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Ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil em 20 anos, aponta estudo

Pesquisa da Fiocruz e da UFBA associa calor extremo ao aumento da mortalidade e das internações por doenças respiratórias, cardiovasculares e renais no SUS

Estadao Conteudo 17/06/2026
Ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil em 20 anos, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ondas de calor provocaram mais de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019, segundo estudo inédito divulgado nesta quarta-feira (17) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A pesquisa foi conduzida por especialistas da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com coordenação das equipes técnicas dos projetos Ciência&Clima, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e ProAdapta, dos ministérios do Meio Ambiente do Brasil e da Alemanha.

O levantamento analisou dados de mortalidade por doenças cardiovasculares e do aparelho circulatório registrados no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) em 5.566 municípios brasileiros. De acordo com a Fiocruz, os resultados mostram, de forma consistente, a associação entre a exposição ao calor extremo e às ondas de calor e o aumento das mortes no país.

Os grupos mais afetados foram idosos, mulheres e pessoas com menor escolaridade, o que evidencia o peso dos fatores sociais na vulnerabilidade aos impactos do calor.

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos do calor extremo sobre as internações no SUS. Em quase todas as regiões do Brasil, foi identificado aumento consistente do risco de hospitalização por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e por problemas do sistema urinário, como insuficiência renal.

Segundo o estudo, o estresse térmico sobrecarrega as funções cardiorrespiratórias, contribui para processos inflamatórios e agrava doenças respiratórias preexistentes. O calor também afeta o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia — redução do volume total de sangue e líquidos no corpo — e da disfunção renal.

Entre crianças, o efeito mais comum observado em todas as regiões do país foi a ocorrência de diarreias. A explicação está na maior suscetibilidade desse grupo à desidratação e no fato de ainda não apresentarem mecanismos plenamente maduros de regulação da temperatura corporal. Além disso, alterações ambientais provocadas pelo calor podem comprometer a qualidade da água e o armazenamento de alimentos.

A população idosa demonstrou alta sensibilidade a problemas respiratórios, renais e metabólicos, como diabetes. Isso ocorre pela redução da capacidade de regular a temperatura corporal, pela presença mais frequente de doenças crônicas e pelo uso de medicamentos que interferem no equilíbrio das funções do organismo. Conforme a pesquisa, em ondas de calor muito intensas, casos de idosos com problemas cardiorrespiratórios podem evoluir rapidamente para quadros graves.

A maioria dos municípios brasileiros apresentou tendência de aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor ao longo do período analisado, embora tenham sido observadas diferenças regionais.

Os eventos de calor extremo foram mais frequentes, longos e persistentes nas regiões Norte e Centro-Oeste. Já os episódios de maior intensidade — aqueles com maiores diferenças em relação à temperatura média local — ocorreram no Sul e no Sudeste.

“A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade”, destacou a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz, responsável por conduzir o trabalho.

“De modo geral, o estudo reforça evidências já descritas na literatura, mas avança em análises mais detalhadas sobre os impactos do calor extremo na saúde da população brasileira”, acrescentou.

Entre as recomendações apresentadas pelos autores estão a implementação de sistemas de monitoramento e alerta antecipado, a orientação à população e o fortalecimento da capacidade de resposta do SUS. O estudo também defende que informações climáticas sejam incorporadas de forma sistemática aos processos de vigilância epidemiológica e ambiental, para antecipar riscos e preparar medidas preventivas e assistenciais.