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Acordo Israel-Líbano é avaliado como 'já nasceu falido'
Estudiosos criticam negociações mediadas pelos EUA
O acordo alcançado após as negociações diretas entre Líbano e Israel em Washington pode parecer um marco histórico para leigos no assunto, mas, para os estudiosos do histórico conflito entre israelenses e libaneses ouvidos pela Sputnik Brasil, trata-se de mais um ato performático e sem efeito prático.
Assinado em 26 de junho, o acordo que deveria servir como base para consolidar um cessar-fogo dificilmente sairá do papel, conforme explicitou o professor de história contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Murilo Meihy.
"Esse acordo não foi pensado para resolver um problema regional. Foi pensado para resolver o problema individual de cada um dos integrantes desse acordo. Por isso, ele nasce praticamente falido", opinou.
Meihy, autor do livro "Os Libaneses", também citou a baixa popularidade enfrentada pelos líderes dos EUA e de Israel em seus países.
"A gente sabe, especialmente com a guerra com o Irã, [o presidente dos EUA, Donald] Trump vem enfrentando uma queda de popularidade gigantesca, sobretudo por conta da inflação, que vem aumentando pelo custo do combustível. E no caso de Israel, [premiê Benjamin] Netanyahu, desde a crise em Gaza, vem sofrendo uma queda de popularidade muito grande dentro de Israel".
Os 14 pontos do acordo, segundo ele, atendem às expectativas dos eleitorados estadunidenses e israelense sobre os rumos da guerra, cuja resolução é inviável no contexto de décadas de ataques e acordos fracassados.
Um dos pontos, que proíbe ambos os Estados de processarem-se mutuamente por quebra do direito internacional ou crimes de guerra, evidencia a probabilidade de novas agressões.
"Não há garantias de que Israel não volte a cometer os excessos que comete há tantos e tantos anos, em tantas décadas".
A plausibilidade de vários pontos do acordo foi igualmente destacada pelo economista libanês e professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Najad Khouri, que iniciou sua análise pela condição de desarmamento do grupo Hezbollah, que já negou essa possibilidade:
"É uma situação muito complexa para a gente entender ou para que o Líbano consiga ir para frente com esse acordo. Enquanto não houver confiança um no outro, não há acordo que vá perdurar [...] pode acalmar agora, mas daqui a seis, sete meses, daqui a um ano, começa tudo de novo".
Khouri concluiu que, enquanto o Estado libanês não estiver em condições militares e políticas de confrontar Hezbollah e Israel, o Líbano ficará nesse "limbo entre essas duas potências que estão em disputa".
Segundo Meihy, a paz não é o objetivo de Israel ao elaborar essa proposta ou qualquer outra.
"Estamos falando de um país com abundância de água potável, que é raríssimo naquela região. Não por acaso, parte das discussões gira em torno de se Israel ficará antes ou depois do rio Litani, porque Israel tem problemas de abastecimento de água. São várias as declarações de ministros do atual governo israelense que falam que o Líbano será de Israel, que o Líbano é um território almejado pela colonização israelense".
A questão hídrica e as ambições territoriais israelenses também foram mencionadas pelo economista libanês, que destacou que 6% do território libanês foi ocupado por Israel, cerca de 10 quilômetros a partir da fronteira, além da destruição de vilarejos.
Ao listar os sérios problemas enfrentados pelo Estado libanês há anos, como a falta de energia elétrica, o fornecimento de água e as condições precárias na infantaria, Meihy descreveu o acordo como assimétrico:
"O Líbano está cedendo demais nesse acordo, porque isso afeta sua própria soberania. À medida que ele não pode convocar a comunidade internacional para garantir, por exemplo, sua soberania territorial, esse acordo se torna completamente assimétrico e acordos assimétricos não se concretizam", avaliou Meihy.
Hezbollah
Criado na década de 1980, o grupo é patrocinado principalmente pelo Irã e possui influência crescente, tanto militar quanto política, no Líbano, conforme comentaram ambos os entrevistados.
Cofundador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Oriente Médio (GEPOM), Khouri ressaltou que a guerra civil de 1975 a 1990 destruiu praticamente toda a estrutura do Líbano, fazendo com que o Hezbollah assumisse papéis que o Estado não conseguiu cumprir em algumas áreas.
Apesar de atuar à margem do governo atual do Líbano, suas ações foram responsáveis por várias derrotas militares que Israel sofreu em solo libanês desde os anos 1980, ponderou Meihy.
"Isso garantiu a soberania do Estado libanês, mas sobretudo da região sul do país. Historicamente, o Hezbollah tem uma importância estratégica fundamental. O grande problema é que, em determinados momentos da sua trajetória, o Hezbollah começa a concorrer com o Estado libanês, ao passar a oferecer um conjunto de serviços que o Estado não consegue prover".
De hospitais a creches, o grupo acabou por governar algumas áreas de maioria xiita, prejudicando a autonomia do Estado libanês e dividindo a opinião pública.
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