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Master, Will Bank e Digimais: escândalos questionam credibilidade do sistema financeiro
Fraudes em série abalam a confiança nas instituições financeiras brasileiras.
Em menos de um ano, três grandes escândalos envolvendo instituições financeiras colocaram sob pressão a adição do sistema financeiro brasileiro. Entre eles, o Banco Master apontou como a maior fraude bancária da história do país, com um rombo estimado em R$ 40 bilhões e desdobramentos que resultaram na liquidação de outras instituições.
A transformação do então Máxima Corretora de Títulos e Valores Mobiliários no Banco Máximo, em meados da década de 1990, buscada em uma trajetória repleta de altos e baixos. Após quase falir em 2016, Daniel Vorcaro assumiu a instituição, promovendo mudanças operacionais e renomeando o banco para Banco Master. Com um investimento de R$ 400 milhões, novos serviços, como crédito consignado e seguros, foram acrescentados à oferta.
A expansão culminou em fevereiro de 2024, quando o Master adquiriu a participação majoritária do Will Bank, aumentando sua carteira de clientes para mais de 10,5 milhões. Os ativos do conglomerado saltaram de R$ 3,7 bilhões para impressionantes R$ 82 bilhões em apenas cinco anos, um crescimento superior a 2.100%. Este resultado foi impulsionado por uma política agressiva de captação, que oferecia remunerações de até 140% do Certificado de Depósito Bancário (CDI), enquanto a média do mercado girava em torno de 98,6%. Contudo, uma inspeção do Banco Central revelou que a entidade possuía apenas R$ 4 milhões na caixa.
À medida que as dificuldades de liquidez se tornavam públicas, o Banco de Brasília (BRB) estava prestes a finalizar a compra da Master. No entanto, essa operação foi barrada pelo Banco Central, resultando na maior crise enfrentada pelo banco público do Distrito Federal, com perdas potenciais de até R$ 8,8 bilhões em títulos adquiridos da Master. Nesse contexto, uma investigação da Polícia Federal revelou esquemas de corrupção liderados por Vorcaro, que se estenderam por meio da classe política.
Em novembro de 2025, a Justiça decretou a falência do Banco Master, executada pela liquidação extrajudicial no mês seguinte. O impacto sobre o Will Bank foi profundo, com sua liquidação decretada em janeiro deste ano. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por ressarcir investidores com aplicações de até R$ 250 mil em instituições financeiras em colapso, foi acionado, desembolsando quase R$ 40 bilhões para indenizar mais de 915 mil credores.
Diante do colapso das duas instituições, a atenção se voltou para o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. Recentemente, a Polícia Federal iniciou uma investigação a uma instituição por suspeita de gestão fraudulenta e um bloqueio judicial de R$ 670 milhões foi determinado.
O economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, alerta que o setor financeiro brasileiro, em expansão, conta com quase duas mil instituições, muitas delas fintechs. “Esse crescimento leva a uma desconcentração do mercado bancário. No entanto, os episódios envolvendo o Master, Will Bank e Digimais criam desconfiança em relação à solidez das instituições”, analisa.
Na visão do especialista, a compensação das instituições em geral foi questionada, assim como a capacidade de fiscalização do Banco Central. "Há um certo ruído em relação a essa capacidade. O risco sistêmico é um problema delicado e tratado com cautela pelas autoridades. É surpreendente como novas instituições conseguem captar tanto investimento com um patrimônio tão modesto", acrescenta.
O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), André Nassif, compartilha a mesma análise. Ele observa que a lentidão do órgão regulador em agir diante das ofertas agressivas dessas instituições é alarmante.
"O Master estava oferecendo até 140% do CDI, enquanto títulos convencionalmente pagos entre 90% e 98%. É surpreendente que isso não tenha despertado atenção", afirma.
Menos servidores, mais fiscalização
O economista aponta que o Banco Central levou a cabo uma diminuição do número de servidores, o que compromete a fiscalização e o fortalecimento do aparelho regulador. Em duas décadas, a autarquia perdeu cerca de 35% de sua eficácia devido à falta de concursos e restrições orçamentárias, enquanto os ativos do sistema financeiro triplicaram nesse período. A complexidade tecnológica crescente das entidades só agrava o desafio.
"É preciso compreender a engenharia dos sistemas de informação. O Banco Central deve contar com uma equipe mais planejada, incluindo projetos de sistemas", afirma.
O questionamento sobre como instituições como Master e Digimais crescem rapidamente gerando reflexões sobre falhas regulatórias e a dinâmica do setor. Segundo Nassif, períodos de estabilidade econômica tendem a contribuir para a expansão do crédito, elevando os ativos acima de seus fundamentos e, quando a confiança é rompida, a reversão é brusca, levando a crises sérias.
"O sistema financeiro tem tendência a atuar de forma alavancada. Em momentos de estabilidade, todos acreditamos que os preços continuam a subir, formam bolhas, e quando isso muda, ocorre um colapso", explica.
Ele cita a crise das hipotecas subprime nos EUA, em 2008, como exemplo de como títulos considerados seguros podem perder liquidez e gerar crises globais. Para Nassif, esses episódios ressaltam a necessidade de uma supervisão rigorosa.
A trajetória recente mostra que, apesar dos desafios, o Brasil possui uma tradição regulatória sólida. No entanto, a evolução das fintechs e a exclusão excluem a atualização dos mecanismos de fiscalização. “Os órgãos reguladores precisam de modernizar a supervisão para evitar que casos semelhantes voltem a ocorrer”, conclui.
O economista alerta ainda que os problemas não devem generalizar a desconfiança sobre todas as instituições financeiras, especialmente as fintechs. Ele reconhece que o avanço dessas empresas trouxe benefícios ao promover a concorrência e forçar bancos tradicionais a adotar soluções tecnológicas para inclusão financeira.
“As fintechs ampliaram a concessão de crédito ao público antes de excluídos do sistema financeiro. Esse movimento é irreversível, pois atende a uma parcela significativa da população brasileira que não tinha acesso”, conclui.
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