Geral
Onda Azul aproxima América do Sul dos EUA, mas 'na hora H quem manda é a China'
Alinhamento político não se traduz em ganhos concretos, diz professora.
Alinhamento político não se traduz em ganhos concretos, diz professora. Entrevistada pela Sputnik Brasil, Flávia Loss, doutora em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Instituto Mauá de Tecnologia, afirma que tal alinhamento não se traduz em ganhos concretos e alerta que a fragilidade de projetos regionais liderados pela direita pode aumentar a dependência da América do Sul em relação aos Estados Unidos.
Com o objetivo de tomarem para si os rumos da segurança regional, 12 países da América do Sul vão unir forças com a Interpol no combate ao crime organizado. O projeto, porém, enfrenta novas incertezas diante da chegada de novos governos alinhados a Washington na região.
Após as vitórias de candidatos de direita na Colômbia e no Peru — Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori, respectivamente —, a América do Sul caminha para uma nova "Onda Azul", marcada pelo avanço de governos conservadores. O movimento acaba por isolar Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname como os únicos países da região sob governos ditos progressistas.
Loss explica que a divergência ocorre devido à forma como setores da direita e da extrema-direita enxergam a segurança pública. Esses grupos tendem a defender a "internacionalização" dos problemas de segurança, afirmando que os governos locais não têm capacidade suficiente para enfrentar o crime organizado. Essa visão aproveita o medo da população diante da criminalidade para reforçar a percepção de fragilidade do Estado e justificar a busca por apoio de potências externas, como os Estados Unidos.
Para a professora, essa narrativa enfraquece a soberania nacional ao questionar a capacidade dos próprios governos de atender às demandas internas. "A soberania é a capacidade do nosso Estado de fazer frente aos problemas, como combater a criminalidade", afirmou.
O discurso também coloca os países sul-americanos em uma posição de dependência e vulnerabilidade diante de interesses estrangeiros, "colocando os países da região numa situação de debilidade que precisa de uma intervenção externa". E, embora os Estados Unidos apresentem essas ações como cooperação, sua atuação pode estar ligada à defesa de interesses próprios, incluindo o acesso a recursos estratégicos.
Como exemplo, a internacionalista cita o Plano Colômbia, iniciado na década de 1990, com a participação dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico. Segundo Loss, apesar de ser apresentado como uma iniciativa de apoio, o programa não alcançou plenamente seus objetivos de reduzir o tráfico de drogas e solucionar os problemas de segurança.
Além dos resultados questionáveis na área de segurança, a professora destaca que o programa teve impactos negativos relacionados a direitos humanos e ao meio ambiente, como violações contra comunidades camponesas e danos provocados por operações de erradicação de cultivos ilícitos. Por isso, o caso evidencia os riscos de transferir a condução de questões estratégicas a atores externos, especialmente quando envolvem a soberania dos Estados sul-americanos.
Outra especialista ouvida pela agência, Maria Elena Rodríguez, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ressalta que o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2023 foi inicialmente interpretado como uma chance de retomar a integração regional, especialmente após o distanciamento entre os países sul-americanos durante o governo de Jair Bolsonaro.
Segundo Rodríguez, a chamada "segunda onda rosa" na América Latina criou um ambiente considerado favorável para a reconstrução do diálogo e da cooperação entre governos progressistas. No entanto, esse cenário muda consideravelmente diante do avanço de forças políticas de direita na região e do aumento da polarização.
"O otimismo se choca com uma realidade de profunda polarização e de um pêndulo político que tem oscilado com força em direção à direita."
A especialista avalia que essa mudança no cenário político afeta diretamente projetos de integração. "Não é tanto um 'plano' de integração que se vê interrompido, mas sim uma aspiração que enfrenta um ambiente muito mais hostil do que o previsto", afirmou Rodríguez. Nesse contexto, a integração regional defendida pelo Brasil enfrenta obstáculos, mas não se torna necessariamente inviável, podendo avançar por meio de parcerias consolidadas, como o Mercosul.
Dessa forma, uma integração "à la carte", baseada em acordos bilaterais ou sub-regionais, especialmente em áreas menos afetadas por divergências ideológicas, pode ganhar espaço. Iniciativas de integração física, como projetos voltados à conexão entre Brasil, Bolívia e Paraguai — a Rota do Coração da América do Sul, que busca conectar os três países — são exemplos disso.
Maior integração para governos de direita?
Loss ressaltou que, historicamente, mesmo durante governos de direita, os países sul-americanos mantiveram preocupação com a preservação da soberania e a redução da interferência estrangeira, em parte devido ao histórico de intervenções dos Estados Unidos na região.
Neste sentido, a cooperação internacional sempre foi vista como necessária, mas devia ocorrer sem comprometer a autonomia dos Estados. Iniciativas de colaboração, como o compartilhamento de informações de inteligência para combater organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), podem ser positivas, incluindo participação de organismos internacionais e outros países.
No entanto, a professora avalia que há uma diferença entre cooperação e alinhamento automático a uma potência estrangeira. Parte do discurso atual distorce esse conceito ao apresentar a aproximação com os Estados Unidos como uma adesão política aos interesses de Washington, não como uma parceria institucional entre países.
Dessa maneira, esse movimento pode gerar consequências de longo prazo para as relações internacionais da região, já que aproximações baseadas em afinidade ideológica tendem a ser influenciadas por mudanças de governo.
"As relações entre os países no mundo da política externa não perpassam ideologias. A relação deve ocorrer de forma tranquila, independentemente do governo de ocasião."
Além disso, a especialista afirma que esse tipo de aproximação tende a beneficiar mais os governos do que as populações locais, alicerçando alianças políticas sem necessariamente gerar resultados tangíveis. Ela cita, por exemplo, a relação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Donald Trump, argumentando que, apesar do alinhamento entre os dois governos, os ganhos práticos para o Brasil foram limitados.
"Essa onda azul tem um potencial para aumentar a dependência da América do Sul em relação aos Estados Unidos, inclusive em questões de segurança, alinhando os países aos interesses estadunidenses nessa troca", alertou. O risco, segundo ela, é que a cooperação internacional seja substituída por uma relação de dependência, reduzindo a capacidade dos países da região de conduzirem suas próprias estratégias de segurança.
Rodríguez também cita o programa Escudo das Américas, promovido pelos Estados Unidos, como exemplo de uma iniciativa de segurança regional baseada em articulação mais próxima entre governos alinhados politicamente com Washington.
Apesar de se apresentar como estratégia de combate ao crime organizado e ao narcotráfico, a professora enfatiza que o plano prioriza respostas baseadas na força, em detrimento do fortalecimento de mecanismos próprios de cooperação sul-americana. Além disso, aconselha que os projetos tornam-se mais dependentes de conjunturas políticas específicas, ao invés de políticas de Estado de longo prazo.
"A verdadeira resiliência diante das redes criminosas modernas não está na afinidade com os Estados Unidos, mas sim no fortalecimento das instituições locais de Justiça, na independência do Poder Judiciário e na transparência das leis", concluiu. Segundo Rodríguez, quando a segurança regional é construída a partir de afinidades ideológicas, corre-se o risco de que os projetos se tornem inviáveis com mudanças no cenário político.
Sobre a integração regional impulsionada por governos de direita alinhados a Washington, Loss pontua que experiências passadas mostram suas limitações. Ela menciona o ProSul, criado durante o governo Bolsonaro como tentativa de articular governos conservadores da América do Sul, mas que perdeu força e deixou de avançar.
Segundo Loss, setores da extrema-direita enfrentam desafios em defender projetos de integração regional, preferindo uma visão mais nacionalista e de proteção interna. "Essa corrente política, enquanto ideologia, tem dificuldade de lidar ou não acredita na cooperação internacional e no regionalismo", afirmou.
Para Loss, essas iniciativas tendem a estar mais associadas a governos específicos do que a políticas de Estado, o que limita sua continuidade ao longo do tempo.
"Não são iniciativas sérias de Estado, são iniciativas de governo, cuja duração está atrelada aos governos em exercício. Quando eles saem, essas iniciativas não perduram. Isso é contrário ao que se observa no Mercosul."
Maior influência política dos EUA na América do Sul
Na disputa por influência entre Estados Unidos e China na América do Sul, Loss acredita que Washington sai fortalecido com o avanço de governos de direita na região, o que pode afastar a presença chinesa e de outras potências. Contudo, ressalta que essa aproximação política ainda não se traduz em uma expansão significativa das relações comerciais com os países sul-americanos.
"Esse quadro confere mais poder aos Estados Unidos, pois tenta afastar a China e outras potências. Contudo, Washington tem dificuldades em aumentar o comércio conosco", afirmou. Rodríguez complementa que a presença chinesa também se revela na provisão de infraestrutura física, como portos, energia, telecomunicações e projetos logísticos.
No Brasil, por exemplo, o país asiático permanece como o principal parceiro comercial: a corrente de comércio entre os dois países alcançou cerca de US$ 171 bilhões (cerca de R$ 886 bilhões) em 2025, em comparação com cerca de US$ 83 bilhões (aproximadamente R$ 430 bilhões) nas relações comerciais com os Estados Unidos no mesmo período. Além disso, empresas chinesas ampliaram sua atuação em áreas como transmissão de energia, como a State Grid, e investimentos em terminais portuários e equipamentos de telecomunicações, fornecidos pela Huawei.
A diferença também é perceptível em outros países da região. No Peru, a China é o principal parceiro comercial, com uma corrente de comércio próxima a US$ 40 bilhões (cerca de R$ 220 bilhões), enquanto a relação comercial com os Estados Unidos gira em torno de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 110 bilhões). Nos investimentos, destaca-se a inauguração e a consolidação operacional do Megaporto de Chancay, controlado em 60% pela estatal chinesa Cosco Shipping Ports.
Na Colômbia, embora os Estados Unidos ainda detenham uma posição de destaque histórica, a China ampliou sua presença, com o comércio bilateral se aproximando de US$ 18 bilhões (cerca de R$ 99 bilhões), enquanto a corrente comercial com Washington se aproxima dos US$ 30 bilhões (aproximadamente R$ 165 bilhões). Além de no comércio, a China aumentou sua participação em projetos de infraestrutura colombianos, como a construção da primeira linha do metrô de Bogotá, liderada por um consórcio composto por empresas chinesas, incluindo a China Harbour Engineering Company e a Xi’an Metro Company.
A influência dos EUA continua mais concentrada no campo político e discursivo do que em resultados concretos para os setores produtivos sul-americanos. "Esse apoio e influência ainda estão mais no discurso, do que em ações realmente impactantes na economia de nosso setor produtivo", disse Loss.
Para ela, apesar do discurso ideológico de aproximação com Washington adotado por alguns governos de direita e extrema-direita, o pragmatismo econômico tende a prevalecer nas relações comerciais. Ela menciona, novamente, o governo Jair Bolsonaro, quando setores do empresariado brasileiro pressionaram o então presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, a reduzirem as críticas à China durante a pandemia. "Eles tiveram que se calar, parar de falar mal da China, pois ela é nosso principal parceiro econômico", argumentou.
A análise também é compartilhada por Rodríguez, que destaca que as limitações econômicas da região dificultam um alinhamento ideológico absoluto com qualquer potência. "As realidades econômicas e fiscais da região impõem um limite ao alinhamento ideológico absoluto", enfatizou, já que os países precisam manter relações comerciais que garantam estabilidade econômica e entrada de divisas.
Rodríguez aponta que a influência chinesa atua como um contrapeso à presença norte-americana na América do Sul. Pequim tem ampliado sua atuação por meio de acordos comerciais, investimentos em infraestrutura e financiamento, enquanto os países da região passaram a adotar uma estratégia de diversificação de parceiros, buscando benefícios tanto da relação com os EUA quanto com a China.
"Na 'hora H', quem manda, quem é o grande parceiro comercial aqui da região é a China, e você precisa ter um excelente contato com eles."
Mais lidas
-
1ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
2LOTERIAS
Horário da Quina de São João: veja como acompanhar o resultado
-
3INFRAESTRUTURA
Governo inaugura duplicação da AL-110 entre Arapiraca e São Sebastião
-
4FENÔMENO NATURAL
Céu 'pega fogo' em Caracas: fenômeno raro pinta a Venezuela de vermelho
-
5EVENTO
Arapiraca sediará evento internacional que reúne pesquisadores do Brasil e do exterior