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Evasão de até 60% no ensino privado faz universidades adotarem análise preditiva para conter crise

Universidades adotam análise preditiva para reduzir perdas e sustentar previsibilidade financeira

Assessoria 17/06/2026
Evasão de até 60% no ensino privado faz universidades adotarem análise preditiva para conter crise
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O ensino superior privado no Brasil entrou em uma nova fase de pressão estrutural. Com mais de 10,2 milhões de universitários no país, sendo quase 80% deles em instituições privadas segundo o Semesp, o setor convive hoje com uma combinação de fatores que desafiam seu modelo de crescimento: desaceleração do ensino a distância (EAD), retração nas matrículas presenciais, maior sensibilidade ao preço e, principalmente, o avanço da evasão ao longo dos cursos.

Se antes o abandono se concentrava nos primeiros semestres, agora ele se distribui ao longo de toda a jornada acadêmica. Dados do setor indicam que a evasão no ensino superior privado pode se aproximar de 60% ao longo dos cursos, o que compromete não apenas a formação dos alunos, mas também a previsibilidade financeira das instituições.

“Na prática, isso altera a lógica econômica do setor. Universidades operam com base em receita recorrente sustentada pela permanência do aluno. Quando a evasão cresce, o tempo de permanência diminui, pressionando indicadores como receita, margem e custo de aquisição”, explica o especialista em investimentos do Grupo Axia Investing, Felipe Sant’Anna. Ele detalha que o impacto já aparece, de forma mais evidente, em companhias como Yduqs, Cogna e Ânima, que vêm ajustando suas estratégias para lidar com uma base mais volátil e exigente.

Segundo Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners, as principais causas da evasão estão relacionadas à inadimplência, à autonomia dada ao aluno do ensino à distância, além da própria vulnerabilidade socioeconômica dos alunos. “As ações das empresas mais pressionadas são YDUQ3 e VSTA3. Já aquelas com foco híbrido tendem a performar melhor”, afirma.

Nos últimos anos, as empresas passaram a priorizar qualidade de base, ticket médio e eficiência operacional, em um movimento que reflete uma mudança mais ampla no setor: o foco deixa de ser apenas captação e passa a incluir retenção como variável central de crescimento.

“A evasão deixou de ser um problema pontual e passou a representar um risco estrutural ao modelo de negócio. Hoje, o aluno não abandona apenas no início do curso, mas ao longo de toda a trajetória, o que dificulta o planejamento e aumenta a volatilidade dos resultados”, afirma Sant’Anna.

O efeito vai além do financeiro. Segundo Francisco Borges, consultor da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT), a saída de alunos ao longo do curso desorganiza a operação acadêmica. “A evasão no meio da jornada compromete planejamento, uso de recursos e pressiona um modelo de custos que já é elevado nas instituições privadas”, observa.

O fenômeno também varia de acordo com a região. Em grandes centros urbanos, cresce a mobilidade entre instituições, impulsionada por ofertas agressivas e maior facilidade de transferência. Já em cidades menores, fatores como renda e capacidade de pagamento têm peso ainda maior na decisão de permanência.

Diante desse cenário, universidades privadas começam a adotar ferramentas mais sofisticadas de gestão, importadas de setores como telecomunicações e serviços financeiros. A principal delas é a análise preditiva aplicada ao chamado churn educacional, ou seja, a probabilidade de um aluno abandonar o curso antes da conclusão.

A lógica é antecipar o problema antes que ele aconteça. “Os sinais de evasão aparecem muito antes do trancamento formal”, afirma Joney Augusto Palma, CPTO da Datarisk. “É possível identificar riscos semanas ou até meses antes, a partir de dados acadêmicos, financeiros e comportamentais”, lembra.

Esses modelos combinam informações como histórico de pagamento, frequência, desempenho, engajamento em plataformas digitais e até padrões de interação com a instituição. A partir daí, geram alertas que permitem intervenções mais rápidas e direcionadas.

“Na prática, muitas universidades só percebem a evasão quando o aluno já decidiu sair. A análise preditiva muda isso, porque permite agir antes, seja com apoio acadêmico, renegociação financeira ou ajustes na comunicação”, diz Palma.

Para especialistas, o avanço dessas ferramentas sinaliza uma mudança mais profunda na gestão do ensino superior. “Não se trata apenas de tecnologia, mas de uma nova forma de operar, mais orientada por dados”, afirma Palma. “A análise preditiva amplia a capacidade de entender o comportamento do aluno e agir antes que a evasão se concretize.” Com a competição mais acirrada e o crescimento mais lento, a tendência é que esse movimento se intensifique.