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Guterres diz que mundo não pode ignorar crise humanitária no Haiti

Secretário-geral da ONU visitou acampamento de deslocados e cobrou apoio internacional diante da violência e da fome no país

Agência Brasil 17/06/2026
Guterres diz que mundo não pode ignorar crise humanitária no Haiti
António Guterres cobra apoio internacional durante visita ao Haiti em meio à crise humanitária

Em visita ao Haiti, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou na terça-feira (16) que o mundo “não tem o direito” de desviar o olhar da crise humanitária que atinge o país caribenho.

Guterres classificou a situação como “a mais grave em curso no Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente”.

Durante a viagem, o secretário-geral esteve em um acampamento de deslocados internos e se reuniu com integrantes da força internacional, com o objetivo de alinhar apoio logístico no combate às gangues. Ele também manteve encontro com o primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé.

Segundo a ONU, Guterres pediu celeridade na transição política e reafirmou que cabe aos haitianos liderar a definição do futuro do país, com apoio da comunidade internacional.

Violência armada

O Haiti enfrenta instabilidade política e conflitos entre grupos armados, que controlam áreas da capital, Porto Príncipe. O país é governado por Fils-Aimé, apoiado pelos Estados Unidos, mas não realiza eleições desde 2016.

Desde o início do ano, a violência deixou mais de 2,3 mil mortos e 1,1 mil feridos no país. De acordo com comunicado divulgado pela ONU, Guterres destacou que mulheres e crianças estão entre as principais vítimas da insegurança.

“Com infâncias roubadas, o número de menores recrutados por gangues triplicou em apenas um ano. Atualmente, esses haitianos estão privados de proteção, educação e de um futuro. Outra questão é a da violência de gênero, que a cada dia registra a agressão de uma média de mais de 20 mulheres e meninas no país”, informou a ONU.

O chefe das Nações Unidas afirmou que há uma ligação direta entre a ausência da comunidade internacional e a falta de segurança para a população haitiana. Para ele, a indiferença global é “a maior desgraça” que se abate sobre o Haiti.

Indiferença internacional

Os dados da ONU apontam que 6 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar no Haiti e que 1,5 milhão estão deslocadas pela violência. O país tem aproximadamente 12 milhões de habitantes.

Durante a visita, Guterres disse a jornalistas que “o avanço das gangues criminosas tenta roubar o futuro do país”, mas ressaltou que a solidariedade internacional e a cooperação local começam a indicar “uma luz no fim do túnel”.

No último ano, equipes de agências internacionais e parceiros humanitários prestaram auxílio essencial a quase 3 milhões de pessoas no Haiti.

O esforço, no entanto, é limitado pela falta de compromisso da comunidade internacional. Segundo a ONU, o Plano de Resposta Humanitária recebeu apenas 25% dos recursos necessários para alcançar a meta de US$ 880 milhões neste ano.

Guterres afirmou que “o Haiti não está pedindo caridade”, mas cobrando que o mundo cumpra sua palavra em um momento que exige urgência.

Apesar do cenário crítico, o secretário-geral da ONU disse que “uma virada já começou” no país. Ele citou bairros de Porto Príncipe que vêm sendo recuperados pelo Estado como sinais de uma retomada gradual.

“Por trás dos números, existe um povo de coragem admirável que se recusa a se curvar diante da violência”, declarou.

Batalha vetada pela Fifa

Poucos dias depois de a seleção de futebol do Haiti ser forçada a mudar de uniforme na Copa do Mundo por causa de referências à luta pela independência em sua camisa, o secretário-geral da ONU citou a batalha censurada pela federação internacional.

Em tom otimista, Guterres lembrou que, em 1803, na Batalha de Vertières, contra colonizadores franceses, “o povo haitiano conquistou o impossível ao quebrar suas correntes e se libertar”. Segundo ele, “esse mesmo espírito vive hoje”.

Além de anticolonial, a Independência do Haiti tem importância histórica por ter sido um movimento protagonizado por pessoas negras escravizadas.

Para exaltar essa memória, o Haiti trazia no uniforme uma ilustração de revolucionários empunhando a bandeira do país, o que a Fifa considerou violação ao regulamento da competição.

O Haiti é o próximo adversário do Brasil na Copa do Mundo. As duas seleções se enfrentam na sexta-feira (19), às 21h30.

*Com informações de ONU News.