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EUA retomam guerra às drogas com discurso antiterrorista, avaliam analistas

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmam que a classificação de facções como terroristas reedita estratégia usada desde Nixon para ampliar influência sobre a América Latina.

Sputnik Brasil 16/06/2026
EUA retomam guerra às drogas com discurso antiterrorista, avaliam analistas
Analistas veem nova estratégia dos EUA para associar narcotráfico a terrorismo - Foto: © AP Photo / Alex Brandon

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas avaliam que o atual governo dos Estados Unidos, ao elevar facções de narcotráfico ao patamar de organizações terroristas, repete uma estratégia lançada por Richard Nixon há 55 anos: usar o combate às drogas como instrumento de pressão e influência sobre a América Latina.

Em 18 de junho de 1971, o então presidente norte-americano Richard Nixon declarou o uso de drogas como “inimigo público número um” e deu início à política global conhecida como guerra às drogas. Agora, 55 anos depois, o governo dos EUA faz uma releitura dessa política de contenção, com a Casa Branca equiparando organizações de narcotráfico a grupos terroristas.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que a estratégia de Nixon, ao lançar a guerra global contra as drogas, era exportar para além das fronteiras a prática interna de repressão às populações mais vulneráveis e marginalizadas dos Estados Unidos.

“Foi um momento em que a economia política do narcotráfico passa por uma transformação, há um crescimento exponencial de um mercado global de drogas ilícitas e, nesse contexto, Nixon vê uma oportunidade, digamos, de adicionar uma janela estratégica às políticas de exposição e de expansão do poderio e influência geopolíticos dos EUA”, afirmou.

Segundo Rodrigues, naquele período, o alvo principal da agenda de expansão de poder de Nixon era a América Latina, região que voltou ao radar do governo norte-americano em razão do avanço da influência da China. Diante desse cenário, o governo Trump reativou a agenda de combate às drogas, aproveitando a estrutura já montada para o enfrentamento ao terrorismo.

“Agora a gente volta ao centro da agenda e volta colado à própria agenda da guerra contra o terrorismo, que na verdade é uma tática para poder fazer funcionar toda uma engrenagem repressiva que os EUA já têm montado justamente por conta da guerra contra o terrorismo há 25 anos”, disse o professor.

Nos Estados Unidos, há duas classificações para organizações terroristas. A primeira é a de “Terroristas Globais Especialmente Designados”, que permite ações financeiras contra membros dos grupos e empresas que se relacionem com os acusados. A segunda é a de “Organizações Terroristas Estrangeiras”, que autoriza medidas judiciais contra indivíduos associados.

No caso brasileiro, Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) foram enquadrados na primeira categoria. A segunda designação, segundo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deveria ocorrer até 5 de junho, mas não foi efetivada.

Para Rodrigues, o movimento sinaliza uma estratégia de pressão sobre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que mantém aberta uma janela de negociação. “Do tipo: ‘Olha, a gente está namorando a ultradireita, como você sabe, e a gente tem a intenção de agradá-los, mas a gente pode chegar a algum acerto aqui e não incluir’”, afirmou.

O especialista sustenta ainda que, ao colocar narcotraficantes na mesma categoria de terroristas, os EUA repetem uma prática adotada há pelo menos cinco décadas na América Latina: induzir a militarização das dinâmicas de segurança interna dos países da região.

Carlos Frederico Cinelli, professor de Direito Internacional visitante da Escola Superior de Defesa e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), destaca que, em períodos eleitorais, o tema da segurança pública costuma voltar ao centro do debate. Desta vez, segundo ele, a discussão aparece “temperada” pela decisão do governo dos EUA sobre as facções brasileiras.

No entanto, Cinelli ressalta que, se a militarização e as ações intervencionistas fossem a solução, o Rio de Janeiro já teria “atenuado de modo significativo” o enfrentamento ao crime organizado.

“O que falta é colocar em perspectiva. Grupos como os que atuam no Oriente Médio são grupos armados não estatais, que conduzem as suas ações de violência com objetivos políticos, ideológicos, religiosos, sectários muito definidos”, afirmou.

Em contraponto, diz o especialista, as organizações criminosas brasileiras têm como objetivo central de suas ações o lucro financeiro e o acúmulo de riqueza.

Cinelli afirma que as facções criminosas brasileiras não estão preocupadas com a classificação que receberão, pois isso “vai mudar zero o modo de atuação delas”. Ele observa ainda que há uma confusão ao tratar, da mesma forma, atos de terror pontuais praticados por facções para causar pânico momentâneo — como incendiar ônibus para impedir o acesso da polícia a comunidades — e a agenda do terrorismo propriamente dito, que busca manter o uso permanente do terror contra a população.

“Ou seja, aquela sensação de ‘Quando vai explodir a próxima bomba?’, ‘Em que teatro vai explodir a próxima bomba?’ [...] para fazer com que as autoridades governamentais que estão sendo, elas sim, desafiadas, possam ceder nas suas agendas”, explicou.