmou a delegada.
De acordo com o relatório, não havia protocolos formais de conferência e de definição de atribuições entre os integrantes de equipe, que eram pagos por evento. No dia do salto que matou a jovem, entre 90 e 100 pessoas estavam inscritas para saltar. Em depoimento, Evelyne indicou que o salto da jovem estava entre o 15º e o 17º, sem saber precisar por não haver controle.
Acidente com criança
Um menino de 9 anos sofreu ferimentos leves ao saltar de rope jump com a mesma equipe envolvida no salto que resultou na morte da jovem Maria Eduarda. Segundo informações da Polícia Civil, a criança é filha de um homem que prestava serviços à "Entre Cordas".
No salto, realizado em março deste ano, três meses antes da morte da jovem, o menino teve a corda de sustentação retirada antes da conclusão do salto. Isso fez com que a criança, que ainda fazia o pêndulo, batesse contra o chão, resultando em escoriações de natureza leve.
O relato do ocorrido foi feito pelo pai do menino, que teve a identidade preservada por ser testemunha no processo que apura a morte de Maria Eduarda. Ele contou que prestava serviços eventuais à equipe da empresa, trabalhando como segurança nos finais de semana.
Sua função era ajudar no suporte à equipe e, na condição de prestador de serviços informais, chegou a participar de quatro eventos realizados na Ponte do Esqueleto. Entre as suas atribuições estavam fazer o lançamento de corda auxiliar após o salto, recolher equipamentos, transportar câmeras de filmagem e organizar a chegada dos participantes à área de saltos.
O convite para que o menino fizesse o salto ocorreu depois de dois anos de convivência com a equipe. O salto com a criança foi feito em dia comum, fora de um evento organizado, mas ele não informou a data exata.
Segundo o pai, o menino ainda estava em movimento pendular quando a corda foi solta. Com isso, seu corpo raspou no solo, causando escoriações, principalmente no joelho. O menino relatou ter batido levemente a cabeça, mas sem provocar contusão. Como o ferimento no joelho era leve, constando apenas de arranhões, o genitor não considerou necessário levar o filho a uma unidade médica e ele mesmo tratou as escoriações.
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