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Falso alerta extremo com mensagem de ‘misantropia’: o que se sabe e o que falta esclarecer
Sistema nacional foi retirado do ar após disparos indevidos em oito capitais; Polícia Federal investiga possível invasão
Um alerta sonoro da Defesa Civil, classificado como “extremo”, foi enviado a celulares de moradores de oito capitais brasileiras entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado (20).
O nível “extremo” é o mais alto da plataforma e indica urgência imediata, sendo destinado a situações de risco grave à vida e à propriedade. Nesses casos, o celular emite um sinal sonoro mesmo quando está em modo silencioso.
As mensagens, porém, não tinham relação com nenhuma situação real de risco. Os textos traziam a palavra “misantropia” — ou variações dela — e, em alguns locais, mencionavam até um suposto “ataque alienígena”.
Em entrevista ao TecMundo, um suposto hacker afirmou ter usado senhas vazadas de servidores públicos para enviar os alertas. Ainda segundo ele, o disparo teria sido feito intencionalmente após o jogo do Brasil na Copa.
O que é o alerta
O Defesa Civil Alerta é uma plataforma utilizada para enviar avisos de emergência à população. O sistema opera por meio da tecnologia Cell Broadcast, que permite encaminhar mensagens para celulares conectados à rede móvel em uma área determinada.
Os avisos aparecem em formato de pop-up, sobrepondo-se ao conteúdo exibido na tela do aparelho. Em situações de risco, também podem emitir sinais sonoros para chamar a atenção da população, como ocorreu neste caso.
A suspeita da Defesa Civil Nacional é de que a plataforma tenha sido alvo de invasão por hackers, já que as mensagens foram disparadas remotamente por alguém sem autorização.
Além do alerta sonoro, moradores do Rio de Janeiro relataram ter recebido mensagens de texto com conteúdo incomum, incluindo as palavras “misantropo” e “burros”. O texto, com erros de escrita e sem contexto, reforçou a suspeita de falha ou uso indevido do sistema.
Em Belo Horizonte, a mensagem dizia: “Proteja-se: ataque alienígena, humanos chegamos, misantropo”.
Quais regiões receberam?
Houve relatos de alertas em oito capitais:
- Belo Horizonte (MG);
- Brasília (DF);
- Campo Grande (MS);
- Curitiba (PR);
- Rio Branco (AC);
- Rio de Janeiro (RJ);
- Salvador (BA);
- São Paulo (SP).
As Defesas Civis dos oito estados divulgaram notas informando que não emitiram as mensagens e esclareceram que não havia qualquer situação de risco.
Desabilitados
A Defesa Civil do Estado de São Paulo desabilitou temporariamente a ferramenta ainda na madrugada de sábado, até que as autoridades federais esclareçam a situação do programa nacional Cell Broadcast.
Plataforma retirada do ar
A Defesa Civil Nacional informou que a plataforma Defesa Civil Alerta foi retirada do ar à 1h30 da madrugada de sábado, após a identificação de uma invasão. O sistema está sendo reabilitado gradualmente.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional informou que acionou a Polícia Federal para investigar o episódio.
Ainda no sábado, a Polícia Federal abriu uma investigação preliminar para apurar o disparo dos falsos alertas extremos. Segundo a corporação, o procedimento já está em curso.
De acordo com a pasta, 10 alertas falsos foram disparados entre 23h41 de sexta-feira e 1h23 de sábado. Desses, nove foram enviados pelo sistema Cell Broadcast e um por SMS. Ainda não foi possível estimar quantos celulares receberam as notificações.
Como funciona o sistema?
O Defesa Civil Alerta é um sistema público criado para enviar avisos emergenciais a celulares localizados em áreas de risco. Ele é usado em situações como chuvas intensas, enchentes, enxurradas, alagamentos, deslizamentos de terra, vendavais e outros eventos capazes de colocar a população em perigo.
A tecnologia utilizada na ferramenta se chama Cell Broadcast. Diferentemente de mensagens SMS ou notificações de aplicativos, ela não envia o alerta para números cadastrados individualmente. O aviso é transmitido pelas antenas de telefonia para todos os aparelhos compatíveis conectados à rede móvel em uma determinada área.
Isso permite que a Defesa Civil envie mensagens para regiões específicas, delimitadas por critérios técnicos e geográficos.
Por esse motivo, o sistema não exige cadastro prévio, aplicativo instalado, pacote de dados ativo ou conexão à internet. O objetivo é alcançar rapidamente o maior número possível de pessoas em uma área sob risco.
Alerta Extremo: risco mais grave
As notificações enviadas neste fim de semana foram classificadas como “Alerta Extremo”, categoria mais grave do sistema, utilizada quando a Defesa Civil identifica ameaças com risco iminente à vida e necessidade de proteção imediata da população.
Essa não é a primeira vez que a categoria é acionada. Em 31 de maio deste ano, esse tipo de alerta foi emitido para moradores de Manaus, capital do Amazonas, com a seguinte mensagem: “Deslizamento para Manaus. Afaste-se de encostas. Procure abrigo seguro”.
Ao longo de 2025, a mesma classificação foi usada em várias regiões do Brasil para alertas de alagamentos, tempestades com raios, deslizamentos de terra, queda de granizo, inundações e vendavais.
O sistema da Defesa Civil conta também com o “Alerta Severo”, uma classificação de menor urgência. Nesses casos, a população tem mais tempo para adotar medidas de proteção.
O que é misantropia?
Segundo dicionários da língua portuguesa, misantropia é a característica de quem sente aversão, desconfiança ou rejeição à humanidade.
A palavra também pode ser usada para descrever tendência ao isolamento social ou um estado de profunda tristeza e melancolia.
O que diz o governo?
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) informou que investiga o acionamento indevido e não autorizado do sistema Defesa Civil Alerta (DCA).
A plataforma está temporariamente suspensa, e a Diretoria de Tecnologia da Informação trabalha no restabelecimento escalonado e seguro do sistema após a identificação de um incidente de segurança cibernética na Interface de Divulgação de Alertas Públicos (IDAP). Até o momento, não há evidência de dano estrutural ao sistema DCA.
Com base na investigação da Polícia Federal e no diagnóstico realizado pelos órgãos competentes, deverão ser implementadas medidas para reforçar a segurança da plataforma.
Em nota, a Anatel informou que, até o momento, “os alertas em questão não passaram pelos canais oficiais da plataforma técnica do sistema, operada pela ABR Telecom (Associação Brasileira de Recursos em Telecomunicações)”.
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